Contra a Frente Ampla
A campanha para promover João Doria como o salvador da pátria se intensificou e a esquerda pequeno-burguesa embarcou de cabeça nela. É preciso defender uma política independente.
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Bolsodoria na campanha eleitoral para o governador em 2018 | Foto: Reprodução
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Bolsodoria na campanha eleitoral para o governador em 2018 | Foto: Reprodução

Os principais órgãos da imprensa burguesa, esses mesmos que tiveram participação imprescindível no Golpe de Estado de 2016 e na prisão e perseguição do ex-presidente Lula, já elegeram o novo salvador da pátria brasileira. A direitista Revista Isto É desta semana traz na sua capa a imagem de João Doria segurando um punhado de doses da vacina CoronaVac, com a manchete: “Chegou a vacina brasileira pela persistência de um homem: João Doria”.

Ainda na capa, a Revista nos brinda com um breve resumo da batalha épica que o atual governador de São Paulo teve de travar para conceder ao povo brasileiro o “imunizante redentor”. “Empreendendo todos os esforços”, o tucano teria ultrapassado o “negacionismo” e, para o periódico, focado “na batalha mais essencial: a da vida”. No fim das contas, e como conclusão, estaríamos diante daquele que personifica afinal “o triunfo da ciência sobre o charlatanismo federal”.

Que os setores fundamentais da burguesia apóiem Doria em detrimento de Bolsonaro, isso é claro e bastante compreensível. Afinal, o governo  Bolsonaro, desde o início, representa um governo de crise, cheio de contradições e, até certo, difícil de controlar pela classe dominante. A questão, no entanto, ganha mais complexidade quando se nota que a própria esquerda, seus partidos e sua imprensa, também aderiram ao coro em prol do “pai da vacina brasileira” e se submeteram completamente às coordenadas estabelecidas pela burguesia para a luta política em curso.

A farsa da vacinação de Doria

A campanha da imprensa golpista em favor de Doria não começou agora, mas ganhou fôlego novo após o espetáculo grotesco de marketing que foi qualificado, sem qualquer base na realidade, como o início da vacinação no Estado de São Paulo.

No dia 17 de janeiro, João Doria montou um grande show de exibição. Palco, plateia, fotógrafos e cinegrafistas – tudo estava lá. O protagonista do show, como não poderia deixar de ser, também apareceu para sair na foto. Escolheu como primeiro beneficiário da vacina uma paciente “negra, mulher e enfermeira”, seguindo os métodos demagógicos do imperialismo norte-americano e tocando no ponto fraco da esquerda pequeno-burguesa identitária. Foi um verdadeiro show para a imprensa capitalista mostrar que o Doria, o “científico” e “humanista”,  salvou o Brasil.

Embora a imprensa direitista se esforce em esconder, os elementos da farsa são bastante visíveis para quem quiser ver. Em primeiro lugar, a primeira pessoa imunizada era alguém que já fazia parte do grupo de teste da vacina, ou seja, alguém que já havia sido submetida à vacina em outras oportunidades. Doria, podemos  dizer, imunizou alguém que já estava imunizado.

Em segundo lugar, a vacina utilizada foi obtida a partir de um pequeno lote importado da China especialmente para fazer a sua propaganda política. Trocando em miúdos: o Estado de São Paulo não passa nem perto de possuir as vacinas necessárias para imunizar a população. O Instituto Butantan permanece na dependência de insumos importados para produzir o imunizante e as últimas notícias dão conta que a fábrica que garantirá a produção autônoma da vacina no Brasil só ficará pronta, no melhor dos casos, em outubro. Como é possível, então, iniciar uma campanha de vacinação quando não se tem a vacina?

A farsa da vacinação de Doria se desdobra também em outros episódios.  O governador colocou o Estado na fase vermelha da quarentena aos finais de semana e feriados, bem como nos dias úteis a partir das 20h. Qual o sentido disso? Para que restringir a circulação de pessoas e determinadas atividades nessas circunstâncias específicas?

É evidente que se trata da tentativa de manter o fundamental das atividades econômicas funcionado, ao mesmo tempo em que se gera a aparência de que o governador do Estado está lutando contra a pandemia. Os trabalhadores continuam pegando trens, ônibus e metrôs lotados, continuam indo para os seus locais de trabalho e se aglomerando, mas uma vez que a jornada de trabalho tenha terminado, todos estão proibidos de sair de casa. O trabalhador pode continuar a se submeter ao risco de contaminação desde que permaneça sendo explorando pelo patrão. A quarentena, portanto, é dirigida contra o período de folga do trabalhador, contra o período no qual  ele não está diretamente sob as ordens do capitalista. Transforma-se a população em escrava que só pode sair de casa para trabalhar. Não é preciso ser muito perspicaz para saber que tal medida será absolutamente ineficaz. A população em geral, e com razão, não aderirá a essa diretiva. Trata-se de puro jogo de cena, de uma manobra demagógica , cujo único resultado pretendido é que o povo em geral seja culpado pela pandemia.

