Frente Ampla
A burguesia não pretende derrubar Bolsonaro, mas criar as condições para vence-lo eleitoralmente com a subordinação da esquerda
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A burguesia pretende que a esquerda se subordine em 2022, assim como o fez na Câmara em 2020 | Foto: WALDEMIR BARRETO/AGÊNCIA SENADO
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A burguesia pretende que a esquerda se subordine em 2022, assim como o fez na Câmara em 2020 | Foto: WALDEMIR BARRETO/AGÊNCIA SENADO

Há uma clara divisão no interior do bloco político que a burguesia organizou para dar o golpe de Estado no país, com o impedimento da presidente Dilma Rousseff em 2016 e que teve como consequência a eleição de Bolsonaro. Os setores mais importantes da burguesia brasileira, mais estritamente ligada ao capital imperialista e, cujos representantes são os partidos tradicionais da burguesia e os grandes monopólios da imprensa capitalista, encenam uma oposição ao governo federal. Bolsonaro por sua vez permanece sendo apoiado pela parcela mais débil da burguesia, pelo aparato repressivo do Estado e por uma base popular, que torna-se cada vez menor, mas que ainda existe. Todos eles, no entanto, estão unidos contra a esquerda.

No que se refere ao governo Bolsonaro, criou-se um impasse. O apoio que o governo tem em um parcela dos capitalistas, notadamente os pequenos e médio, assim como no aparato Estatal repressivo e a fraqueza desse bloco supostamente oposicionista, do ponto de vista de uma base social, impedem que esses setores, os mais poderosos da burguesia, se lancem a substituir Bolsonaro. O risco de que o tiro saia pela culatra é enorme, seja pela possível proporção que reação dos setores que apoiam o governo pode atingir, podendo desestabilizar por completo do regime, mas principalmente, porque pode abrir caminho, não para que um legítimo representante dessa direita chegue ao poder, mas justamente o contrário, que uma ação enérgica abra caminho para a esquerda.

Assim restou a “estratégia Joe Biden”, aqui denominada frente ampla, que ilumina agora os caminhos da direita tradicional. Sustentam o governo Bolsonaro, aliás obra deles mesmos, ao mesmo tempo em que encenam uma oposição, ora mais contundente, ora menos, em nome da democracia. Dão sustentação ao governo, e é evidente já que quem trava todos processos de impeachment, por exemplo, são os partidos tradicionais que dominam o Congresso, porque o próprio processo político levaria a uma maior polarização, deslocando as massas para a esquerda.

Não obstante, apresentam-se como oposição ao governo, tendo como justificativa principal a defesa da democracia, do Estado de direito e das instituições democráticas. Naturalmente, não se trata de sinceros democratas. Longe disso, são tão ou mais autoritários e ditatoriais que Bolsonaro, mas o argumento lhes permite criar uma falsa oposição entre si e o bolsonarismo/fascismo; uma fantasia em que estaria em luta dois campos, a democracia e o fascismo.

Nessa “luta”, a esquerda, e com isso as massas, são convocadas, com muita demagogia e retórica pseudo-progressista, a renunciar a seus programas, estratégias e políticas reais para produzir a unidade necessária na luta da democracia contra o suposto fascismo, mesmo que isso signifique eleger um elemento de direita.

A burguesia, portanto, não pretende de maneira alguma derrubar Bolsonaro, mas tão somente criar as condições para vencê-lo nas eleições de 2022 ou, se não for possível a vitória sobre Bolsonaro, ao apoiá-lo nessa ocasião, terão condições de exigir uma política mais condizente com seus interesses políticos e econômicos. No final, a oposição falsa entre democracia e fascismo, nada mais é que a luta entre dois setores da burguesia pelo controle do Estado.

Toda essa estratégia é muito bem descrita no editorial do jornal golpista Estado de S. Paulo da última quinta-feira (21), cujo título é: “A alternativa a Bolsonaro”. Nela, ao mesmo tempo em que ataca Bolsonaro, como um indigente político, ataca também a esquerda e o ex-presidente Lula como corruptos e incompetentes. Nesse cenário vaticina:

“a política tradicional deve ser capaz de convencer os eleitores de que é preciso fazer sacrifícios para que haja desenvolvimento e, sobretudo, de que não se alcançam soluções reais para os problemas, dos mais comezinhos aos mais graves, fora da concertação política proporcionada pelo debate público legitimado pelas instituições democráticas. Ou seja, a negação do bolsonarismo”.

E continua:

Não basta ir às redes sociais para atacar Bolsonaro e cobrar o impeachment; é preciso construir um discurso político forte o bastante para reduzir a clientela do presidente e oferecer uma alternativa concreta aos desencantados que ele cooptou”.

Isso é a frente ampla, a utilização demagógica do termo democracia, a utilização demagógica de demandas sociais e morais, etc., a utilização do fascismo como espantalho, tudo para subordinar a esquerda à direita tradicional na sua luta contra outros setores da classe dominante. A política da frente ampla somente pode levar à derrota da esquerda e sua completa subordinação à burguesia tradicional, que do ponto de vista da nocividade aos trabalhadores é maior que a de Bolsonaro.

Para a esquerda é preciso romper completamente com essa política de subordinação, é preciso uma saída para as massas pela esquerda, criar um movimento independente e de massas contra Bolsonaro e contra a burguesia tradicional, inimigos dos trabalhadores. Para unificar a esquerda e as massas, lutar pelos direitos políticos do ex-presidente Lula, pela sua candidatura, pelo fora Bolsonaro e por eleições gerais.

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