Perseguição à cultura não para
Os trabalhadores da cultura e o movimento negro devem se mobilizar contra as demissões e exigir que todas as suas necessidades sejam atendidas durante a crise do coronavírus.
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Museu Afro Brasil | Foto: Rodrigo Tetsuo Argenton

Em abril do ano passado (2019), os funcionários do Museu Afro Brasil denunciavam o risco de fechamento do museu que já vinha sendo sucateado pelos governos direitistas de São Paulo desde 2015, tendo passado por diversas dificuldades como reduções no quadro de funcionários, terceirizações e cortes salariais. Um ano depois o fascista João Dória se aproveita da crise do coronavírus para promover mais um ataque ao museu e demitir de uma só vez 23 dos seus 80 funcionários. Atitude que foi denunciada e repudiada por meio de uma carta aberta elaborada pelos agora ex funcionários do museu e divulgada no ultimo dia 19.

O Museu Afro Brasil, localizado no Parque Ibirapuera, São Paulo, existe desde 2004 com um acervo especialmente voltado para as manifestações artísticas dos negros no país, mas que também retrata a cultura negra desde a África, passando pela escravidão e pelas expressões culturais e artísticas do povo negro no Brasil, sendo um dos poucos museus no país voltados para o tema, além de um importante alicerce para afirmar a luta do movimento negro que é cotidianamente atacado pela mesma direita que quer fechar o museu o destruir a história da luta dos negros no Brasil.

Diante da crise capitalista que se intensificou ainda mais com a pandemia do coronavírus a cultura tem sido especialmente prejudicada, com milhares de trabalhadores contratados sendo demitidos e trabalhadores autônomos sem conseguir se manter por não poder trabalhar no isolamento social; sem conseguir acesso ao auxilio emergencial do governo, muitos têm sobrevivido de ajuda de conhecidos e familiares. Ao mesmo tempo em que a cultura de todo o país está sendo esfacelada pela Secretaria da Cultura e outros órgãos como a Fundação Palmares que em tese deveriam estar amparando os trabalhadores do setor.

Já os negros são um dos setores da população mais duramente atingidos pela crise, e aqui não se trata apenas do coronavírus mas sim das políticas que são adotadas para enfrentar a doença e a crise. E a política que vem sendo adotada, por sua vez, é a de total descaso com a população enquanto todos os esforços são dirigidos para amparar a burguesia, a exemplo dos trilhões dados pelo governo Bolsonaro para salvar os bancos.

É justamente esta política, que é adotada com ou sem coronavírus, que proporciona que os negros, como um dos grupos mais vulneráveis socialmente, continuem expostos às mais terríveis condições de vida, sendo os que mais morrem pela polícia fascista, os que mais sofrem com o desemprego e a fome, e agora com o coronavírus são os que mais sentem as repressões das medidas de lockdown e os que mais morrem vítimas do vírus.

Assim sendo, o momento é propício também para as investidas contra o legado do povo negro, especialmente quanto à cultura. A justificativa dos governos burgueses é perfeita: a crise do coronavírus obriga que os governantes concentrem todos os esforços e recursos no combate ao coronavírus e a cultura precisa ser sacrificada neste momento. O que é claro, não passa de uma farsa uma vez que o combate ao coronavírus não é um combate real e os números de contaminados e mortos no país só crescem.

A justificativa dos cortes pela doença serve apenas para encobrir toda a perseguição que a cultura e mais ainda a cultura negra sofrem do estado. Não é a toa que há anos o museu já vinha sendo alvo desta perseguição e com a pandemia sofreu este golpe que foi o mais duro sofrido por qualquer outro museu ou entidade cultural de São Paulo, entre os que também tiveram funcionários demitidos, foi no pequeno Museu Afro Brasil com seus 80 funcionários onde ocorreu o maior número de demissões.

Os trabalhadores do museu denunciam em uma carta aberta a perseguição sofrida através da demissão de 28% do seu pessoal sem que houvesse nenhum tipo de consulta aos trabalhadores ou qualquer outra proposta para evitar as demissões e salientam os sérios riscos de que o museu venha a fechar definitivamente pelos constantes cortes de verbas, e que estes ataques aos trabalhadores do museu e ao museu configuram um ataque à própria cultura e à história do povo negro, pelo que convocam o movimento negro e toda a sociedade a se solidarizar.

É importante a compreensão que os trabalhadores do museu tem de a crise do coronavírus não pode servir como justificativa para os cortes e demissões. Para além disso no entanto é preciso compreender que a preservação da cultura e da história dos negros, assim como os próprios negros, estão longe de ser uma preocupação para a burguesia que usa os negros apenas para fazer demagogia quando lhe convém. O museu pode até conseguir persistir se arrastando dentro do aparato burguês, como já acontece, mas esperar que a cultura e o povo negro tenham suas reivindicações plenamente satisfeitas nesta estrutura é uma ilusão.

Isto porque é a própria burguesia que proporciona as condições de exploração e extermínio dos negros e da cultura, logo,  os trabalhadores da cultura e o movimento negro devem se organizar contra a direita, com a qual não podem ter nenhum tipo de acordo mas sim exigir que tenham todas as suas necessidades satisfeitas durante a crise do coronavírus, o que só vão conseguir indo muito além de uma carta, seja ocupando o museu, protestando na rua, formando conselhos, ou por quaisquer outras medidas de mobilização.

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