É oficial: Juscelino Kubitschek foi assassinado pelos militares em 1976

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Da Redação – A Comissão da Verdade Vladimir Herzog da Câmara Municipal de São Paulo declarou: o ex-presidente, que levou a capital federal ao centro do País, abriu as portas para as primeiras indústrias automobilísticas se instalarem no ABC paulista e teve o lema de fazer o Brasil crescer “50 anos em 5”, foi assassinado em um complô da ditadura militar.

Os trabalhos da Comissão da Verdade foram concluídos em 2015, 37 anos após a colisão de frente do automóvel Opala, que conduzia JK, na Via Dutra, com um caminhão, vitimando o “peixe vivo” (“como pode o peixe vivo viver fora da água fria” era o “jingle” que lembrava o político mineiro na época) e seu motorista.

O episódio foi considerado um “acidente” durante quase quatro décadas, supondo que o ocorrido foi devido a um problema mecânico do Opala ou que o motorista tivesse tivesse dormido ao volante ou passado mal.

Essa última hipótese foi a acertada. O motorista passou foi muito mal: levou um tiro na cabeça. Um outro automóvel, uma Caravan, emparelhou com o Opala minutos antes, e o motorista do Opala foi visto debruçado sobre o volante e com a cabeça completamente pendente para fora da janela do carro desgovernado, com Kubitschek sentado no banco traseiro. O Opala atravessou o canteiro central que separa as pistas de ida e vinda e trombou de frente com o caminhão. Tudo foi testemunhado pelos motoristas de um caminhão e de um ônibus da Viação Cometa que estavam próximos do ocorrido.

Então é oficial: o ex-presidente do país Juscelino Kubitschek de Oliveira, que governou o Brasil de 1956 a 1961, foi vítima de “conspiração, complô e atentado político” que resultaram em sua morte em 22 de agosto de 1976, período da ditadura militar, declarou a Comissão da Verdade Vladimir Herzog, instaurada pela Câmara Municipal de São Paulo para investigar os crimes cometidos no período em São Paulo, com base em noventa pontos levantados pela apuração.

O depoimento dele ajudou a dar corpo à tese de que o condutor do carro de JK perdeu o controle do automóvel após ser atingido por um tiro na testa. Outro motorista de um caminhão, Ademar Jahn, que estava próximo ao acidente, afirmou aos vereadores que, pouco antes da batida, viu Ribeiro debruçado, com a cabeça caída entre o volante e a porta do automóvel, indícios de que ele estava desacordado e inconsciente no momento da colisão. Logo após o crime, a família de JK recebeu informações de que um automóvel Caravan emparelhou com o Opala do ex-presidente na estrada antes de o carro sair de controle.

As marcas do tiro nunca foram registradas na perícia. E um raio-X, que poderia denunciar o impacto da bala, nunca foi feito. Os indícios foram escondidos. Em um depoimento dado à Comissão, o perito criminal Alberto Carlos de Minas relatou que foi impedido por policiais e agentes do Estado de fotografar o crânio do motorista de JK, durante os trabalhos de exumação dos restos mortais, em 1996, quando o caso voltou a ser investigado. O crânio apresentava um buraco com as mesmas características dos que são provocados por projéteis. A perícia feita no corpo mostrou que o crânio do motorista tinha vestígios de um material metálico, que foi apontado no laudo como sendo de pregos do caixão. A conclusão foi contestada pelos vereadores, que pediram um novo laudo no material encontrado. A resposta da polícia civil de Minas Gerais, onde estão enterrados os corpos, foi que tanto o material como o laudo inicial não foram encontrado, disseram os parlamentares.

Antes do acidente, o ex-presidente estava em uma reunião em um hotel fazenda de propriedade do brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte, que foi professor de João Baptista Figueiredo, que em 1978, dois anos depois da morte de JK, tornou-se o quinto general ditador da República no Brasil.

Juscelino articulava sua candidatura nas eleições indiretas de forma discreta. Em um período de 272 dias, morreram no país três das principais lideranças de oposição ao regime militar: além de JK, em 22 de agosto de 1976, o também ex-presidente João Goulart, em 6 de dezembro de 1976, e o ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda, em 21 de maio de 1977. Os três integravam, à época, o movimento Frente Ampla, que trabalhava pela redemocratização do país.

Os vereadores ligaram as mortes do trio à de Orlando Letelier, ex-ministro das Relações Exteriores do Chile, ocorrida em Washington em 21 de setembro de 1976.

Existem suspeitas (e denúncias) de que as mortes de Goulart e Lacerda também foram “armações”. Jango oficialmente morreu de um ataque cardíaco. Existe a revelação, de um uruguaio, ex-integrante da Operação Condor, Mário Barreiro, atualmente preso em Porto Alegre por outras circunstâncias, que o método utilizado para “eliminar” o ex-presidente foi comum a outros casos de escritores e jornalistas “inconvenientes” para as ditaduras militares dos países do Cone Sul: uma única pílula “fake” era inserida por um agente infiltrado aos remédios que a vítima normalmente consumia, que ficava lá “dormente” até o paciente chegar nela.

No caso de Lacerda, ele deu entrada em um hospital do Rio com uma gripezinha e morreu lá dentro estranhamente.

Vale lembrar que a estilista Zuzu Angel, mãe da jornalista e escritora Hildegard Angel, também foi morta naquele ano de 1976, quando o carro que dirigia, um Karmann Ghia, se “acidentou” caindo em uma ribanceira após um túnel no Rio de Janeiro. Zuzu dava combate incansável à ditadura, em seus desfiles de moda nas capitais do mundo, denunciando e cobrando o corpo de seu filho Stuart, guerrilheiro contra a ditadura, foi preso e desaparecido. Testemunhas que compartilharam cela com ele, relataram que a tortura a que ele foi submetido incluiu amarrá-lo com a boca ao cano do escapamento de um jipe e arrastá-lo pelo patio do quartel.

É muito importante que esses episódios sejam trazidos à luz, especialmente em épocas que pessoas ignorantes, ingênuas ou desavisadas repetem os erros de adular os militares ou fazerem coro com os dementes que dizem sentir falta daquilo.