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“Vai ter derramamento de sangue”, disse o general da reserva Luiz Gonzaga Schroeder Lessa. Foi a resposta dada por ele à Rádio Bandeirantes de Porto Alegre na semana passada quando falava da possibilidade de Lula ser eleito.

Ele repetiu a ameaça nesta segunda-feira (2), respondendo à reportagem do portal UOL, dizendo que “a interferência das Forças Armadas, sem dúvida, vai causar derramamento de sangue”. Essa crise “vai ser resolvida na bala.”

“Muito mais sangue”, disse o general de Brigada Paulo Chagas, também da reserva e pré-candidato de Jair Bolsonaro ao governo do Distrito Federal. “Se as Forças Armadas se julgarem na obrigação de agir, haverá muito mais sangue do que o das 60 mil vítimas anuais da violência, porque, dessa vez, somam-se aos interesses globalistas, políticos e ideológicos, os do crime organizado”.

“Se acontecer tanta rasteira e mudança da lei, aí eu não tenho dúvida de que só resta o recurso à reação armada. Aí é dever das Forças Armadas restaurar a ordem”, disse Lessa reforçando seu ponto de vista em declaração ao jornal O Estado de S. Paulo, quando se discutia a possibilidade da suprema corte acatar o habeas corpus impetrado pela defesa de Lula.

Lessa e Chagas estão livres para dizer o que os generais da ativa não podem. As declarações destes generais, claras como a luz do dia, dão uma mostra do estado de espírito no alto comando das Forças Armadas.

Lessa, Chagas e outros estão complementando as ameaças veladas feitas pelo mais alto comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas (como se essas precisassem de algum complemento ou esclarecimento). “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”, disse o comandante supremo.

“Amigo e líder, receba a minha respeitosa e emocionada continência. Tenho a espada ao lado, a sela equipada, o cavalo trabalhando e aguardo suas ordens”, disse o general Paulo Chagas.

“Nosso objetivo principal nesse momento é impedir mudanças na lei e colocar atrás das grades um chefe de organização criminosa já julgado e condenado a mais de 12 anos de prisão que, com o respaldo desse supremo fortim (o STF), tem circulado livre e debochadamente por todo o território nacional, contando mentiras, pregando o ódio e a luta de classes”, escreveu ele.

O comandante militar da Amazônia, general Antonio Miotto, manteve o tom: “Comandante! Estamos juntos na mesma trincheira! Pensamos da mesma forma! Brasil acima de tudo! Aço!”.

O refrão “as Forças Armadas estão prontas para intervir” tem apoio da maioria na cúpula militar. O chefe do Estado Maior do Exército, general Fernando Azevedo e Silva, reforçou: “se o comandante do Exército se manifestou, essa é a opinião do Exército”.

O Comandante Militar do Oeste, general José Luiz Dias de Freitas, se solidarizou: “mais uma vez” o comandante do Exército expressou “preocupações e anseios dos cidadãos brasileiros que vestem fardas”.

O general de Brigada, Cristiano Pinto Sampaio, citou o integralista Gustavo Barroso, “o Brasil é eterno. E o Exército deve ser o guardião vigilante da eternidade do Brasil”, acrescentando que está  “sempre pronto”.

A unanimidade mostra o que já era óbvio meses atrás.

O general Antonio Hamilton Mourão, recém-reformado, não era um ponto fora da curva. Disse que “se não houver mais um ordenamento correto, as forças institucionais não se entenderem, terá que haver um elemento moderador e pacificador nesse momento”, isto é, as Forças Armadas. Suas reiteradas declarações em favor de um golpe militar nunca foram palavras que “não condizem com a farda”. O elogio a Brilhante Ustra e a Bolsonaro nunca foi arroubo, acidente, exceção. Reflete o pensamento predominante no Exército, que é “o mesmo de 1964”, como disse o próprio Villas Bôas.

Engana-se quem pensa que se trata de um plano para intervir “cirurgicamente” na conjuntura atual, para dar uma “solução” e estabilizar o regime político diante da iminente prisão de Lula e da possível subsequente revolta popular.

“A intervenção no Rio de Janeiro é uma intervenção meia-sola. Vamos lembrar do século 19, houve várias intervenções nas províncias. O interventor era o ‘Caxias’. Assumia o quê? O poder político e o poder militar. O [general interventor] Braga Netto não tem poder político. O Braga Netto é um cachorro acuado, no final das contas. Não vai conseguir resolver o problema dessa forma. E nós só vamos apanhar”, disse Mourão.

Eles estão prontos. Prontos para vir e para ficar. Prontos para derramar o sangue de quem realmente está defendendo os direitos democráticos e a Constituição, pisoteada pelo Supremo Tribunal Federal. O seu sangue.

Cabe a todos nós impedir que isso aconteça. O único caminho é o da agitação política, da mobilização popular, da luta de classes que os generais tanto temem. É preciso sair às ruas contra a prisão de Lula, é preciso lutar contra um golpe militar.

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