Mais repressão
A esquerda pede a aplicação do Lockdown num momento de agravamento da crise e a tendência de protestos de trabalhadores, fórmula que favorece a direita e Bolsonaro
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No Maranhão, Flávio Dino aplica lockdown e PM reprime. Imagem: reprodução. |

Nessa sexta-feira (8/5), o Partido dos Trabalhadores em São Paulo entrou com um pedido na justiça para impor o chamado “lockdown”, ou bloqueio total e forçado para a população na cidade de São Paulo e em municípios da região metropolitana.

A medida cautelar foi assinada pelo vereador Antônio Donato, os deputados estaduais Paulo Fiorilo e José Américo e o deputado federal Carlos Zarattini, com a argumentação de que o distanciamento social está servindo somente para “tapar o sol com a peneira” e que, em Nova York, o combate ao coronavírus só ocorreu com um “duríssimo lockdown”. Mas isso somente revela uma enorme confusão política da esquerda diante da pandemia a respeito do que está realmente acontecendo e das medidas para combatê-la.

As críticas dos parlamentares não fazem o menor sentido, pois, se levarmos em conta essas considerações, poderíamos dizer que a população não está fazendo quarentena para fazer atividades ou compromissos que não seriam necessários, como, por exemplo, organizar festas ou apenas ir passear em parques ou no centro da cidade.

Essa primeira afirmação é totalmente equivocada porque o que estamos vendo não é a população passeando por São Paulo ou organizando festas, mas sim lotando os transportes públicos no período da manhã ou no final da tarde, feirantes vendendo seus produtos, camelôs e trabalhadores informais procurando obter renda para não passar fome e, principalmente, se aglomerando em decorrência da ineficiência dos governos, como nas filas da Caixa Econômica Federal ou distribuição de alimentos. Ou seja, a maior parte das pessoas, principalmente pobre, está sendo obrigada a ir para as ruas, seja pelos patrões, seja para garantir algum dinheiro ao final do dia para sustentar a família.

Dizer que a população está indo às ruas é um enorme erro político que vai resultar em medidas repressivas contra os trabalhadores num momento de ofensiva da direita e que pode levar os trabalhadores a repudiar a esquerda.

 

A falta de uma política de sustentação dos trabalhadores

 

Neste momento, as medidas de restrição e distanciamento social somente servem para reprimir a população diante da recusa do Estado e dos governos de tomarem medidas efetivas de combate ao coronavírus.

Forçar a população pobre a ficar em casa ou sem o salário é forçar a população a passar uma enorme necessidade e isso não vai evitar a contaminação pelo coronavírus; somente vai causar mais violência contra os trabalhadores, porque essas medidas vão ter que ser realizadas pelas forças de repressão, como a Polícia Militar ou até o Exército. Isso vai ocorrer porque a população não tem as mínimas condições de ficar em casa, seja por falta de recursos e políticas sociais ou porque alguém da família está contaminado e não tem como ficar com outras pessoas dentro da residência, visto que em geral a população pobre reside em casas pequenas de poucos cômodos e muitas pessoas. Como isolar uma pessoa contaminada em uma casa que não tem cômodos suficientes? Simplesmente impossível.

O que deve ficar bem claro para a esquerda é que não se deve pedir nenhuma medida forçada de isolamento sem que exista uma política social que dê garantias de que os trabalhadores fiquem em casa. Não como o auxílio emergencial aprovado pelo governo que é uma miséria que não dá as mínimas condições para as pessoas ficarem em casa, pois com esse recurso não garante alimentação, medicamentos e outras necessidades da família por ser um valor extremamente baixo.

 

A farsa dos serviços essenciais

 

Nessa política de lockdown, seriam permitidos os serviços essenciais; mas o que é um serviço essencial? O governo Bolsonaro juntamente com os empresários? Temos diversos exemplos esdrúxulos da caracterização de serviços essenciais. Casos como o do município de Belém do Pará, onde a prefeitura decretou que empregada doméstica seria um serviço essencial. Em São Paulo, os tucanos João Dória e Bruno Covas declararam trabalhadores da construção civil como essenciais e expuseram milhões de trabalhadores ao vírus para satisfazer os empresários do setor, quando todos sabemos que esse serviço não é essencial para ninguém. Há outros casos como dos Correios, salões de beleza e serviços de entrega de alimentos e por aí vai.

O que fica evidente é que somente a direita vai decidir quem vai para as ruas ou quem vai ficar em casa. Em outros casos, a PM seria utilizada para “garantir” o isolamento social.

 

Essa medida é contrária aos trabalhadores e empurra setores para a direita

 

Já está se observando em diversos locais do país protestos contra os ataques da direita e o descaso com a situação. São protestos pequenos e pontuais, mas que mostram uma tendência de reação contra essa situação. Há vários exemplos, e dois do Distrito Federal chamam a atenção. Um deles é o protesto de parentes de presos contra a situação dos encarcerados e a política do governo de genocídio da população carcerária. Outro foi o protesto dos agentes de saúde realizado contra as condições dos trabalhadores diante da pandemia.

Em São Paulo, já houve diversos protestos de trabalhadores de aplicativos, como motoboys e motoristas de transporte escolar.

Na cidade de Porto Seguro na Bahia, em uma semana, ocorreram dois protestos. Um de professores da rede municipal contra os cortes de salários e de trabalhadores informais. O dos trabalhadores informais chama bastante a atenção, porque é um setor que passa por grande necessidade e está abandonado pela esquerda. Além disso, devido à política repressiva do isolamento social, com a guarda municipal e a PM agindo contra as feiras, por exemplo, esse setor dos trabalhadores acaba se voltando para os empresários. Isso porque os empresários estão se utilizando dos trabalhadores informais para forçar a abertura do comércio e do fim da quarentena com o apelo a esse setor.

Bolsonaro e a extrema-direita já se aproveitam dessa situação e desse discurso, afirmando que o isolamento social vai trazer pobreza e desemprego.

Com o “lockdown”, a direita vai reprimir esses movimentos. Movimentos esses que fazem reivindicações legítimas, que lutam contra a política genocida de Bolsonaro e da direita, como os despejos realizados por João Doria.

A esquerda tem que lutar não por medidas repressivas e sim por políticas que garantam a sobrevivência do trabalhador de maneira digna em casa. Um salário adequado e não um auxílio miserável, atendimento de saúde, proteção dos trabalhadores de setores realmente essenciais como o da saúde, do abastecimento e de outros.

É preciso ficar claro que os trabalhadores não cumprem a quarentena por uma necessidade de sobrevivência. Neste momento, a esquerda está exigindo um aumento da repressão contra os trabalhadores e suas organizações.

Hoje, as manifestações são pequenas, mas a medida em que a crise se agravar vão crescer. E a esquerda? Vai se colocar contra? Vai defender a polícia de reprimir os trabalhadores contra os ataques da direita? Se fizer isso, vai assinar o próprio atestado de óbito e perder o apoio da população.

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