Estranha transição pacífica
Na lógica do “comunismo reinventado”, a famosa frase que conclui o Manifesto Comunista poderia ser substituída por “Proletários e burgueses de todo o mundo, uni-vos!”
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Slavoj Žižek, filósofo esloveno, durante sua visita ao Brasil, em 2013. Foto: Mariana Costa/UnB |

Por Eduardo Vasco

Slavoj Žižek vem escrevendo muita coisa sobre a crise gerada pela pandemia do coronavírus. E muita besteira. Para o filósofo esloveno, essa hecatombe está moldando um novo mundo, um mundo onde a cooperação comunitária regional e internacional está nascendo e cuja tendência é que ela evolua para um “comunismo reinventado”.

Em artigo publicado no sítio da rede de televisão russa RT, ele expõe sua posição revisionista do comunismo. Tal conceito, que ele não explica o que significa, seria algo como uma ação global conjunta entre organismos não governamentais e a “mobilização local de pessoas fora do controle do Estado (grifo nosso)”. No entanto, já se contradiz ao se referir à OMS como uma organização exemplar nesse sentido, logo ela que é sustentada justamente pelos estados capitalistas.

“O primeiro esboço de modelo de uma coordenação global do tipo é da Organização Mundial da Saúde, da qual não estamos recebendo a tagalerice burocrática usual, mas avisos precisos, anunciados sem pânico. Tais organizações devem receber mais poder executivo”, diz.

Esse “comunismo reinventado através da coordenação global e da colaboração” seria um coletivismo por necessidade mas também por altruísmo. “Se forem hospitalizadas milhares de pessoas com problemas respiratórios, será necessário um vasto número de ventiladores e, para os obter, o Estado deve intervir diretamente (grifo nosso) do mesmo modo que intervém em situações de guerra quando são necessárias milhares de armas, e deve contar com a colaboração de outros Estados (grifo nosso). Tal como numa campanha militar, a informação deve ser compartilhada e os planos plenamente coordenados – é a ISTO que me refiro pelo ‘comunismo’ que precisamos hoje (…)”, escreve nosso interlocutor. Em outro ensaio, “A barbárie com rosto humano”, Žižek afirma que nacionalizações e confiscos sinalizados por governos burgueses apontam para “um comunismo imposto pelas necessidades da mera sobrevivência, uma versão, infelizmente, do que foi chamado na União Soviética, em 1918, de ‘comunismo de guerra’”.

Mas a mobilização não deveria ser “fora do controle do Estado”? Parece que nem mesmo o “ideólogo” desse comunismo maluco sabe do que se trata a sua invenção. Invenção, entre aspas. O que Žižek está propondo por comunismo, na verdade, não é mais do que o Estado capitalista intervindo em situações de crise para tentar conter um colapso social que levaria à total desestabilização do regime e, portanto, à mobilização radicalizada das classes populares. “O comunismo que deveria prevalecer agora não é um sonho obscuro mas o que já está ocorrendo. O Estado deve assumir um papel muito mais ativo (grifo nosso)”, diz ao jornal espanhol El Mundo.

Também não se trata de nada inovador no sentido de que isso já foi proposto há séculos pelos socialistas utópicos cujas ideias mirabolantes foram vencidas pela realidade.

O que Žižek e esses socialistas ignoram é o caráter de classe do Estado.

Decerto, o próprio imperialismo – ou seja, o sistema dos monopólios burgueses –, como fase final do capitalismo, que abre as portas para o comunismo, já aplica, de certas formas, medidas “comunistas”. Primeiro, porque abole a livre-concorrência e concentra a economia. Segundo porque, em uma crise como esta – assim como foi na I e na II Guerra, ou com o New Deal pós-1929 – o Estado também é obrigado a intervir. Mas em nenhum caso ele perde o seu caráter de classe.

É bom lembrar que, até o presente momento deste artigo, entende-se comunismo por sua primeira fase, como descreveu Lênin em “O Estado e a Revolução”: a ditadura do proletariado, o socialismo, no qual a classe operária toma o poder do Estado para si. Não é ainda a fase que podemos chamar, parodiando o próprio Lênin em outra obra-prima, de “a fase superior do comunismo”, quando já não existem mais classes sociais.

Portanto, ainda estamos – tanto no imperialismo em decomposição, como no comunismo em germinação – em uma sociedade dividida em classes. O Estado tem marcadamente uma característica classista. Aí é onde Žižek cai nas maiores profundezas de seu reformismo barato.

Voltando à questão utópica de Žižek, cujo “comunismo reinventado” seria algo como um coletivismo baseado no altruísmo, o acadêmico afirma: “A extensa abordagem comunista que defendo é a única maneira de deixarmos para trás uma perspectiva vitalista tão primitiva. Já se percebem indícios de solidariedade incondicional no debate atual (…).”

