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JJ
Estudante de Letras. Militante do Partido da Causa Operária e da Aliança da Juventude Revolucionária. Colunista do Diário.
Um importante debate

Desespero e Esperança

A pequeno-burguesia está se desesperando diante da crise, e nem a esquerda desta classe está imune
Manifestantes se reúnem no Congresso nacional para protestar em função do impeachment de Dilma | Foto: Reprodução
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O maior mérito de Karl Marx, e tiveram muitos, não foi colocar de forma contundente a necessidade de construir uma sociedade socialista, igualitária e justa. Muitas grandes mentes antes dele haviam formulado essa necessidade, destaque seja feito aos socialistas utópicos franceses. Marx, foi além. Ele significa, para a ciência política, social, econômica e histórica, o mesmo que Galileu significa para a física.

Marx é o descobridor das leis que regem o processo histórico, suas constatações sobre a natureza de classe da sociedade mostraram que a superação do capitalismo não é só necessária, mas inevitável, que este era um destino manifesto da humanidade, por assim dizer.

Ele tirou a política do campo do moral e a levou ao campo do científico.

Com o Marxismo, a ciência que analisa as leis da sociedade e da história, Lenin e Trótski conduziram a classe operária a vitória na Rússia. Eles expandiram a ciência de Marx da mesma forma que Kepler e Newton fizeram com Galileu.

A mecânica das classes é muito útil para analisar a atual conjuntura, e ainda melhor para demonstrar os erros das organizações de esquerda neste momento, vejamos.

Na última semana Marcelo Freixo decidiu abdicar da sua candidatura à prefeitura do Rio de Janeiro. Sua colocação foi fundamentada em duas ideias, a primeira sendo a de que não poderia vencer sem uma unidade dos Partidos ditos de esquerda, principalmente partidos burgueses que votaram o impeachment, como o PSB e o PDT. A segunda era de que o importante neste momento não é marcar uma posição, demonstrar uma alternativa, mesmo que não seja imediata, e ainda mais, ele defende apoiar a direita conservadora contato que isso leve a uma derrota da extrema-direita de características fascistas, o bolsonarismo.

Essa posição foi aplaudida pelo PCdoB e outros defensores da frente ampla, que também defendem que um acordo com a direita é a única maneira de vencer a extrema-direita, a isso batizaram de frente ampla.

A colocação em vários pontos, o principal é o problema do método. O método de análise aplicado por Freixo e pelo PCdoB é errado por considerar apenas os números eleitorais, e mesmo esses de forma distorcida.

A ideia é aritmética. A sociedade estaria divida em três setores, cada um com um terço dos votos, a esquerda, o centro (direita) e a extrema-direita. O objetivo seria vencer a extrema-direita a qualquer custo. Portanto, a batalha seria para unificar os outros dois setores, também a qualquer custo, nem que seja unificá-lo sob a bandeira do PSDB, ou do DEM, antigo partido da ditadura, no caso do Rio de Janeiro.

A aritmética, no entanto, não serve para descrever as leis do movimento político, este funciona de forma dialética. Unificar os 30% da esquerda e da direita conservadora, fará, ao médio prazo, talvez até ao curto prazo, levar o fascismo a uma vitória completa, que ele ainda não obteve. Parece contraditório, e é. 

O fascismo é um movimento que surge do desespero das classes médias, ele é, nesse sentido, um movimento de massas que é apoderado pela burguesia e transformado num ariete contra classe operária, e subsequentemente contra as próprias classes médias.

A direita conservadora, neste momento, não representa 30% do eleitorado. Muito menos 30% das pessoas que atuam na política, que não são meros espectadores votantes, algo que o cálculo aritmético eleitoral de Freixo e do PCdoB nunca considerou, a qualidade. Em 2018 vimos que a polarização reduziu esta direita a menos de 20% dos votos, nesta conta inclui-se Ciro Gomes, que roubou votos da esquerda. Quantos destes eram operários? Quantos eram ativistas de algum tipo? Quantos estão nos sindicatos ou representam alguma forma de movimento organizado? Pouquíssimos tenhamos certeza.

Nos outros 80% concentrava-se quase a totalidade do movimento político real nas ruas brasileiras, seja ele de esquerda ou de direita, é aí que está a esmagadora maioria dos trabalhadores, é aí que está a disputa.

A direita com quem Freixo quer fazer acordo não tem apoio real, é repuiada pela classe operária de conjunto, mesmo o pequeno setor que vota no bolsonarismo, e repudiada pela totalidade da militância de esquerda, que passou as últimas 3 décadas lutando contra o Centrão, principalmente os tucanos e o DEM.

