Ditadura no futebol
Com ou sem coronavírus, a direita não abandona seu plano de extinguir as torcidas organizadas
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Torcida Independente, a principal organizada do São Paulo FC (Foto: Daniel Vorley/AGIF) |

A direita, de fato, não dorme em serviço e já começa a enxergar a crise atual, econômica e de saúde, como mais uma oportunidade para lançar uma ofensiva contra as torcidas organizadas.

Em sua coluna dominical no jornal golpista Estado de Minas, publicada neste domingo (19), o jornalista Jaeci Carvalho, uma verdadeira besta-fera da direita, faz um apelo para que as autoridades e os dirigentes de futebol aproveitem a crise e acabem de vez com as torcidas organizadas.

O colunista tem o mérito de, em quatro parágrafos, condensar uma boa parte dos argumentos rasteiros e moralistas que a direita e a extrema-direita lançam para atacar o futebol, o povo e sua cultura. Os campeonatos estaduais são “competições retrógradas, ultrapassadas e sem apelo técnico e financeiro” (negritos do autor). Para ele, o “futebol é apenas reflexo de uma sociedade desmoralizada, desprotegida, entregue aos bandidos que habitam o Congresso Nacional, aos montes”. O ranço antipopular e o rebaixamento de tudo o que diz respeito à cultura nacional ficam patente em cada frase e expressão: “Tudo mudou, e para pior. Nossa música é comandada por Anita e Ludmila. Nossos escritores estão morrendo, nossos comediantes são fraquíssimos, os atores, uma aberração, e nosso melhor craque chama-se Neymar. Realmente não dá para levar o Brasil a sério”.

O alvo principal do colunista, porém, tem nome: são as torcidas organizadas, “essa gente do mal”, “monstros, travestidos de torcedores, que aterrorizam as famílias de bem nos estádios”. E ele destaca que a crise atual constituiria uma oportunidade ideal para acabar com as organizadas: “Não há momento melhor. Com um golpe só, podemos extinguir essa maldição, que é o coronavírus, e esses malditos, que acabam com famílias, matando jovens inocentes…”

O sr. Jaeci Carvalho segue estritamente a cartilha desenvolvida há décadas pelos setores mais reacionários da sociedade para criminalizar as torcidas. As “confusões”, “brigas” e “violências” que lhes são atribuídas não são senão a versão oficial elaborada pelos órgãos de repressão, e repercutida pela imprensa burguesa, para criar o clima e a justificativa para a ditadura que vigora contra o futebol e o povo brasileiros. A proibição da livre organização dos torcedores é apenas mais uma medida de um conjunto mais vasto de ataques antidemocráticos ao povo torcedor, que incluem a presença constante da repressão policial nos estádios, a censura aos tambores e faixas dos torcedores, a realização de jogos com torcida única, e por aí vai. Tudo feito de forma demagógica e cínica, com base no pretexto moral do “combate à violência”, da “segurança nos estádios”, da “defesa das famílias de bem”, entre outros.

As torcidas organizadas sempre foram vistas como algo perigoso pelas classes dominantes e, desde o início, foram objeto da sanha persecutória dos órgãos de repressão do Estado burguês. Com o golpe de Estado de 2016 e a ascensão da extrema-direita, contudo, os ataques tornaram-se mais intensos, e a tendência é se multiplicarem. Nesse sentido, não poderiam deixar de ser um alvo preferencial da direita golpista, já que constituem um importante instrumento de organização e mobilização do povo pobre e trabalhador e são, assim, um obstáculo real aos planos da burguesia, entre os quais está o da “empresarização” dos clubes, para citar um exemplo.

O colunista da direita deixa claro suas posições: é contra as torcidas organizadas, é contra o principal jogador brasileiro da atualidade, é contra as competições estaduais e, enfim, é contra todas as manifestações da cultura popular. Não podemos negar que há uma profunda coerência em seu raciocínio, pois todas essas questões estão intimamente relacionadas. Temos que dizer abertamente que a luta contra as organizadas, contra Neymar, contra os estaduais e contra a cultura popular pertence à direita, aos inimigos do povo.

A direita e a extrema-direita, como é possível ver, não dormem no ponto. A crise do coronavírus, para elas, não colocou a luta de classes em suspensão. Pelo contrário. As forças políticas da burguesia querem aproveitar a situação de crise para fazer avançar ainda mais seus planos de ataque contra o povo oprimido. É preciso denunciar mais essa ameaça e defender com unhas e dentes os direitos democráticos da população. Pelo livre direito de organização dos torcedores! Abaixo a ditadura nos estádios e no futebol! Pelo controle dos clubes e demais entidades esportivas pelos próprios torcedores!

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