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Governador massacra garimperos
29/12/1987: massacre de São Bonifácio
O Governo pressionado pela Vale do Rio Doce manda fechar a Serra Pelada revoltanto os garimpeiros, que ao se manifestarem foram duramente massacrados
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Governador massacra garimperos
29/12/1987: massacre de São Bonifácio
O Governo pressionado pela Vale do Rio Doce manda fechar a Serra Pelada revoltanto os garimpeiros, que ao se manifestarem foram duramente massacrados
Jornal da época noticiando o ocorrido
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Jornal da época noticiando o ocorrido

Em 1986, um garimpeiro do nome de João Edson Borges foi morto por espancamento nas mãos de um policial militar, segundo a imprensa, os garimpeiros teriam matado um PM em retaliação, e começaria um conflito entre a polícia e os garimpeiros.

Desde 1984 a situação em Serra Pelada tornava-se cada vez mais complicada. O número de pessoas na serra subiu vertiginosamente para 80 mil, e a produção, que no ano anterior era de assustadoras 17 toneladas, agora caia para 3,9. A cava media 200 metros de profundidade e mais de uma vez garimpeiros morreram soterrados. Porém a real preocupação do governo era de atender as demandas dos executivos da Vale do Rio Doce e fechar o local. Os conflitos e decisões governamentais acirravam-se cada vez mais, resultando quase que sempre em penalidades para os garimpeiros.

Os garimpeiros eram trabalhadores vindo do Brasil inteiro, mas sobretudo do Nordeste. Muitos já estavam na região Norte por causa da tentativa de desenvolvimento da região da Amazônia, e trabalharam na construção de estradas e hidrelétricas.

No ano seguinte a morte de João Edson Borges, o governo havia decido fechar de vez Serra Pelada. Os garimpeiros que haviam criado sindicato e cooperativa, decidiram mobilizar-se para mantê-la funcionando e rebaixar a cava de garimpo.

Na manhã do dia 28 de dezembro grupos de garimpeiros deixam a serra e vão ocupar o centro de Marabá na tentativa de negociar com o governo, porém sem obter muito retorno das instituições, decidem então ocupar a ponte que cruza o rio Tocantins por onde passa a rodovia BR-155 (PA-150), onde ocorreria 10 anos mais tarde o massacre muito similar de Eldorado de Carajás.

A ponte além de conectar a periferia do município com o centro, também era rota de uma ferrovia e passagem para se alcançar a costa norte brasileira.

Enquanto na ponta os garimpeiros bloqueavam a ponte com britas e carcaças de caminhonetes sob a liderança feminina de Jane Resende, Victor Hugo Rosa liderava os demais garimpeiros, cerca de 10 mil, em Serra Pelada, onde ocorria uma assembleia e arrecadava-se comida e suprimentos para os que estavam na ponte.

Tão logo foi notificado o governador do Pará, Hélio Gueiros, velho político do tempo da ditadura que transitava entre o PMDB e o PFL (hoje DEM), começaram as movimentações institucionais para reprimir e por um fim na organização dos garimpeiros.

Cerca de 500 policiais militares se direcionaram até o local e fecharam ambas os lados da ponte. O exército também esteve presente, não se sabe o certo o número de soldados mobilizados porém o relato de Luiz Pereira de Nascimento conta que a cabeceira da ponte ocupada pelo exército estava “preta de soldados”.

A polícia abriu fogo com gás de pimenta metralhadoras e fuzil de alto calibre. O pânico foi geral, não havia como fugir nem se defender pois o grupo não estava armado. Luiz conta que viu gente pulando da ponte cuja altura era de 76 metros. Foi um verdadeiro massacre.

Segundo os relatos oficiais da época, o número de mortos variava entre 2 e três, mas Francisco, que estava presente no dia do acontecimento, em um depoimento a uma rede de televisão local, pronunciou no dia seguinte e relatou que só ele contou 8 cadáveres no chão enquanto tentava escapar. Foi morto espancado no mesmo dia de seu relato. O caso de Francisco amedrontou outras possíveis testemunhas e o caso ficou silenciado por mais de 20 anos. Somente com o ressurgimento do caso no início da presente década é que ficou claro o envolvimento do exército no massacre a que os números estipularam cerca de 10 mortos e quase 80 desaparecidos.

Trata-se de um verdadeiro massacre, um entre muitos na história brasileira, que demonstra a capacidade e a real funcionalidade da Polícia Militar brasileira.

Ficou conhecido como Massacre de São Bonifácio por ter acontecido no dia reservado ao Santo Católico no calendário cristão, assim como Massacre da Ponte.