Duas alternativas para a crise do governo Bolsonaro

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O governo está em uma profunda crise que cresce a cada dia. A origem desta crise, ao contrário do que dão a entender a imprensa burguesa e a esquerda pequeno-burguesa, não é a incapacidade pessoal do presidente ilegítimo, Jair Bolsonaro, embora esta seja evidente e de fato componha o quadro. A crise está fundada na fraude cometida para levá-lo ao poder.

Sem Lula na disputa eleitoral, preso sem provas e sem condenação definitiva, o caminho foi aberto para que um elemento cuja base social é extremamente minoritária fosse alçado à presidência, apoiado por toda a burguesia que queria, a todo custo, impedir que o PT voltasse ao governo. Bolsonaro não tem, no entanto, verdadeiro apoio popular. Sua base já reduzida vem evaporando. Seu governo é incoerente, contraditório, apoiado exclusivamente na necessidade que a burguesia tem de aprofundar as medidas impopulares para as quais a porta foi aberta com o golpe de Estado de 2016.

Nesse momento, há um esvaziamento do governo Bolsonaro. Suas bases de sustentação estão ruindo. A polarização verificada durante todo o último ano se intensificou. A decisão de comemorar o golpe de 1964 nos quartéis levou sua situação a um ponto crítico. As contradições dentro das instituições do Estado apareceram em alto contraste. O sentimento popular anti-Bolsonaro caminha para uma radicalização. Estamos nos aproximando de um ponto de ruptura.

Diante deste quadro, há duas alternativas para a crise do governo. Uma via que se apoia no movimento operário e popular e outra patrocinada pela burguesia que busca reconduzir a situação a um ponto de equilíbrio e salvar o regime.

Na medida que a luta contra o governo se intensifica, a palavra de ordem de “fora Bolsonaro” torna-se mais e mais popular, juntamente com a reivindicação de liberdade para Lula. A derrubada do governo “por baixo”, isto é, por uma mobilização popular radical, poderia impor pela força das ruas a realização de novas eleições nas quais Lula, uma vez saído da prisão, seria facilmente eleito.

No outro extremo do espectro político, a burguesia atua para salvar o golpe de Estado. Conseguiriam fazê-lo neutralizando Bolsonaro e mantendo-o no governo e subordinando-o completamente às necessidades dos patrões brasileiros e dos patrões dos patrões, os grandes bancos, empresas e governos imperialistas. Não poderiam descartar a possibilidade de substituir Bolsonaro por alguém do agrado das forças reacionárias tradicionais da política brasileira, o vice, general Hamilton Mourão ou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM). Uma outra solução é possível, porém custosa: um golpe militar, que não está de modo algum descartado face o agravamento da crise política. Estas alternativas visam impedir que Lula retorne ao leme do Estado. Para consegui-lo, no entanto, precisam de ajuda dos setores conservadores, reacionários, presentes na esquerda pequeno-burguesa que tenta controlar o movimento popular.

Esse é o sentido da política apresentada pelo PCdoB e pela ala direita do PT (seus governadores e parlamentares de todos os níveis, mais comprometidos com a estabilidade do regime político burguês – e sua própria sobrevivência na vida pública – do que com as necessidades do povo trabalhador). Por meio da chamada “frente ampla”, atrelariam à burguesia os elementos de esquerda que travam, não sem enormes dificuldades políticas, uma luta tortuosa contra o golpe de Estado. A reboque de suas direções, militantes e ativistas da luta contra o golpe seriam paralisados. A oposição destas direções a chamar as massas às ruas para libertar Lula, opor-se ao golpe de 1964 e levantar o “fora Bolsonaro” é evidente.

Essa esquerda está lançada em uma política de negociação com os militares na tentativa de oferecer uma saída institucional a Bolsonaro, a submissão ou sua substituição “por cima”. Daí que a luta contra o golpe seja colocada de lado, trocada por uma luta sem sentido por “soberania popular”, um “programa para o Brasil” e outras expressões vazias de sentido. Nas palavras de um destacado dirigente do PCdoB, Walter Sorrentino, na 3ª Conferência Nacional da Frente Brasil Popular, “não devemos radicalizar”.

Se o grande problema da burguesia é o que fazer para dar equilíbrio ao regime, o sucesso da “frente ampla” e de uma negociação entre a esquerda e os militares seria a salvação do bolsonarismo sem Bolsonaro. Mourão ou Maia teriam que ter um amplo apoio. Não basta já terem conquistado o PCdoB. Precisam do Psol, de Ciro Gomes, de Marina Silva, da ala direita do PT.

Isso explica a reunião entre Fernando Haddad (PT), Guilherme Boulos (Psol), o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB) e o ex-governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB). Disseram que o próximo passo era ampliar essa unidade, ou seja, procurar a adesão de Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). É o primeiro passo para atrair o PSDB e outros partidos fundamentais do golpe de Estado descontentes com Bolsonaro, mas necessitados da manutenção do regime golpista que só a manutenção de Lula e a contenção das lutas populares podem garantir.

Diante desse quadro, nosso Partido e as forças militantes da esquerda, do movimento operário, popular e estudantil de um modo geral, devem intensificar a campanha contra o governo golpista, pela liberdade de Lula, pela derrota completa do golpe de Estado. Somente a palavra de ordem de “fora Bolsonaro” e todos os golpistas aponta nesse sentido. É preciso ampliar seu alcance ao máximo, discutir e esclarecer que o objetivo deste trabalho de agitação política é derrubar o governo pela força da mobilização operária popular de massas, tirar Lula da cadeia e impedir que os golpistas voltem a governar.

A esquerda classista, comprometida com as reivindicações populares e os interesses da classe trabalhadora, deve recusar o papel que os parlamentares, governadores e seus capachos e aproveitadores no movimento sindical e popular reservaram para o movimento de massas que é tirar as castanhas do fogo para a burguesia, seja apoiando ativamente uma alternativa burguesa para o fiasco do governo Bolsonaro ou permitindo, pela passividade e a paralisia do movimento, que a crise do regime seja fechada pelo alto, sob o controle dos donos do golpe de Estado.