A direitização da esquerda
Quem pensa que a política da frente ampla é uma política da esquerda para levar adiante uma luta contra o fascismo, está completamente enganado
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A adesão da esquerda a política da frente ampla fortalecerá a política bolsonarista no Brasil | Paulo Whitaker/Reuters

O centro político, vendo a dificuldade da política da extrema-direita, lança em vários lugares uma política diferente. Ao invés de se apoiar a extrema-direita para derrubar os governos de esquerda, uma vez que esses governos já foram derrubados, é se apoiar na esquerda para tentar recuperar o seu papel político de centro. Essa é a fórmula da frente ampla. Se trata de ressuscitar politicamente os golpistas.

O grande problema da situação política no Brasil para a direita é como retomar o controle político. Aqueles que pensam que a política da frente ampla é uma política da esquerda para levar adiante uma luta contra a direita e o fascismo estão enganados. A política da frente ampla é a política da burguesia. 

Primeiro a burguesia impulsionou no país a extrema direita, com a eleição de Bolsonaro aqui. Usou a extrema-direita para derrubar a esquerda, perderam o controle, e agora estão usando a esquerda para retomar o controle. A burguesia usa a extrema-direita como um espantalho, para agrupar em torno de si, a reboque dela, a esquerda, em nome da luta democrática. O que é algo totalmente grotesco, pois falar que vamos lutar pela democracia junto com aqueles que derrubaram o governo democraticamente eleito de Dilma Rousseff, é um escárnio. 

Outra coisa que devemos levar em consideração é que a direita e a extrema-direita são representantes da mesma classe social, da burguesia. Em um dado momento a extrema-direita pode ficar circunscrita em um setor minoritário da burguesia, porque o setor majoritário não apoia a extrema-direita. A extrema-direita é usada, e depois descartada, como alternativa de poder pois eles não consideram tão grave assim que você deva entregar imediatamente o poder para a extrema-direita. No entanto, eles não descartam a extrema-direita, é um carta que a burguesia pode tirar do baralho quando julgar necessário. A ideia de que a aliança com a direita burguesa tradicional vai levar ao esmagamento da extrema-direita, é totalmente falsa. 

O PCdoB é o partido de esquerda que mais energicamente defende essa política da frente ampla, a política de aliança com aqueles que deram o golpe de 2016. Segundo o PCdoB, devido a ameaça do bolsonarismo, a aliança com a burguesia é fundamental. Uma parte do PT também é favorável a essa aliança. Haddad assinou o manifesto pela frente ampla, assim como outros setores do PT. Em terceiro lugar nós temos o Psol. O Psol é um partido pequeno-burguês quase que puro sangue, ele é um partido composto, fundamentalmente, de arrivistas parlamentares. Em sua maioria, são carreiristas, que querem subir na vida parlamentalmente, e para isso estão dispostos a fazer qualquer coisa para se eleger. Esse tipo de partido está sempre a disposição para fazer as mais estranhas manobras políticas, inclusive a serviço da direita e do imperialismo, para progredir. 

O exemplo da política burguesa do Psol

De um certo modo, os integrantes do Psol são uma burguesia, há pessoas com ideias socialistas dentro do partido, mas uma boa parte do público do Psol são pequeno-burgueses liberais ao estilo norte americano. Eles se colocam a favor dos direitos das mulheres, dos negros e dos LGBTs em um sentido burguês. Não são, de um modo geral, partidários dos direitos democráticos da população, têm um viés inclusive, bastante autoritário na sua política. E como todo grupo pequeno-burguês, o que importa para eles é subir, seja como for.

Heloisa Helena, primeira candidata presidencial do Psol, era uma típica candidata pequeno burguesa conservadora. Evangélica, propagandista contra o direito de aborto das mulheres. O Psol não se importou na época com essa incoerência ideológica. O Psol possui dezenas de candidatos que se dizem feministas, mas não tiveram problema em lançar como candidata uma pessoa que fazia uma campanha contra um dos temas principais da luta das mulheres. 

Heloisa Helena, a presidencia candidata do Psol e fervorosa propagandista anti aborto

Boulos em São Paulo, na disputa eleitoral deste ano, prometeu reeducar a GCM ao invés de dissolver esse órgão de repressão da classe trabalhadora. Boulos foi além, disse que se for eleito (o que já está como certo para ele), vai colocar mais polícia nos bairros populares, mesmo com a matança desenfreada feita pela mesma polícia na periferia. Ou seja, quando se coloca os problemas concretos da classe trabalhadora, o Psol abandona totalmente o discurso esquerdista e adota a política direitista, isso é típico dos candidatos burgueses. 

“Seu discurso é tão redondo, parece até candidato de direita”, foi um dos diversos elogios que Guilherme Boulos (Psol) recebeu de membros da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a casa da burguesia comerciaria de São Paulo.

A esquerda não tem uma política própria

Com o exemplo do Psol nós podemos afirmar que a esquerda não possui uma política própria. A política da esquerda institucional é uma variante da política burguesa. Quando foi dado o golpe, a maior parte da esquerda, quando não apoiou diretamente a retirada do PT do poder como foi o caso do Boulos, ficou totalmente paralisado diante da política da burguesia, pois eles não conseguem agir a não ser como uma variante da política burguesa. 

Todos se lembram que a política da esquerda pequeno-burguesa no início da pandemia era a política do “fique em casa”, isso quando a burguesia e a imprensa batiam na tecla do fica em casa, mesmo quando milhares de trabalhadores não tiveram esse privilégio. A questão da palavra de ordem de “Fora Bolsonaro” foi a mesma coisa. Enquanto o PCO colocou a política do “Fora Bolsonaro” antes mesmo de Bolsonaro ser eleito no segundo turno, a esquerda no geral só começou a fazer a campanha quando a burguesia começou a campanha para tirar Bolsonaro.

Agora temos em questão o problema da vacina obrigatória. Uma parcela da população não quer tomar a vacina. Qualquer tipo de força política democrática deveria dar o direito dessa parte da população não tomar a vacina. Se alguém tem a desconfiança de que qualquer vacina pode lhe fazer mal, ela tem o direito de recusar. Qualquer pessoa que tem um mínimo de noção de direitos democráticos defenderia o direito dessa parcela da população. Porém, aqui temos mais um exemplo da direitização de todo um setor da esquerda. Há setores da esquerda que estão defendendo fervorosamente a obrigatoriedade da vacina, o que chama atenção é essa posição da esquerda, na medida em que a esquerda se atrelou à burguesia em uma luta propagandística contra o Bolsonaro ela está ficando cada vez mais direitista.

Não é possível combater Bolsonaro com a orientação política da direita, fazendo parte da frente ampla, a esquerda deve ter uma política própria, revolucionária, que convoque a mobilização popular, que é a única arma efetiva contra a direita. O efeito da adesão da esquerda a política da frente ampla é o fortalecimento da política da direita e sua retomada ao poder no país.

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