Cortina de fumaça
Sem investir na melhoria dos serviços públicos, o tucano aposta na demagogia repressiva como bandeira no combate à pandemia.

Por: Redação do Diário Causa Operária

O governador “científico” ataca novamente. Diante do agravamento da pandemia no estado de São Paulo, o pré-candidato às eleições de 2022 João Dória lança mão de mais uma manobra política. Enquanto impõe a reabertura das escolas, disfarça com um toque de recolher das 23h às 5h. A medida passa a valer a partir de sexta-feira e é chamada pelo atual governador de São Paulo de “toque de restrição” para dar um verniz menos autoritário a essa promessa de repressão. Essa é a resposta que o estado mais rico do país oferece diante do macabro recorde de internações em leitos de UTI por Covid-19 atingido na semana passada.

Dória vem manobrando com sucesso junto à pequena burguesia durante a tragédia da pandemia, inclusive com setores que se consideram esquerdistas e combativos. Com isso, procura desvincular sua imagem do cenário mórbido no qual deixou o estado e ainda manter vivas as suas aspirações para as próximas eleições. Dória não usa nenhum método inovador, apenas a tradicional resposta repressiva que a direita sempre tem na manga para situações de crise.

Depois de cancelar a mais tradicional festa popular do país, o carnaval, o alvo da vez são os frequentadores de bares na madrugada. Alguém é capaz de acreditar que o avanço da pandemia tem íntima relação com a vida noturna na capital? Será que o vírus aumenta sua transmissibilidade em situações de lazer? No mundo real, o palco principal para o Sars-CoV-2 é o chão de fábrica, os ônibus e trens lotados, os pontos de atendimento de telemarketing e por aí vai. Para ajudar, esse mesmo governo está empreendendo um duro embate com os profissionais da rede estadual de ensino para promover aglomerações nas escolas.

Não faltam exemplos para comprovar que a retomada das aulas presenciais é um fator de impulsão para a pandemia, um deles é o que ocorreu em Manaus. Na capital amazonense, em apenas duas semanas cerca de dois terços dos professores já estava infectada. Alguns meses depois da desastrosa experiência, a cidade se tornou um importante epicentro da pandemia e viu se estabilizar uma nova variante do vírus, o que agravou a situação da sua população.

Se a preocupação com a pandemia fosse real, o toque de recolher seria precedido por diversas outras medidas. Como observado em diversos países, inclusive países de economia atrasada, a medida mais básica de controle da pandemia é a testagem massiva da população, que nunca chegou a ser nem cogitada pelo político do PSDB. Qualquer medida que implique investimentos públicos e melhoria dos serviços prestados à população passa longe do radar dos tucanos. O aumento substancial dos leitos de UTI e a contratação ampla e emergencial de profissionais de saúde, também foram preteridas em relação aos lockdowns e à aplicação de multas.

O novo toque de recolher vai servir pra lançar os holofotes em alguns desavisados em algum bar, às vezes tomando uma depois do trabalho, ou em algum encontro de jovens. Esses serão apontados como os vilões da pandemia, os verdadeiros responsáveis pela altíssima taxa de mortalidade por Covid-19 no estado. Dória, o científico, será promovido como alguém que tentou salvar a vida da população. Medidas similares podem facilmente serem direcionadas para reprimir a resistência popular, como já cogitaram no ano passado ao discutir a proibição das manifestações de rua. Segundo a diretora técnica do Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo, o governo quer impedir até reuniões privadas com mais de dez pessoas. Apesar de declarar que os trabalhadores que necessitam circular na madrugada não serão punidos, existe a previsão de multa de cerca de R$ 525,00 e é preciso ser muito ingênuo para acreditar no bom senso do aparelho de repressão estatal.

O quanto antes a esquerda escapar dessa arapuca, melhor para ela mesma. O povo sabe que essas medidas são farsescas, pois se espreme nos transportes públicos de segunda a segunda, ao contrário desses “bem-pensantes”. Após um ano de dormência da esquerda parlamentar, interrompido apenas na campanha eleitoral, parece que a leseira ainda não passou. É preciso combater o retorno das aulas presenciais e denunciar a farsa operada por João Dória em São Paulo. Chega de jogar a culpa na população trabalhadora e pobre enquanto passam pano para essa corja direitista. O povo precisa de melhores serviços públicos, não de mais repressão do estado.

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