E o que dizer do governador que decidiu travar a mais essencial das batalhas, a batalha pela vida, segundo a revista da direita tradicional, quando o estado de São Paulo é responsável por  um quarto das mortes no País? O estado já acumula mais de 50 mil mortes causadas pelo vírus, e os números só aumentam. A título de ilustração, vale destacar que São Paulo sozinho já tem mais mortes que a Argentina, que registrou cerca de 45 mil mortes até o momento. O país sul-americano tem cerca de 44 ,5 milhões de habitantes, enquanto que o estado possui 44 milhões.

Por fim, para completar a farsa, não é possível deixar de mencionar que a tão propalada vacina de Doria é a mais cara e, como se não bastasse, a que tem a menor taxa de eficiência entre as já produzidas. Por que tais fatos são deixados de lado? Por que não se questiona o motivo disso? Qual o critério que o governador “científico” utilizou para escolher esse “imunizante redentor”?

Toda a campanha em torno do golpista João Doria se baseia na ideia de que o governador paulista, ao contrário de Bolsonaro, está decididamente disposto a vacinar a população. Mas uma simples análise da realidade mostra que tudo isso não passa de propaganda enganosa. Tanto Doria quanto Bolsonaro não têm nenhum compromisso com a vacinação do povo.

Quem combate Bolsonaro, não pode apoiar Doria

Para quem olha a situação política do momento do ponto de vista da classe operária e dos explorados, o dado mais significativo e digno de análise é, sem dúvida, o apoio que a esquerda pequeno-burguesa vem entregando ao direitista farsante de São Paulo.

Não raro se ouve da boca de dirigentes políticos, jornalistas, intelectuais e militantes ligados às organizações da esquerda pequeno-burguesa  elogios ao governador que supostamente combate o negacionismo bolsonarista. Para esses setores, Doria estaria do lado da “ciência”, ao passo que Bolsonaro, do lado das “trevas”.  Doria seria o “democrata”, já Bolsonaro, o “fascista”. Outros, ainda mais realistas, pontuam que Doria seria “apenas” um neoliberal, e não um fascista como Bolsonaro. Qualquer semelhança com as análises e descrições da Revista Isto É e de outras publicações da burguesia não é mera coincidência.

Mas será mesmo que Doria é melhor, mais “democrático”, mais “científico”, que Bolsonaro?

João Doria é um típico representante da burguesia e, mais ainda, dos elementos mais reacionários, parasitários e decadentes da burguesia. É,portanto, um verdadeiro inimigo de qualquer progresso, em especial na área da ciência. Capacho dos banqueiros, fez tudo o que estava a seu alcance para cortar o investimento do Estado em pesquisa, de modo a sobrar mais dinheiro para a farra de seus patrões. O servilismo de Doria é tamanho que impôs um duríssimo ajuste fiscal em plena pandemia, liberou a polícia para matar ainda mais do que já matava e está tentando, há meses, roubar mais uma fatia da Previdência dos servidores. Por que um indivíduo como esse poderia ser aplaudido como o herói da nação e ser eleito como o “anti-Bolsonaro”?

A grande operação da direita golpista para promover Doria é uma farsa e deve ser amplamente combatida. Não é possível combater Bolsonaro se apoiando na figura e na política de Doria. Entre Doria e Bolsonaro, não há contradições fundamentais. Os atritos e conflitos que presenciamos entre os dois expressam contradições secundárias, que não ultrapassam os marcos do bloco político que comandou o Golpe de Estado de 2016.

A esquerda pequeno-burguesa, desde o início da pandemia, resolveu entregar toda a iniciativa contra o governo Bolsonaro e contra o coronavírus nas mãos da direita. A esquerda, que não vê as ruas há quase um ano, decidiu, em vez de defender um programa de combate à crise econômica e à crise sanitária que assola o País, elogiar o “empenho” de Doria, para não falar de Caiado e todos os demais governadores direitistas que derrubaram o governo do PT, prenderam Lula  e garantiram a eleição fraudada de Bolsonaro.

Convocados pela direita tradicional, golpista, esquerda embarcou mais uma vez nas carreatas e panelaços que não são mais que formas de manter toda a insatisfação contra o governo Bolsonaro sob o controle da direita. Manifestações desse tipo não consistem  realmente numa luta contra Bolsonaro. A esquerda se apegou de tal maneira a essas manobras, mergulhou tão fundo na política de Frente Ampla, que vem se transformando, ao fim e ao cabo, numa espécie de torcida do PSDB.

É preciso contrapor a isso uma política independente, voltada para as mobilizações de rua, em defesa das palavras de ordem de Fora Bolsonaro e todos os golpistas e eleições gerais com Lula presidente. É preciso combater a política de Frente Ampla, entre cujas funções está colocar toda a esquerda a reboque dos Doria & Cia.

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