Lula presidente
Anulação dos processos contra Lula deixou a situação política ainda mais definida

Por: Redação do Diário Causa Operária

A decisão monocrática de Edson Fachin de anular todos os processos contra o ex-presidente Lula na Operação Lava Jato mudou drasticamente a situação política. Até mesmo as bolsas de valores sentiram o impacto da decisão: o dólar fechou em alta de 1,67%, com o maior valor de fechamento desde maio do ano passado, e o Ibovespa, principal indicador da Bolsa de Valores brasileira, tombou 3,98%.

O significado político da anulação dos processos de Lula é claro: se antes Lula já tinha a legitimidade de ser candidato à presidência da República porque era o maior líder popular do País e estava sendo perseguido por uma conspiração do imperialismo contra ele, agora, até mesmo do ponto de vista legal, Lula está desimpedido para ser candidato. Por um lado, isso força a direita a se agrupar em torno de um candidato realmente forte, que tenha condições de competir com Lula diante de uma situação tão polarizada — coisa que João Doria (PSDB) é incapaz de fazer. Por outro, coloca, para toda a esquerda, a perspectiva de se unificar em torno de uma candidatura que tenha condições reais de enfrentar o regime golpista de conjunto.

A defesa de uma “unidade” entre a esquerda tem sido tema de muito discurso entre os parlamentares e figuras públicas da esquerda em geral. É hora, portanto, de deixar de lado o discurso e levar adiante uma política que possa elevar a luta contra os golpistas a outro patamar.

Dentre as figuras que mais se destacaram na defesa da “unidade” estão Fernando Haddad, (PT) Guilherme Boulos (PSOL) e Flávio Dino (PCdoB). Em todas as oportunidades em que partiram para tal defesa, Boulos, Dino e Haddad nunca deixaram claro como deveria ser essa unidade. Não falaram quem seria o nome a ser lançado, nem quais seriam os objetivos ou o programa dessa frente.

Esse caráter nebuloso da “unidade” proposta pelos dirigentes da esquerda nacional, conforme explicamos em várias oportunidades, não é um mero detalhe. A palavra de ordem de “unidade”, sem um programa definido, sem um objetivo definido, sem nem mesmo uma palavra de ordem definida, serve, como tem servido, apenas para consolidar uma frente entre setores da esquerda, que deveriam representar um movimento real de luta, e a direita golpista, cujos interesses são inconciliáveis com o povo.

Uma das “unidades” que muito foi proposta por Guilherme Boulos foi a “unidade” contra o governo Bolsonaro. Essa “unidade”, no entanto, como tinha como único critério uma carta de boas intenções daquele que pretendia ingressar na “frente democrática”, acabou servindo de pretexto para uma aliança com todo tipo de bandido político. Boulos assinou manifestos com Armínio Fraga e Fernando Henrique Cardoso, apoiou Baleia Rossi (MDB) em eventual segundo turno nas eleições do Congresso, apoiou o candidato de Ciro Gomes em Fortaleza e ainda sabotou conscientemente os atos Fora Bolsonaro em São Paulo a pedido do PSDB.

A “luta contra o fascismo”, bem como outras variantes abstratas — a “defesa da vida”, a “luta contra o negacionismo” etc. —, também foi largamente utilizada por Flávio Dino para fins eleitorais. Dino apoiou o Republicanos em seu estado, anunciou o PSB como “aliado preferencial” do PCdoB e já se mostrou favorável a formar uma frente com Luciano Huck.

Em todos esses casos, o resultado tem sido desastroso. Afinal, a “unidade” sem princípios definidos permite que a burguesia, muito mais consciente de seus interesses, sempre se infiltre em qualquer aliança e arraste a esquerda para a sua política. As eleições no Congresso foram uma prova disso: enquanto a esquerda se iludia com a defesa da “democracia” por parte da direita golpista, a burguesia puxou-lhe o tapete e apoiou em peso o candidato do bolsonarismo.

Agora, que os direitos de Lula foram restituídos, a possibilidade para uma unidade real, sobre bases concretas, está mais do que colocada. Lançar o nome de Haddad, Dino ou Boulos simplesmente com o compromisso de condenar moralmente o bolsonarismo levaria os trabalhadores inevitavelmente ao fracasso. Não são figuras populares, não têm o apoio das massas, nem mesmo uma política que procure colocar as massas em movimento, mas sim uma política de dependência da burguesia. No entanto, a candidatura de Lula está no sentido oposto: é apoiada por milhões de pessoas, por um movimento real, de interesses bem definidos, que já demonstrou por várias vezes a sua disposição.

A unidade em torno da candidatura de Lula é o oposto da frente ampla porque, finalmente, é a unidade da esquerda com o povo. Não adianta prometer taxar grandes fortunas, emprego, auxílio, vacina ou o que for. Todas as demandas mais básicas da população passam, obrigatoriamente, por um grande enfrentamento com os golpistas, que só pode se dar através das ruas. O bolsonarismo, a crise sanitária, a crise econômica e todos os grandes males do País no momento não podem ser combatidos com um programa de governo — até porque, diga-se de passagem, os programas de Haddad, Dino e Boulos pouco tem de efetivo —, mas sim pelo mesmo processo que levou à derrubada da ditadura: a ação revolucionária das massas.

A candidatura de Lula representa os trabalhadores e tem, portanto, o potencial de liquidar o golpe. Não pelo programa de Lula em si, mas sim pelo movimento que o apoia. O programa da luta contra o golpe é o próprio Lula: o movimento em torno de sua candidatura, que deu uma pequena mostra do que é capaz quando impediu sua prisão em São Bernardo, pode, se estimulado por toda a esquerda, seguir o exemplo do Paraguai e colocar o regime contra a parede para que atenda às suas reivindicações.

Se Boulos, Haddad e Dino querem a unidade com o povo, a unidade contra o golpe, a única coisa que podem fazer é abandonar suas candidaturas e apoiar Lula. Fora isso, estarão sendo cúmplices da direita golpista, que está desesperada por uma forma de impedir que Lula seja candidato e vença as eleições de 2022.

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