Turbulência no império
Crise ganha contornos cada vez mais dramáticos no principal pilar de sustentação do imperialismo
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Filas de desempregados. Crise profunda nos EUA evidenciam a desestruturação do sistema capitalista | Foto: Arquivo/PCO

Mais de quarenta milhões de desempregados,  104 mil mortos pelo contágio descontrolado da pandemia do coronavírus e em meio a uma situação já calamitosa, eis que o aparato de repressão é flagrado assassinando a sangue frio um homem, negro, na cidade de Minneapolis, no estado norte-americano de Minnesota. As tensões internas no mundo inteiro, em geral, é enorme desde a explosão da crise financeira de 2008 mas no principal pilar de sustentação do capitalismo, a tendência de radicalização é muito grande e crescente, fazendo dos Estados Unidos um dos maiores barris de pólvora no mundo, e certamente o maior entre as nações imperialistas.

Emblemático da turbulência política, na cidade industrial de Detroit, estado de Michigan, surgiu uma iniciativa muito característica da forte propensão histórica apresentada pela população americana em escapar do controle da burguesia. Um grupo com cerca de 50 pessoas se juntou aos protestos ocorridos na cidade contra a brutalidade policial dos Estados Unidos, o que poderia ser mais uma entre inúmeras manifestações, não fosse por um detalhe: os manifestantes portavam armas. Denominado “Legalmente armado”, o movimento defende que o direito de auto-defesa armada, constitucionalmente garantido (embora sempre atacado), seja mais efetivamente exercido pelos grupos minotários, especialmente minorias raciais, alvos preferenciais dos fascistas.

Tabu para a classe pequeno-burguesa, as vítimas da extrema-direita conhecem bem a noção de civilidade dispensada pelo regime político americano sobretudo aos negros (mas também outras minorias). Se hoje a situação interna se apresenta neste nível de desagregação, a tendência é só piorar.

Com a economia em franca decomposição pela crise, impulsionada pela emergência do coronavírus, o governo americano causou um grande estardalhaço no começo de abril ao anunciar o então maior pacote de resgate da história do capitalismo: mais de US$2 trilhões seriam destinados a salvar a burguesia e impedir que a crise trouxesse um caos ainda maior. Um mês depois, o Congresso aprovou mais US$3 trilhões em “alívio” durante a pandemia, com quase a totalidade disto indo parar (advinha?) na conta da burguesia. Enquanto isso, o PIB americano, que retraiu 5% nos três primeiros meses de 2020, se projeta para uma queda histórica superior a 40% no segundo trimestre. A política de doação da riqueza, um produto social, para a burguesia, mostra assim sua limitação concreta.

Mas a desagregação não acaba aí. Deste trilionário pacote de salvação do capitalismo, os cães de guarda do aparelho de repressão não poderiam estar de fora. Prevendo uma grande insatisfação popular, pelo menos US$850 milhões foram destinados à aquisição de equipamentos de proteção para o enfrentamento de protestos para as polícias americanas, numa demonstração de consciência do momento político muito apurada por parte da direita.

Com meses de antecipação entre a notificação do coronavírus na China, sua expansão descontrolada no país asiático, a gigantesca crise provocada na Itália, as ações do governo americano ilustram muito bem o caráter de crise profunda e as escolhas feitas pelo regime político, evidenciando também a luta de classes.
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