Aqui também se ignora completamente a luta de classes. Mas é somente uma das muitas passagens de artigos e entrevistas de Žižek nos quais ele joga suas esperanças em uma colaboração entre todos – os que irão morrer de fome e doenças, e os que se beneficiarão dessas mortes.

O escritor aponta que o caminho que a humanidade estaria trilhando, demonstrado pela luta contra o coronavírus, seria percorrido por todos nós juntos, de mãos dadas, independentemente de classe social. Ao invés de “proletários de todo o mundo, uni-vos”, ele acredita no “proletários e burgueses de todo o mundo, uni-vos!”.

Por acaso estaria ele pensando que as diferença de classe estariam se dissipando com a pandemia? Ao que parece, sim. Em um artigo em que cita o ministro da Saúde do Irã, que contraiu o coronavírus e disse que “esse é um vírus democrático, que não faz distinção entre pobres ou ricos, ou entre políticos ou cidadãos comuns”, Žižek concorda, afirmando que “ele estava correto – estamos todos no mesmo barco”. Mais uma vez, nosso marxista de cátedra joga no lixo a luta de classes e prega a união entre todos, pois supostamente todos estariam sendo igualmente afetados pela pandemia. Desconhece que, enquanto os pobres nas favelas do Brasil ou nos cortiços da Itália caem aos montes, sem saneamento básico, os milionários se abrigam em iates nas ilhas do Pacífico ou no sul do Chile, como mostra reportagem do Telegraph.

Talvez as numerosas citações de palavras de Žižek cansem o leitor, mas são feitas justamente para demonstrar a crença do filósofo na bobagem do maravilhoso mundo sem classes sociais, bem como curiosidade sobre o que ele anda falando.

Sobre situações de catástrofe natural, ele assinala: “tal ameaça global dá origem à solidariedade global, nossas pequenas diferenças se tornam insignificantes, todos trabalhamos juntos para encontrar uma solução – e aqui estamos hoje, na vida real.” Em uma relação social entre classes não burguesas, essa dinâmica pode fazer sentido. Mas Žižek nunca, em nenhum momento, fez essa diferenciação fundamental para tratar qualquer problema sobre a crise atual. As “pequenas diferenças [que] se tornam insignificantes” são entre todos nós, proletários, pequeno-burgueses e burgueses. São apenas pequenas diferenças, que se tornaram insignificantes. Teriam as catástrofes naturais, como seria o coronavírus, a capacidade de anular e abolir as contradições de classe? Se sim, como isso seria possível? Os capitalistas, por acaso, estão deixando de ser capitalistas e os proletários, proletários? Como nosso intelectual explica, então, a alta exponencial nos lucros de Jeff Bezos a partir da crise do coronavírus? E por que são os pobres as maiores vítimas fatais desde a propagação da doença para todos os estratos sociais? Ao contrário do que reverbera Slavoj Žižek, as contradições de classe não se dissiparam, mas se acentuaram. Essa “união de todos” é justamente a política impulsionada pela burguesia em tempos de crise, a colaboração de classes para usar os trabalhadores de bucha de canhão a fim de salvar os lucros dos capitalistas e jogar todo o peso da crise nos ombros da classe operária.

Este é o problema central de toda a bobagem destilada por Žižek: ele ignora a luta de classes e pensa que o comunismo não passa pela revolução, isto é, pela vitória de uma das classes sobre a outra, pela derrubada violenta do Estado burguês. Para ele, o comunismo estaria não apenas brotando, mas se solidificando e se perpetuando nos limites do Estado burguês.

“Há aqueles que pensam em um mundo em que se aproveitará do vírus para controlar todos nós e, é claro, é uma possibilidade”, diz em entrevista ao jornal italiano La Reppublica, certamente fazendo referência ao sul-coreano Byung-Chul Han, filósofo que vem realizando um debate indireto com Žižek. “Mas não acredito em novos totalitarismos: são precisamente os governos que estão em pânico hoje, incapazes de controlar a situação, e muito menos construir uma sociedade no estilo Big Brother. No máximo, há mais desconfiança em relação às instituições. Mesmo na China, testemunhamos protestos, ainda que modestos. Bem, deveríamos encontrar uma maneira de reconstruir essa confiança (grifo nosso). Talvez com novos Assange capazes de desmascarar os abusos. Certamente, o vírus mostra que cabe a nós, os cidadãos, sujeitar a maior controle aqueles que governam (grifo nosso), certamente não o contrário.”

