Adaptação
Decisão do PT de apoiar candidato Rodrigo Pacheco, do DEM, aliado de Bolsonaro, mostra a farsa total da luta “antifascista” da esquerda parlamentar
rodrigo pacheco
Rodrigo Pacheco | Foto: Getty Images
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Rodrigo Pacheco | Foto: Getty Images

Depois de muita enrolação, dezenas de artigos, entrevistas à Folha de S.Paulo e até mesmo citações de Leon Trótski aberrantemente mal interpretadas, todos os partidos de esquerda com representação na Câmara dos Deputados decidiram apoiar o golpista Baleia Rossi (MDB) na eleição para a presidência da Casa. PT e PCdoB apoiarão o golpista no primeiro turno, enquanto o PSOL garantiu seu apoio no turno decisivo. O principal pretexto foi o argumento fajuto de que seria preciso apoiar qualquer candidato que se opusesse ao candidato apoiado pelo presidente ilegítimo Jair Bolsonaro. Com um aliado na Câmara, Bolsonaro se tornaria um “ditador” porque controlaria a principal casa legislativa.

Ninguém levou a sério o argumento cretino de que o golpista Baleia Rossi seria, na atual etapa de degradação do regime político, o guardião protetor da “democracia” contra as investidas da extrema-direita. No entanto, quando parecia que os dirigentes da esquerda pequeno-burguesa não iam abrir mão da política de que vale tudo contra Bolsonaro, o PT jogou tudo de cabeça para baixo e anunciou seu candidato para a presidência do Senado: Rodrigo Pacheco (DEM), o mesmo que está sendo apoiado pelo próprio Bolsonaro!

Com isso, ficou ainda mais difícil de encontrar uma desculpa. Mesmo sendo injustificável apoiar Baleia Rossi ou qualquer outro candidato da direita nacional nas eleições da Câmara, para que a esquerda se mantivesse minimamente coerente, deveria apoiar a candidata do MDB ao Senado, Simone Tebet. Ou, havendo uma grande crise no partido, seria de se esperar uma ruptura com a política direitista de frente ampla e o lançamento de uma candidatura própria. Nem um, nem outro ocorreu…

Segundo a imprensa golpista, a decisão de não apoiar a outra candidata Simone Tebet seria para evitar que o MDB — o partido de Michel Temer, primeiro presidente golpista — dominasse as duas casas… Ou seja, na Câmara, a esquerda apoiará um golpista profissional, capacho do imperialismo, para impedir a ditadura de Bolsonaro, suposto chefe do Executivo e de parte do Legislativo ao mesmo tempo. No Senado, a esquerda apoiará outro bandido político para evitar a ditadura do MDB, suposto chefe absoluto do Legislativo…

A única conclusão possível a partir desse raciocínio, de que seria necessário impedir tanto a “ditadura” de Bolsonaro como a “ditadura” do MDB é que tanto Bolsonaro quanto o MDB devem ser combatidos. E que, como um seria o oposto do outro, apoiar um em cada casa legislativa seria uma sábia decisão da esquerda para que a direita nacional e a extrema-direita se aniquilassem mutuamente. Obviamente, tal política não tem pé algum na realidade…

A decisão da esquerda de apoiar a direita na Câmara e a extrema-direita no Senado não tem coisa alguma de sábio, nem o bolsonarismo seria o oposto do MDB. Muito pelo contrário: a esquerda está apoiando justamente os seus dois grandes inimigos. Embora haja algumas contradições superficiais entre a direita e a extrema-direita, há um interesse em comum muito bem definido: combater a esquerda para levar adiante a política dos capitalistas.

Em 2016, direita e extrema-direita se uniram, sem pudores, para derrubar o governo de Dilma Rousseff. Representantes diretos do imperialismo, como Aécio Neves (PSDB), marcharam ao lado de fascistas que pediam abertamente uma intervenção militar. Ao mesmo tempo, toda a imprensa burguesa organizou uma intensa campanha de calúnias e intrigas claramente anticomunista, dando espaço a vigaristas como Demétrio Magnoli, Augusto Nunes, Rodrigo Constantino, Kim Kataguiri etc. Embora o impeachment tenha sido orquestrado pelo imperialismo a extrema-direita viu ali, corretamente, uma oportunidade para ampliar sua propaganda fascista e mobilizar seus apoiadores.

Em 2018, quando o governo golpista de Michel Temer (MDB) estava em crise total, a direita nacional não pensou duas vezes: resolveu apoiar o único candidato direitista que tinha condições de, ajudado por uma fraude escancarada, sair como vencedor das eleições: Jair Bolsonaro. E, até hoje, Bolsonaro está no poder, uma vez que a direita nacional, que já poderia ter lhe derrubado através de um dos vários pedidos de impeachment registrados, teme que sua queda leva a esquerda de volta ao comando do Executivo.

Neste sentido, o apoio à direita e à extrema-direita revela que a esquerda nacional não tem uma posição bem definida nem em relação ao golpe de 2016, nem em relação ao governo Bolsonaro. Os vários discursos inflamados contra o “fascismo” são, portanto, uma farsa, ao ponto de a esquerda apoiar o fascista que deverá presidir o Senado. Assim como foram uma farsa os discursos contra o golpe — dos quais até Ciro Gomes foi signatário —, ao ponto de a esquerda apoiar um aliado direto de Michel Temer…

Se a esquerda é incapaz de lutar contra a direita ou contra a extrema-direita, acaba por se revelar como uma nulidade política absoluta. Se, ao defender a direita nacional contra a extrema-direita, a esquerda já havia se colocado como apêndice dos golpistas, agora, defendendo a extrema-direita contra a direita nacional, a esquerda pequeno-burguesa comprova sua capacidade de se adaptar ao regime, independentemente de qualquer circunstância.

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