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Análise da situação no Irã
O Irã Contra o Imperialsimo – Parte 1
Rui Costa Pimenta explica a história por trás da atual situação do Irã, o assassinato de Soleimani e a guerra contra o imperialismo no região
analisepolitica
Análise da situação no Irã
O Irã Contra o Imperialsimo – Parte 1
Rui Costa Pimenta explica a história por trás da atual situação do Irã, o assassinato de Soleimani e a guerra contra o imperialismo no região
Foto: divulgação
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Foto: divulgação

 

O ponto de partida da crise atual foi o assassinato de um empresario norte-americano ligado às forças armadas, provavelmente um mercenário de guerra. Isso deu lugar a uma retaliação por parte dos EUA, onde 25 militantes do Hezbollah (do Iraque) foram mortos em bombardeios dos EUA. Em protesto, a milícia do Hezbollah se dirigiu à embaixada dos EUA, penetrando na chamada “Zona Verde” de Bagdad, uma parte da cidade construída pelos EUA durante a ocupação. A Zona Verde é uma área de proteção contra a revolta popular que acontecia durante a ocupação norte-americana. O Hezbollah incendiou alguns prédios na parte exterior da embaixada e por pouco não entraram na embaixada, em si. Os norte-americanos, em retaliação, assassinaram o chefe da guarda revolucionária iraniana, o chefe das forças especiais da guarda revolucionária, Soleimani, um dos articuladores contra a presença do imperialismo norte-americano. O governo iraniano prometeu retaliação. Os EUA justificaram dizendo que Soleimani estaria se preparando para atacar os EUA, o que falso. Ainda afirmaram não querer uma guerra, mas na sexta-feira, os norte-americanos fizeram outro ataque no Iraque, assassinando outros líderes da força xiita local. Junto com Soleimani, eles mataram um dos principais dirigentes da milícia xiita Hezbollah.

Os EUA estão tentando impor um regime de terror em função do agravamento da crise. Para entender é necessário retomar a história da crise na região. Essa crise levou os EUA e outros países imperialista a impor 2 sanções econômicas contra o Irã. Essas sanções criaram uma tensão muito grande dentro do Irã e são uma tentativa de enfraquecer o regime político iraniano, para que seja derrubado por mobilizações e servem para dividir a população e possivelmente as forças armadas.

O primeiro aspecto da crise acontece em 1979, com a Revolução Iraniana. Esta, veio na esteira da crise de 1974, conhecida como a “crise do petróleo”, mas essa foi uma crise geral a economia capitalista, que encerrou definitivamente o ciclo de crescimento das economias capitalistas depois da Segunda Guerra Mundial. Promoveu um abalo muito forte na economia mundial e uma série de episódios revolucionários da maior importância, começando com a revolução em Portugal e seguindo até a mobilização revolucionário dos operários poloneses. No Oriente Médio, o acontecimento mais importante é justamente a revolução iraniana. Muitos consideram que essa revolução teria tido motivação religiosa, mas não é assim, foi um típico movimento da classe operaria iraniana. O Irã era, e continua sendo, o pais mais industrializado do Oriente Médio e um país que durante décadas foi dirigido por uma monarquia colocada no poder pelos EUA e pelo imperialismo em geral.

A revolução derruba essa monarquia, que era o principal ponto de apoio do imperialismo no Oriente Médio e se inicia uma situação revolucionária de grandes proporções. Na ausência de uma direção revolucionária, com um programa claro e organização definida, quem acaba assumindo a liderança da revolução (até certo ponto, para conter essa revolução) é o clero xiita, que havia formado um grande bloco de oposição contra a monarquia do Xá. Esse clero assume o comando da revolução, em grande medida para conter o ímpeto revolucionário da classe operária. Todos os elementos reacionários e conservadores que vemos no Irã, foram um instrumento de contenção da revolução. O Clero atuou como representante da burguesia Iraniana na luta contra o imperialismo e conseguiu, com momentos de grande radicalização politica e momentos de contenção, controlar a onda revolucionária na Irã. Isso abalou profundamente toda a estrutura política da dominação imperialista no Oriente Médio, que não conseguiu se recuperar até hoje.

Após esses acontecimentos, tivemos a invasão do Afeganistão pela União Soviética, que é um resultado da revolução de 1979. Essa invasão é combatida duramente com o apoio do imperialismo e da Arábia Saudita (Bin Laden fez parte da resistência que se montou contra a presença soviética no Afeganistão). O objetivo era impedir que a União Soviética avançasse no controle político da região. Posteriormente, o imperialismo utiliza o governo Iraquiano de Saddam Hussein contra a Revolução Iraniana. O Iraque declara guerra ao Irã, invadindo diversos territórios iranianos e se estabelece um guerra duríssima que persiste por quase uma década, tendo início em 1980, na qual morrem aproximadamente meio milhão de pessoas. Essa guerra também serve para acalmar o ímpeto da Revolução Iraniana. Pelo esforço feito para conter essa revolução, vemos que ela tinha um poder gigantesco de expansão pelo Oriente Médio. A guerra termina com ambos os países se considerando vitoriosos e com o Irã recuperando os territórios ocupados por Saddam Hussein. Houve uma reabertura da crise no Oriente Médio, em 1991, com a primeira Guerra do Golfo. Os norte-americanos e o imperialismo em geral, tendo dado corda para o Saddam Hussein, decidem frear as ações políticas do líder do Iraque. Segue-se um período de bloqueio econômico muito duro contra o Iraque, durante o qual morrem milhões de pessoas por falta de medicação e outras necessidades, até a segunda Guerra do Golfo, em 2003, que leva à queda de Saddam Hussein.

A partir disso, forma-se uma resistência à ocupação norte-americana e a política neoliberal, já que a invasão do Afeganistão e do Iraque foram os pontos altos da política neoliberal no Oriente Médio. A invasão do Iraque não foi feita somente por causa do petróleo, mas foi concebida como o princípio de uma transformação geral no Oriente Médio, de ruptura da economia estatal em vários países, de mudança da dominação de setores nacionalistas do Oriente Médio para uma dominação mais direta do imperialismo. Com a resistência, esse plano de ofensiva neoliberal entra em crise e essa crise, não por acaso, coincide com o auge da crise na América Latina, principalmente com a situação na Bolívia. Se compararmos a situação na América Latina com a situação no Oriente Médio, veremos que se trata de um período de grande crise da política neoliberal e do imperialismo.