O vírus e as veias abertas
A Vale, tendo paralisado suas atividades mineradoras em países como o Canadá, por exemplo, segue lançando seus mineiros brasileiros nas “bocas do inferno” em plena pandemia
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Mineradores em Potosí na atualidade, emblemática "Boca do Inferno". | Vinicius Assis

A Vale, depois de seu longo histórico de descaso com seus crimes, e protegida pela política “carta-branca” e de salvaguarda por parte da ampliação neoliberal de Paulo Guedes no governo fascista (sua recente fala em vídeo na notória reunião ministerial sobre “salvar os grandes” e deixar os “pequenos” se afogaram reforça a compreensão do quadro), segue sugando livremente o sangue de seus trabalhadores, totalmente desprotegidos, contaminados ou não, mesmo que lhes custe (ou melhor: custando em ainda maior quantidade) a vida.

Ao final de março, mesmo já diante do registro de funcionários contaminados, a empresa mantinha operações e aglomerações nas minas como se tudo seguisse na normalidade. Mesmo antes da recente interdição por conta do escandaloso número de 200 funcionários infectados em 3 minas em Itabira, no estado de Minas Gerais (Minas de Conceição, Cauê e Periquito)  – que ocorreu apenas após denúncia do sindicato à Auditoria Fiscal do Trabalho – a mineradora havia anunciou paralisações de suas atividades apenas em outros países (Canadá, Malásia e Moçambique), mas não no Brasil.

Antes da mencionada interdição, a situação calamitosa provocada pela Vale no Pará tampouco havia inspirado sequer qualquer discrição acerca de sua postura criminosa. Com aval do governo, que havia declarado a mineração como atividade essencial, a Vale passou a “flutuar” acima do progresso fatal do quadro pandêmico.

Em Parauapebas, por exemplo, cidade de 200 mil habitantes que se formou e cresceu por conta da mineração da Vale, e onde a empresa conduz o Complexo Carajás, que é o maior projeto de extração de minério de ferro no mundoresponsável por quase 40% da produção da mineradora –, os dados da epidemia já indicam 1603 casos de infecção e 61 um mortos. Para comparação: o estado do Pará já registra 28.600 casos e 2.500 mortes, e a população do estado é de quase 8,1 milhões; ou seja, o índice de contágio de Parauapebas se encontra praticamente 3 vezes maior que a média do estado.

Neste quadro, seguindo o escalonamento das tendências demagógicas dos governadores em sua oposição teatral ao governo federal, o governador Helder Barbalho decretou o lockdown da capital (Belém) e mais 9 cidade em 7 de maio, mas deixou a cidade mineradora foi convenientemente de fora, evitando conflitos entre o estado e a empresa.

Os bairros de Parauapebas que concentram trabalhadores da Vale, como Cidade Jardim, são os mais afetados. Os trabalhadores são enviados quase exclusivamente ao Hospital Yutaka Yakeda, construído nos anos 80 pela mineradora, onde todas as informações locais sobre a epidemia estão concentradas. Vale acrescentar que os trabalhadores, ao reportarem queixas, só conseguem ter o exame liberado após 10 dias de sintomas, além de diversas outras dificuldades que estão sendo burocraticamente impostas – uma medida dissimuladora com claros potenciais assassinos.

