Pandemia
Burguesia fala que o trabalhador é o culpado pela pandemia por ir ao bar, mas se nega a dizer onde realmente ele pega o coronavírus
Dória
João Doria e Jair Bolsonaro | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Dória
João Doria e Jair Bolsonaro | Foto: Reprodução/Redes Sociais

No início do ano, a burguesia organizou um espetáculo pirotécnico para lançar a candidatura de João Doria (PSDB) à presidência da República: o início da vacinação contra a COVID-19. A vacinação, em si, é uma farsa. Não há um plano real para contemplar toda a população, as doses de vacina entregues em todo o País são muito inferiores às prometidas e, ao que tudo indica, apenas uma pequena parcela da população será vacinada. E, como sempre, a pequena parcela será composta por um setor privilegiado da população. Ao mesmo tempo, a vacina escolhida por Doria é um grande fiasco: seu custo é três vezes maior que as demais vacinas e sua eficácia não é alta. Enquanto a direita comemorava o início da vacinação, pessoas morriam no Amazonas por falta de oxigênio, escancarando a realidade de que o Estado não tem condições de assistir minimamente a população.

Mesmo que a vacinação não fosse uma farsa completa, mesmo que, finalmente, o Brasil estivesse no caminho para erradicar de vez o coronavírus, o espetáculo seria, ainda, um escárnio contra o povo. Isso porque João Doria não tem absolutamente coisa alguma a ver com o combate ao coronavírus. É um genocida responsável pela morte de mais de cinco dezenas de milhares de pessoas que perderam a vida em São Paulo durante a pandemia. Proporcionalmente ao número de habitantes de cada lugar, morreram, em São Paulo, vinte e nove vezes mais pessoas que na Venezuela e sessenta vezes mais que em Cuba.

Não foi, portanto, obra do acaso a morte de tanta gente em São Paulo. Tampouco se deve exclusivamente à política do fascista Jair Bolsonaro. Muito pelo contrário: com o orçamento que o estado paulista tem, Doria tem uma independência muito maior do governo federal do que, por exemplo, o estado de Manaus. A pandemia causou um estrago tamanho em São Paulo simplesmente porque João Doria é um representante direto da burguesia — já era, ele próprio, antes de virar político, um destacado articulador da classe dominante — e, como tal, estava empenhado em salvar os capitalistas às custas da vida do povo.

Doria teve a capacidade — ou melhor, a crueldade — de não construir um único hospital em quase um ano inteiro de pandemia. Recusou-se, ainda, a testar a população em massa, garantindo que a situação fugisse de qualquer controle. Foi, ainda, responsável por promover a reabertura da economia, liderando todos os governadores do País na criminosa política de destruição do isolamento social. Entre as medidas da reabertura, está a forçada volta às aulas, prometida por Doria independentemente de haver alta no número de casos. Além de todo o descaso com a pandemia, ainda aproveitou o cenário de desmobilização para aprovar medidas duríssimas contra os trabalhadores, como o ajuste fiscal que levará à extinção de várias estatais.

Apenas por se opor, diante das câmeras, ao governo Bolsonaro, Doria ganhou, da imprensa burguesa e da intelectualidade pequeno-burguesa, o título de “científico”. Foi esse título, inclusive, lhe deu condições de subir ao palco do espetáculo de marketing em torno da vacinação, aplaudido por setores da esquerda como o psolista Guilherme Boulos. Não poderia, contudo, haver inimigo maior do povo e da própria ciência — por vezes, Doria tentou cortar a verba destinada às pesquisas tão somente para garantir maior lucro para os bancos.

O fato é que a política de Doria tem sido um desastre porque não é possível combater efetivamente a pandemia de coronavírus e ser um total capacho da burguesia. São interesses distintos. Em todo o mundo, houve uma retração importante da economia. Os dados nos Estados Unidos, país mais importante do mundo, são comparáveis à Grande Depressão. Grandes monopólios, como as empresas aéreas, ameaçaram fechar as portas. A indústria automobilística no Brasil, toda ela estrangeira, está fugindo do país. Nesse cenário de crise, a classe dominante obrigará o Estado a seguir uma única política: tudo do Estado para os bancos, nada para o povo. E é o que efetivamente tem acontecido.

Doria foi incapaz de promover qualquer política de Estado para garantir a saúde do trabalhador, de maneira a evitar o contágio pelo coronavírus. Na Rússia, por exemplo, onde Vladimir Putin se encontra em grandes contradições com a própria burguesia, o governo deu aos trabalhadores um mês de férias com salário pago. No Brasil, nada disso sequer é cogitado. Pelo contrário: o farsesco auxílio emergencial, que tinha um valor ridículo e que não foi distribuído entre todos os que dele necessitavam, já foi extinto.

Não bastasse toda a política de empurrar a população para o vírus — sem qualquer garantia trabalhista para o isolamento social ou qualquer infraestrutura médica, o contágio é só uma questão de tempo —, João Doria, ecoando a burguesia de conjunto, encontrou um excelente culpado para sua política genocida: o próprio povo. Não haveria mais, portanto, um genocídio, a morte de milhares e milhares de pessoas por causa de um governo que conscientemente largou o povo para salvar os bancos. Há, segundo a burguesia, uma espécie de suicídio coletivo: os trabalhadores, que não se importariam com o coronavírus, estão, sabe-se lá porque, se aglomerando e transmitindo o vírus uns aos outros.

Essa concepção canalha e absurda da transmissão do coronavírus aparece, por exemplo, quando Doria restringe ou até mesmo proíbe toda e qualquer forma de lazer para a classe operária. A imprensa burguesa entra em uma euforia total: falar do povo que vai à praia em plena pandemia ou que se aglomera nos bares é o esporte favorito dos comentaristas da GloboNews. No entanto, o Teto dos Gastos, os repasses aos bancos e a política neoliberal assassina são sempre deixadas de lado por esses “notórios” cientistas políticos. E as festas, orgias e o lazer da classe média, que ocorre diante da pandemia sem os holofotes da imprensa, são, obviamente, completamente ignorados. Sem sua hipocrisia típica, a classe dominante perderia seu charme…

As mortes pelo coronavírus não tem coisa alguma a ver com a “irresponsabilidade” do povo. Os trabalhadores, conforme inúmeras iniciativas espontâneas na periferia já mostraram, querem combater o vírus. Afinal, são eles os mais interessados nisso. São eles que estão completamente largados, que não têm dinheiro para comprar medicamentos, para fazer o isolamento social ou para sequer fazer um teste. Também não terão dinheiro para comprar a vacina, seja em uma clínica privada, seja no mercado negro.

A proibição do lazer é apenas um pretexto de endurecer ainda mais a repressão contra o povo de arranjar uma desculpa esfarrapada, mas suficientemente convincente para a pequena burguesia apoiar a política da direita golpista.

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