Estrangulamento planejado
A América Latina e Caribe, região que já vinha sofrendo terrivelmente com estagnação econômica e desemprego, tem previsões ainda mais desoladoras para seu futuro pós-pandêmico
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Povo do Peru - Ilha Taquile | Edmar Barros

Mesmo antes da pandemia, as previsões econômicas para a America Latina, que responde por 7% do PIB mundial, não eram nada otimistas, e as que eram, o eram de maneira infame, coadunadas com o espírito neoliberal de assalto aos países atrasados.

Um pequeno crescimento econômico de 0,2% para 1,3% era previsto para o continente, ao final de 2019, pelo economista do Itaú-BBA, Mário Mesquita, em artigo para o Valor Econômico. Alinhado com previsões (e, obviamente, exigências) do FMI (Fundo Monetário Internacional), mesma instituição que há pouco mais de 50 anos também era muito otimista com o cenário econômico da região (desconsiderando, é claro, o “detalhe” do cenário amplamente ditatorial do continente à época), Mário Mesquita supôs um crescimento econômico em toda América Latina que estaria por vir e que deveria ser encabeçado pelo Brasil.

Como informa a revista LABS (Latin America Business Stories), um veículo de afirmação neoliberal e propagação ideológica da instituição financeira EBANX, tal análise otimista de Mário Mesquita se justificava porque “a confiança do empresariado voltou com a aprovação da Reforma da Previdência e a manutenção de um ambiente favorável à retomada, com a inflação sob controle e a taxa básica de juros no seu menor nível histórico, 4,5% ao ano. Mas nada entusiasma mais o empresariado que a postura liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, que espera que uma reforma tributária e outros projetos de desburocratização e desvinculação de recursos passem no Congresso em 2020.”

Ou seja, o otimismo não era um otimismo de crescimento amplo, era um otimismo em relação ao possível processo acumulativo do alto empresariado na America Latina e do capital imperialista, encabeçado pela virada de extrema-direita e neoliberal no Brasil. Não nos esqueçamos do otimismo “do mercado” durante as eleições do fascista Jair Bolsonaro, e nos lembremos que o mercado soube “votar com os índices da bolsa” de forma promíscua e insinuativa. A atual direção da economia pelo Sr. Guedes também é clara: “salvar os grandes, abandonar os pequenos”.

Contudo, mesmo deixando claro em que lado do tabuleiro o otimismo econômico dos analistas, empresas e “mercado” jogam, a LABS, em matéria de 31 de dezembro de 2019, ainda nos deixa escapar uma pequena pérola, ao dizer que “para conquistar também a confiança da população, a volta do emprego seria o fator mais importante na equação de 2020, ano em que o país também terá de enfrentar uma nova agenda de reformas em meio a eleições locais. Mas os analistas já avisaram que a recuperação do mercado de trabalho será lenta e gradual.”

O alerta foi dado: o crescimento não depende da (e sequer é voltado para a) confiança da população, e esta última é levada em conta por conta das eleições, nada mais. Quanto ao emprego: “tenham calma”, o processo será “lento e gradual”.

Previsões como a do CEPAL, que registrara estagnação da economia do continente em 2019, com crescimento formal de apenas 0,1%, também indicaram em novembro último a porcentagem de até 1,4% para 2020 – quase o mesmo número, mas exibindo muito menos “otimismo”. Importante lembrar que, desde abril, quando a agência das Nações Unidas antecipou um crescimento de 1,3% para 2019, a economia da região continuou desacelerando e arrastando as projeções para baixo, até chegar ao registro de 0,1%.

Para um comentário sobre o otimismo mencionado acima, em especial para o processo “lento e gradual” contido no otimismo dos analistas da direita, demonstremos que o desemprego também crescia com brutalidade (e com as medidas atuais, continuará crescendo): em 2019, as taxas de desemprego aumentaram em 9 dos 14 países da América Latina (mais de 25 milhões de latino-americanos e caribenhos desempregados). Em 2018, Guy Ryder, diretor-geral da OIT (Organização Internacional do Trabalho), já afirmava que após 2014 a região entrou em um ciclo de desaceleração econômica em que o desemprego médio havia passado então de 6,1% para 8,1% em 2017.

Além disso, o mais preocupante já se insinuava com clareza: já mais da metade dos trabalhadores na América Latina (53%) trabalhavam informalmente. Os dados continentais hoje, em especial pela imponente presença do Brasil no bloco, já se elevaram (também em relação ao desemprego, já que o Brasil segue sendo o líder continental em desemprego e informalidade – e parece lutar para manter-se no lugar mais alto do pódio).

Ainda neste campo de dados, de acordo com o IBRE (Instituto Brasileiro de Economia), a recessão que o Brasil passou, sendo o país economicamente central do bloco, já caracteriza esta como sendo a pior década de crescimento econômico dos últimos 120 anos.

De 2014 a 2019, o PIB brasileiro recuou 1,2% ao ano, em termos reais, algo sem precedentes na história do País. Na comparação internacional, no biênio de crescimento negativo (2015 e 2016), mais de 90% dos países apresentaram um desempenho econômico melhor que o Brasil. A variável econômica mais sensível para a população, a taxa de desemprego, já se encontrava em 2019 com mais de 13 milhões de desempregados. Bem, se havia qualquer otimismo perverso em relação ao tal “crescimento econômico”, a pandemia, que veio como um tsunami de encontro com uma ruína, não mais permite este cinismo. Todas as previsões desceram pelo ralo.

Este é o cenário de terra arrasada que a pandemia veio para impulsionar. Com o COVID-19, as projeções mais atuais (abril-maio) para as 11 mais significativas economias da região já indicam que haverá recessão em todas elas. A FGV (Fundação Getúlio Vargas) estima uma retração de 4,8% na economia brasileira.

Segundo Lia Valls, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), o Peru aparece como país a ser mais atingido, descendo de uma expectativa de 3,5% de crescimento para 5,3% de queda (distância de quase 9 pontos percentuais). O México aparece em segundo lugar, descendo da estimativa de 1,4% de crescimento para 7,4% de retração – de acordo com a pesquisadora, resultado do atraso nas medidas da contenção do COVID-19 no país.

A pesquisa demonstra também que o Paraguai será o menos atingido: um decréscimo de 1,8% no PIB frente a uma estimativa anterior de 4% de crescimento. Ainda segundo Lia, isso se daria por conta de tarifas de energia elétrica módicas, facilidades tributárias e mão de obra muito barata (ou seja, “cresce a economia” porque impera e cresce a desigualdade e o capital imperialista).

Não é sem razão que os países que seguem ao Paraguai na lista dos que serão menos atingidos (mas em vias de certeira recessão) são justamente os países de mais forte desigualdade e atual domínio imperialista na região, além de grave repressão: Colômbia, Bolívia e Chile (não deixando Brasil de fora). Lembremo-nos: são os mais enfraquecidos os que a matilha costuma rodear antes do bote…

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