Reconstruir a confiança nas instituições para que elas possam controlar os que nos governam? Ora, ora. Vemos que, na verdade, esse “comunismo reinventado” de Žižek é mais velho do que o próprio socialismo utópico! Trata-se de reformismo reciclado e de quinta categoria. A única diferença dessa proposta para uma que poderia ser feita na Grécia Antiga é que ela serve para um mundo globalizado e não para uma cidade apenas.

O que Žižek entende por comunismo nada tem a ver com o comunismo verdadeiro, aquele que nasce da necessidade histórica da humanidade e que é resultado da própria evolução econômica da sociedade.

Ele crê que a sociedade vai se reorganizar automática e harmoniosamente com o único objetivo de combater a pandemia (ou alguma outra calamidade natural). Praticamente passa batido o fator principal da crise do coronavírus – o golpe frontal à economia capitalista, que desabou as bolsas do mundo inteiro com facilidade nunca antes vista, devido à extrema fragilidade do capitalismo em estado degenerativo.

Sobre o aspecto econômico, Žižek dedica apenas umas três ou quatro linhas em todos os seus artigos sobre o coronavírus somados. E para trazer à tona sua visão abertamente revisionista do comunismo, como neste trecho de artigo reproduzido no portal Outras Palavras:

“Tudo isso não indica claramente a necessidade urgente de uma reorganização da economia global, que não esteja mais à mercê dos mecanismos de mercado? É óbvio que não estamos falando de comunismo às antigas (grifo nosso), mas de alguma forma de organização mundial que consiga controlar e regular a economia (grifo nosso) – bem como limitar a soberania dos estados-nação quando necessário. Os países já conseguiram fazer isso no contexto de guerra no passado, e agora todos nós estamos, efetivamente, nos aproximando de uma guerra clínica.”

Isso significa que o comunismo às antigas, o revolucionário, estaria ultrapassado. O comunismo que deve funcionar é o reformista, que controla e regula a economia para estabilizá-la a fim de garantir o lucro dos capitalistas, afinal é um “comunismo” nos marcos do Estado burguês. Seria um comunismo representado pela OMS, a ONU, a OTAN…

Trata-se de uma deturpação do marxismo, característica notável na obra de Žižek. Segundo ele, “pensar em alternativas à nossa obsessão pelos veículos individuais”, o que poderia ocorrer já que a produção de automóveis parou devido à pandemia, faria parte dessa “mudança radical” que é o “comunismo reinventado”. Portanto, uma mudança radical a nível global que começaria pela mudança nos hábitos de cada indivíduo, como o consumismo. Uma mudança idealista: mudar a consciência para depois mudar a sociedade.

Em outro artigo recente, o intelectual aponta que “o coronavírus também nos levará a reinventar o comunismo, com base na confiança nas pessoas e na ciência”. Essas pessoas são alheias à divisão social entre classes? E que comunismo seria esse, sem o marxismo, que é a verdadeira ciência social, a mais completa e avançada de todas? O comunismo de Žižek não tem nenhum base na ciência, pelo contrário: é baseado em uma ideologia confusa, pequeno-burguesa e, no final das contas, reacionária, porque busca substituir a ciência marxista pela utopia ultrapassada de uma reforma social que não leva em conta a luta de classes.

O “comunismo reinventado” de Žižek é mais uma das inúmeras tolices de intelectuais revisionistas do marxismo, cujo único resultado prático seria desacreditar a luta revolucionária inevitável da classe trabalhadora para derrubar o Estado burguês e abolir a propriedade privada, pondo fim à sua exploração. É apenas a continuidade de um pensamento contrarrevolucionário, que já levou Žižek a afirmar, por exemplo, que “a solução marxista clássica fracassou”, devido ao suposto “fracasso da classe trabalhadora como sujeito revolucionário” (“A atualidade de Marx”, maio de 2018).

A esse tipo de pensamento revisionista pequeno-burguês, os marxistas devem responder deixando claro que a luta de classes não só continua, como se intensifica e, numa crise como a que vivemos atualmente, fica ainda mais acirrada, aumentando as contradições entre os atores sociais e apresentando a tendência cada vez maior de rompimento das ilusões e atraso político dos trabalhadores em relação à burguesia e a conciliação com os capitalistas. O coronavírus pode ser um episódio importante na passagem da humanidade para o comunismo, mas não será pela harmonia e a união fraterna entre todos os seres humanos dentro do Estado burguês, e sim pela desestabilização derradeira do regime capitalista, que abrirá uma época de embates ferozes, de vida ou morte, pelo poder político entre a burguesia e o proletariado, e que será alcançado somente com a derrubada violenta do Estado burguês e sua substituição pela ditadura do proletariado.

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