Projeto Biden Brasileiro
Em entrevista ao jornal El país, o governador do Maranhão teceu elogios a Biden e achou positivo que ele ameace a soberania brasileira sobre a Amazônia
BIDEN-EUA
Joe Biden | Foto: Reprodução
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Joe Biden | Foto: Reprodução

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), concedeu uma entrevista no último dia 31  ao jornal El País. Nela, o governador critica o governo Bolsonaro, engrandece a figura do novo presidente dos EUA, Joe Biden, e coloca sua posição sobre o futuro da política no país e, em especial, sobre a questão da Amazônia.

A matéria busca destacar a imagem de Flávio Dino como um possível candidato às eleições de 2022, já que é de interesse de toda a burguesia que uma figura de esquerda que não seja Lula concorra e que, em seu lugar, alguém mais palatável ao regime político golpista seja o principal nome da esquerda no pleito. Isso nada mais é do que parte do “projeto Biden brasileiro”, que pretende criar uma falsa força antagônica a Bolsonaro no lugar de uma força que realmente polarize com todas as alas da burguesia.

A imagem de Dino também aparece como antagônica à de Bolsonaro, como sendo alguém “científico” que “só tira a máscara para posar um pouco para fotos”, ao contrário da imagem de Bolsonaro que desrespeita as convenções sobre a pandemia.

Logo na primeira pergunta, Dino dá seguimento à sua oposição a Bolsonaro e se mostra exatamente aquilo que a burguesia deseja de alguém de esquerda. Uma personalidade pacifista e que não parte para o confronto.  Ao ser perguntado sobre como um governador “comunista” coexiste com um presidente de extrema direita, Dino responde:

“É uma relação difícil porque as diferenças ideológicas são compostas por uma singularidade do Bolsonaro. Prioriza o confronto, é fundamental na sua identidade política até para esconder a sua incompetência.”.

Ou seja, o problema de Bolsonaro é o confronto com a esquerda. Isso é exatamente o oposto do que um político de esquerda deveria dizer, já que a relação entre a burguesia e a classe operária, classes que polarizam a sociedade, é justamente uma relação de confronto.

Para Dino, o problema central com Bolsonaro seria suas posições ideológicas e não o fato de que ele – em unidade com os demais setores da burguesia – leva adiante medidas de efetivo ataque contra a popuação que resultaram. na morte de mais de 300 mil pessoas, no desemprego da maioria da população economicamente ativa, na fome de dezena de milhões etc.  Se ele fizesse tudo isso com entendimento, com dissimulações como fazem os políticos direitistas com maior tarimba; se encenasse estar agindo a favor do povo, como fazem Doria e outros “especialistas”…. aí estaria tudo bem.

Se Dino se mostra desconfortável com o confronto com alguém de extrema direita, ou ele gostaria de estabelecer um diálogo com este setor, ajudando a determinar  até onde deve ir a exploração contra os trabalhadores, ou então, é uma declaração de que um setor de direita que permita com que a esquerda partilhe das conversas para o esmagamento dos trabalhadores seja uma opção melhor do que Bolsonaro, aquilo que vem sendo chamado no Brasil de “frente ampla”.

A segunda opção parece a mais verdadeira, já que o PCdoB vem sendo o partido que mais apoia uma frente ampla e que, inclusive, ajudou a direita em inúmeras vezes no último período, com a eleição de Rodrigo Maia, entregando a Base de Alcântara aos EUA, apoiando a Reforma da Previdência no Maranhão (o estado de Dino foi o primeiro a implementar a destruição das aposentadorias) e perdoando as dívidas bilionárias das igrejas com o Brasil.

Sobre isso, ao ser questionado se o Brasil iria ver uma “ampla frente” contra Bolsonaro, Dino fez questão de apontar exatamente o que foi dito acima, que seu partido é o que mais contribuiu para a aliança entre a esquerda com os golpistas da direita. Para isso, Dino faz um grande elogio a Rodrigo Maia (DEM), dizendo que o presidente da Câmara que está sentado sobre 62 processos de impeachment (!) sem dar prosseguimento a nenhum, é um grande defensor da democracia. Dino ainda disse que em 2022, a esquerda pode lançar candidatos, mas que deverá apoiar a direita contra Bolsonaro caso não vá para o segundo turno.

Sobre Joe Biden, o governador destaca de forma quase apaixonada que

“o fim do governo Trump é (…) um anúncio do amanhecer que o Brasil terá”

argumentando que o novo presidente dos EUA irá promover um isolamento político de Bolsonaro, e que isso pode levar a que alguém “democrático” chegue ao governo. Quem sabe um democrata como Biden? Um Joe Biden brasileiro, como João Doria, um político reacionário, direitista que não se enfrente com os políticos da esquerda como Bolsonaro, mas que ataque o povo com até mais eficiência do que o atual presidente.

Dino provavelmente deve ter esquecido que a ala que deu o golpe de estado no Brasil em 2016 é justamente a ala de Biden, ainda sob o governo Obama, sendo o próprio Biden uma das figuras que arquitetou o golpe de estado e que comemorou a subida de Temer ao poder.

Desde que tomou posse, Biden incentivou manifestações contra o governo russo de Putin, impediu a saída de tropas da OTAN do Afeganistão, manteve Cuba na lista de países que segundo o imperialismo apoiam o terrorismo, disse que dará o apoio incondicional a Taiwan contra a China e ainda por cima continuará a reconhecer Juan Guaidó como sendo presidente da Venezuela. Isso somente no que diz respeito à política externa dos EUA, em relação ao próprio país, Biden disse que tem como prioridade estabelecer mais leis repressivas contra a população, em um suposto combate ao “terrorismo doméstico”.

Além de considerar Biden “uma luz contra as trevas”, ao falar sobre a Amazônia, Dino tratou como positivo o fato de o novo presidente dos EUA ter uma reserva de 20 bilhões de dólares em um suposto combate à devastação ambiental na região e argumentou que o governo dos EUA e empresas internacionais devem ajudar.

Biden falou de um fundo de 20 bilhões de dólares. Acredito que seja possível construir uma grande aliança envolvendo até setores do governo federal. Os Estados Unidos e empresas internacionais poderiam ajudar a viabilizar um fundo de pagamento por serviços ambientais porque isso protege o meio ambiente.

Nada poderia estar mais longe da realidade. O imperialismo não tem nenhum interesse em preservar a Amazônia, mas sim, em conseguir se apoderar dos recursos naturais que a região brasileira possui. Dino, portanto, realiza um convite para que os maiores sanguessugas do mundo, incluindo ai até mesmo empresas imperialistas, a virem até o território brasileiro retirar o que é dos brasileiros em benefício próprio. Tratasse do fim da soberania do Brasil sobre uma região sua, em que milhões de brasileiros vivem.

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