O acordo da esquerda com esses setores levará a dois resultados: desmoralizará a militância de esquerda, que pode até ser coagida a votar em Eduardo Paes para evitar uma vitória de Crivela na Prefeitura do Rio de Janeiro, mas não fará campanha, não mobilizará contra a extrema-direita, pois não terá por quê lutar, a direita terá ganho não importa o resultado, os inimigos do povo têm resultado garantido. Em segundo lugar isso mostrará à classe média, e a um setor importante dos trabalhadores, um quadro falso, o de que a extrema-direita é a única alternativa à odiada direita tradicional e que a esquerda nada passa de uma traidora linha auxiliar dos carrascos de terno.

Essa desastrosa aliança, por conta destes fatos, pode bem fracassar em vencer a extrema-direita e até conduzir Crivela, talvez Bolsonaro, a uma reeleição. E mesmo que dê certo, fortaleceria a extrema-direita no fundamental. 

Na França, a esquerda votou em Macron, um tucano francês, ele venceu. A extrema-direita hoje é mais forte que nunca, e avança a passos largos para tomar toda a Europa, ela se aproveita dos ataques de Macron ao povo e insiste em lembrar que isso só acontece pois a esquerda votou nele.

Como impedir esse resultado?

A esquerda precisa ter uma posição polarizadora, que atualmente é tida, em amplo espectro, apenas por Bolsonaro. Precisa mostrar uma política e um programa que demonstrem que é alternativa à direita e que Bolsonaro nada mais é que tucano enraivescido.

Para isso precisa abandonar a frente ampla e trocá-la por uma frente dos oprimidos contra a burguesia e seus capangas, sejam eles conservadores ou fascistas.

O PCO tem apontado isso, executado isso. Ido aos bairros e organizando o povo, apresentando um programa de lutas, a experiência dos companheiros mostrou que a influência da extrema-direita retrocede rapidamente perante uma política real de luta.

É preciso mostrar ao pequeno comerciante que ele será esmagado pelos bancos e exigir a estatização do sistema financeiro, mostrar à juventude que a direita nada mais quer que reprimi-los e acabar com a educação, e assim por diante.

A política da extrema-direita e dos capitalistas é estimular o desespero da classe média diante da crise e voltá-la contra a classe operária, a política da esquerda e dos trabalhadores tem de ser ganhar o apoio dos setores médios não através de um acordo com políticos falidos e sem apoio, mas de mostrar que a luta da classe operária é a esperança revolucionária.

Leia Também  MP 936, um roubo massivo que requer uma resposta radical nas ruas
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Marx é o descobridor das leis que regem o processo histórico, suas constatações sobre a natureza de classe da sociedade mostraram que a superação do capitalismo não é só necessária, mas inevitável, que este era um destino manifesto da humanidade, por assim dizer.

Ele tirou a política do campo do moral e a levou ao campo do científico.

Com o Marxismo, a ciência que analisa as leis da sociedade e da história, Lenin e Trótski conduziram a classe operária a vitória na Rússia. Eles expandiram a ciência de Marx da mesma forma que Kepler e Newton fizeram com Galileu.

A mecânica das classes é muito útil para analisar a atual conjuntura, e ainda melhor para demonstrar os erros das organizações de esquerda neste momento, vejamos.

Na última semana Marcelo Freixo decidiu abdicar da sua candidatura à prefeitura do Rio de Janeiro. Sua colocação foi fundamentada em duas ideias, a primeira sendo a de que não poderia vencer sem uma unidade dos Partidos ditos de esquerda, principalmente partidos burgueses que votaram o impeachment, como o PSB e o PDT. A segunda era de que o importante neste momento não é marcar uma posição, demonstrar uma alternativa, mesmo que não seja imediata, e ainda mais, ele defende apoiar a direita conservadora contato que isso leve a uma derrota da extrema-direita de características fascistas, o bolsonarismo.

Essa posição foi aplaudida pelo PCdoB e outros defensores da frente ampla, que também defendem que um acordo com a direita é a única maneira de vencer a extrema-direita, a isso batizaram de frente ampla.

A colocação em vários pontos, o principal é o problema do método. O método de análise aplicado por Freixo e pelo PCdoB é errado por considerar apenas os números eleitorais, e mesmo esses de forma distorcida.

