Frente ampla
Setores mais direitistas da esquerda nacional estão em campanha aberta contra o ex-presidente e a ala sob sua influência no PT
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Ex-presidente Lula | Foto: EBC

Em coluna publicada no dia 6 de dezembro, Lauro Jardim, um dos principais porta-vozes de seus patrões no jornal O Globo, afirmou que os “caciques” do PT estariam articulando um plano para driblar a influência de Lula sobre o partido. A maior preocupação dos tais “caciques” seria, de acordo com o próprio Lauro Jardim, “a ideia fixa de Lula de se colocar como candidato em 2022”. A solução encontrada, por sua vez, seria a de “listar interessados em disputar uma prévia e partir em campanha pelo país, nos moldes das primárias americanas”.

Apesar de muito malicioso, o texto escancara uma realidade: o PT é um partido dividido. Tão dividido que a burguesia considera a possibilidade de transformar suas disputas internas em verdadeiros referendos nacionais. Nas eleições norte-americanas, ficou claro que a disputa entre Bernie Sanders e Joe Biden sintetizava a luta entre a ala esquerda do Partido Democrata e a sua ala mais pró-imperialista. De maneira semelhante, pode-se afirmar que as “prévias brasileiras” expressariam uma guerra entre a ala lulista do PT e os seus setores mais direitistas.

A divisão do PT é o resultado direto da situação política. Na medida em que a polarização se intensifica, afastando cada vez mais a classe operária, radicalizada, da burguesia, golpista e sedenta, as contradições em um partido político como o PT aumentam. De um lado, os setores mais próximos da burguesia, que são sua ala direita, composta por parlamentares e carreiristas pequeno-burgueses sem vínculo com a classe operária, buscam adaptar o partido para o regime golpista. De outro, os setores mais proletários, ligados diretamente ao movimento operário e popular, procuram, ainda que de maneira pouco consciente, se chocar com o regime para ter os seus interesses satisfeitos.

O conflito entre Lula e os “caciques” é, portanto, a expressão desse fenômeno. Maior liderança popular do país, apoiado por mais de quatro mil sindicatos e por dezenas de milhares de sem terra, Lula é um fator de grande desestabilização do regime golpista. Nesse sentido, mesmo que a burguesia queira, não é possível, na atual etapa, firmar um acordo entre Lula e os golpistas, uma vez que o programa da direita é de uma devastação tão profunda que a base lulista criaria um enorme impasse. É por isso que, para o imperialismo seguir adiante com seus ataques, é preciso remover Lula da situação política. A maior expressão de resistência ao golpe dentro do PT é, portanto, Lula e a base que o apoia.

Os “caciques” não têm poder real algum no que diz respeito à base do PT. O partido não conta com uma única figura que tenha, nem de longe, a mesma influência que Lula tem sobre sua base. Apenas são chamados de “caciques” pela imprensa burguesa porque são antigos no partido e conseguiram assumir algum papel burocrático de dirigente. De um ponto de vista real, suas opiniões não deveriam valer coisa alguma: não construíram o PT, não são parte do movimento operário, não lutaram contra o golpe e lavaram as mãos para a prisão de Lula.

Embora Lauro Jardim não dê nome aos bois, todos sabem quem são os “caciques” do PT, até porque eles não fazem tanta questão assim de se esconder. Nunca falam, abertamente, que Lula deveria estar preso até hoje. Mas, como para bom entendedor, meia palavra basta, os “caciques” sempre conseguem dar o seu recado por meio da imprensa burguesa.

Alguns dias antes da coluna de Lauro Jardim, o ex-governador da Bahia Jaques Wagner lançou sua pré-candidatura à presidência da República:

“A gente não pode ficar refém. Eu sou amigo irmão do Lula, mas vou ficar refém dele a vida inteira? Não faz sentido. (…) Meu nome está posto tanto na cena nacional como na cena estadual. Eu tenho responsabilidade”..

Jaques Wagner é um típico representante do PT, que defendeu que a esquerda deveria apoiar a candidatura de Ciro Gomes em 2018, em vez da candidatura de Lula. O grande ato que Lula participou antes de ser preso aconteceu em Salvador, e Jaques Wagner, mesmo estando em sua terra, se recusou a participar do evento.

Junto com Jaques Wagner, outro baiano que representa a ala direita do PT tem dado uma série de declarações reveladoras: Rui Costa, atual governador da Bahia. No mesmo dia em que Lauro Jardim publicou sua coluna, Rui Costa veio a público defender Jaques Wagner:

“Eu diria que ele disponibilizou o nome dele, a tendência é que seja ele o candidato”.

Um dia antes, outro “cacique” do PT, dessa vez no Rio Grande do Sul, declarou sua posição em relação a Lula. Tarso Genro, representante notório da ala que quer transformar o PT em um partido mais palatável para o regime, afirmou que a esquerda precisaria acabar com os “hegemonismos impostos”.

Já em Pernambuco, em transmissão ao vivo realizada no dia 6 de dezembro, o senador Humberto Costa, de Pernambuco, afirmou que, embora Lula fosse um candidato forte, seria preciso formar uma frente de esquerda, que fosse do PDT ao PSOL, e que discutisse todos os nomes possíveis, incluindo o de Ciro Gomes.

Por fora do PT, outras figuras da esquerda — ou não tanto assim — exercem sua pressão contra a candidatura de Lula em 2022. É esse o caso de Edmilson Rodrigues (PSOL-PA), com discurso semelhante ao de Tarso Genro: Provamos que a esquerda unida pode derrotar o fascismo. Ninguém tem direito de impor uma derrota ao país por vaidade. O Lula tem que fazer autocrítica, reconhecer que não é Deus”.

Em todos os discursos, repletos de muita demagogia barata, há um mesmo interesse: impedir a candidatura de Lula em 2022. Em meio a essa campanha golpista e traíra no interior da esquerda, há diferentes gradações, embora sempre com o mesmo objetivo: há desde aqueles que se colocam abertamente contra a candidatura de Lula, em geral, apresentando o pretexto de que seus direitos estão cassados ou de que estaria “muito velho”, até aqueles que reconhecem que Lula seria a melhor opção, mas que a esquerda deveria discutir todos os nomes. É preciso, portanto, deixar claro desde já: a única posição possível para os setores da esquerda que querem sinceramente derrotar o golpe de Estado é a campanha, desde já, por Lula presidente.

A principal “crítica” da ala direita do PT é de que Lula teria o interesse de “hegemonizar” a esquerda. Seja lá o que isso signifique, o fato é que quem quer impor uma ditadura no país — o grau máximo de hegemonia política possível — é a burguesia golpista, submetida aos planos macabros do imperialismo. E, na medida em que a esquerda pequeno-burguesa faz campanha para que Lula e sua base se dobre aos seus preconceitos e mandamentos políticos, está tão somente contribuindo para que se estabeleça a hegemonia da direita.

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