Segundo Evaldo Fidelis, funcionário da mina, enquanto o trabalhador “está se lascando para sobreviver”, ele diz, “a Vale tá ganhando bilhões na pandemia”. De fato, o minério de ferro já subiu mais de 25% no anoultrapassando os 100 dólares por tonelada, inclusive para entregas futuras. Claramente, qualquer prejuízo do qual a Vale não tenha conseguido escapar de maneira “desejável”, com a eficácia de seus crimes e cinismo acerca de Brumadinho (com suas risíveis indenizações que humilharam o povo brasileiro e seus descumprimentos com os já insignificantes acordos, por exemplo), ela tentará compensar (e não apenas) neste cenário pandêmico – que lhe é propício. Um exemplo disso é o fato de já ter registrado um lucro líquido de R$984 milhões (digamos R$1 bilhão) apenas no primeiro trimestre de 2020 – em comparação com a perda de R$6,4 bilhões no mesmo período em 2019, que contempla a proximidade temporal com o desastre. As doações “generosas” de R$500 milhões ao Fundo Todos pela Saúde realizadas pela Vale (R$100 milhões a mais que a JBS), que foram anunciadas apenas em 20 de abril, não nos enganam. Vale também ressaltar que apenas em 1º de abril, data irônica, a empresa havia realizado seu primeiro “ato de generosidade”: US$1 milhão em doações. Basta conferir mais uma vez o dado que antecede: R$1 bilhão de lucro líquido. Isso quer dizer que, além de todos os valores que se abatem em todos os gastos (tudo imaginável – custo de maquinário novo e reparo, pagamento a terceiros, insumos, salários, etc), todos os investimentos em “ampliação”, todos os impostos pagos, em suma, todo o rendimento da empresa ao longo do primeiro trimestre somado a qualquer possível dispêndio, ainda deixou R$1 bilhão de sobra a seus acionistas. Apenas neste período.

Para o trabalhador Evaldo, que está há 9 anos na Vale, as ações e as “doações” anunciadas pela Vale não passam de obrigações da mineradora. Principalmente em cidades como Parauapebas, onde ela é um dos principais vetores de contaminação pela Covid-19.  Ele continua: “Como o governo federal não tem política de saúde, a mineradora aproveitou esse vácuo e viu a oportunidade de doar e trazer aviões da China, maior compradora de minério dela, com o poder que tem. Nos holofotes, para quem está de fora, tá tudo a mil maravilhas, mas o trabalhador que tá na mina é que sabe a verdade. Tem que ficar calado doente, se falar sofre boicote”.

Como uma cínica “medida” para contornar o escândalo público (no mesmo espírito tático durante os crimes em Mariana e Brumadinho), a Vale passou então, no início de maio, a transferir seus funcionários do Pará para Belo Horizonte, em Minas Gerais, outro foco pandêmico, e estado onde ocorreu a recente interdição das 3 minas em Itabira (100km da capital). Talvez esse dado possa ser, inclusive, mais uma pegada do rastro assassino da empresa.

Em Itabira, região das minas interditadas, a fiscalização verificou que, apesar de a Vale ter implementado suas dissimuladas medidas para reduzir a propagação do COVID-19 em suas instalações, haviam graves falhas como pontos de aglomeração de trabalhadores e pouco espaçamento entre assentos em vans que transportam os trabalhadores. Odete Reis, Auditora-Fiscal do Trabalho, acrescenta: “A Vale também ainda não tinha feito nenhum estudo epidemiológico para mapear os trabalhadores infectados ou os pontos em que estavam concentrados”, e segue: “Assim, poderiam ter sido tomadas medidas para reduzir a circulação nesses pontos e para fortalecer o distanciamento”.

É papel da CUT buscar organizar estes trabalhadores para que este foco assassino e expropriador dos gigantes capitalistas do Brasil não possa acelerar ainda mais o processo genocida em andamento, que não pode ser barrado pelas vias institucionais comuns, atadas que estão nos nós entre o Estado fascista e o empresariado. Conhecemos, como já explicitado, o “plano econômico” e de que lado o Estado está. Essa política de morte é imposta pela Vale pela ausência ou baixa organização dos trabalhadores, que se vêem frequentemente isolados em ações que não atingem escala organizativa nacional.

Sem uma organização plena e combativa dos trabalhadores, este processo não apenas se intensificará, mas tornará exponenciais todos os demais processos de degradação social, como um contágio ainda mais amplo e fatal da pandemia, que já tem o Brasil e o povo trabalhador brasileiro, atualmente e como era o desejo da burguesia nacional e imperialista, no “olho do furacão”.

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