A ideia é aritmética. A sociedade estaria divida em três setores, cada um com um terço dos votos, a esquerda, o centro (direita) e a extrema-direita. O objetivo seria vencer a extrema-direita a qualquer custo. Portanto, a batalha seria para unificar os outros dois setores, também a qualquer custo, nem que seja unificá-lo sob a bandeira do PSDB, ou do DEM, antigo partido da ditadura, no caso do Rio de Janeiro.

A aritmética, no entanto, não serve para descrever as leis do movimento político, este funciona de forma dialética. Unificar os 30% da esquerda e da direita conservadora, fará, ao médio prazo, talvez até ao curto prazo, levar o fascismo a uma vitória completa, que ele ainda não obteve. Parece contraditório, e é. 

O fascismo é um movimento que surge do desespero das classes médias, ele é, nesse sentido, um movimento de massas que é apoderado pela burguesia e transformado num ariete contra classe operária, e subsequentemente contra as próprias classes médias.

A direita conservadora, neste momento, não representa 30% do eleitorado. Muito menos 30% das pessoas que atuam na política, que não são meros espectadores votantes, algo que o cálculo aritmético eleitoral de Freixo e do PCdoB nunca considerou, a qualidade. Em 2018 vimos que a polarização reduziu esta direita a menos de 20% dos votos, nesta conta inclui-se Ciro Gomes, que roubou votos da esquerda. Quantos destes eram operários? Quantos eram ativistas de algum tipo? Quantos estão nos sindicatos ou representam alguma forma de movimento organizado? Pouquíssimos tenhamos certeza.

Nos outros 80% concentrava-se quase a totalidade do movimento político real nas ruas brasileiras, seja ele de esquerda ou de direita, é aí que está a esmagadora maioria dos trabalhadores, é aí que está a disputa.

A direita com quem Freixo quer fazer acordo não tem apoio real, é repuiada pela classe operária de conjunto, mesmo o pequeno setor que vota no bolsonarismo, e repudiada pela totalidade da militância de esquerda, que passou as últimas 3 décadas lutando contra o Centrão, principalmente os tucanos e o DEM.

O acordo da esquerda com esses setores levará a dois resultados: desmoralizará a militância de esquerda, que pode até ser coagida a votar em Eduardo Paes para evitar uma vitória de Crivela na Prefeitura do Rio de Janeiro, mas não fará campanha, não mobilizará contra a extrema-direita, pois não terá por quê lutar, a direita terá ganho não importa o resultado, os inimigos do povo têm resultado garantido. Em segundo lugar isso mostrará à classe média, e a um setor importante dos trabalhadores, um quadro falso, o de que a extrema-direita é a única alternativa à odiada direita tradicional e que a esquerda nada passa de uma traidora linha auxiliar dos carrascos de terno.

Essa desastrosa aliança, por conta destes fatos, pode bem fracassar em vencer a extrema-direita e até conduzir Crivela, talvez Bolsonaro, a uma reeleição. E mesmo que dê certo, fortaleceria a extrema-direita no fundamental. 

Na França, a esquerda votou em Macron, um tucano francês, ele venceu. A extrema-direita hoje é mais forte que nunca, e avança a passos largos para tomar toda a Europa, ela se aproveita dos ataques de Macron ao povo e insiste em lembrar que isso só acontece pois a esquerda votou nele.

Como impedir esse resultado?

A esquerda precisa ter uma posição polarizadora, que atualmente é tida, em amplo espectro, apenas por Bolsonaro. Precisa mostrar uma política e um programa que demonstrem que é alternativa à direita e que Bolsonaro nada mais é que tucano enraivescido.

Para isso precisa abandonar a frente ampla e trocá-la por uma frente dos oprimidos contra a burguesia e seus capangas, sejam eles conservadores ou fascistas.

O PCO tem apontado isso, executado isso. Ido aos bairros e organizando o povo, apresentando um programa de lutas, a experiência dos companheiros mostrou que a influência da extrema-direita retrocede rapidamente perante uma política real de luta.

É preciso mostrar ao pequeno comerciante que ele será esmagado pelos bancos e exigir a estatização do sistema financeiro, mostrar à juventude que a direita nada mais quer que reprimi-los e acabar com a educação, e assim por diante.

A política da extrema-direita e dos capitalistas é estimular o desespero da classe média diante da crise e voltá-la contra a classe operária, a política da esquerda e dos trabalhadores tem de ser ganhar o apoio dos setores médios não através de um acordo com políticos falidos e sem apoio, mas de mostrar que a luta da classe operária é a esperança revolucionária.

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