Desastre da privatização em Brumadinho: quanto vale a vida de um trabalhador?
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Desastre da privatização em Brumadinho: quanto vale a vida de um trabalhador?
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Em outubro de 2018, a mineradora Vale elaborou um documento interno que apontava alto risco de colapso da Barragem de Córrego do Feijão, em Brumadinho, que romperia em 25 de janeiro último, com um rastro de mais de 200 vítimas fatais – hoje os números oficiais contabilizam 165 mortos e 155 desaparecidos.

Em Economia, o termo externalidade refere-se a consequências de determinada operação para terceiros, não levadas em conta por quem toma uma decisão. Os mortos de Mariana e de Brumadinho, o rastro de destruição incalculável, o dano ambiental dos rios de lama tóxica despejada em nossos rios: todos são meras externalidades do planejamento original da empresa, elencadas após o desastre de Mariana em 2015 e ignoradas pela direção da empresa após os relatórios de riscos elaborados por seus técnicos.

A barragem foi construída em 1976, pela Ferteco Mineração (comprada pela Vale em 2001), pelo processo de alteamento a montante, com altura de 86 metros e 720 metros de comprimento da crista. Era uma montanha com um platô já sólido em seu topo, com quase 2.590 mil m², sobre um volume de 11,7 milhões de m³ de rejeitos tóxicos de mineração que, a depender do volume de chuvas e do bom funcionamento do sistema de drenagem no fundo do reservatório poderiam voltar a liquefazer-se, exercendo uma poderosa pressão sobre a contenção.

Ocorre que no sistema de alteamento a montante, os terraplenos compactados que contêm o reservatório líquido apoiam-se progressivamente sobre a própria lama solidificada – tornando esse sistema o mais barato, mas também o mais frágil entre os três mais adotados para esse tipo de obra (a montante, por linha de centro e a jusante). É o mesmo sistema da barragem de Mariana, o qual praticamente caiu em desuso após o acidente de 2015. Porém, de um total de 717 diques de rejeitos em território nacional, existem ainda cerca de 88 barragens construídas dessa forma. A Agência Nacional de Mineração (ANM) estuda “encerrar o modelo” em todo o país, obrigando as mineradoras a desativar e desmontar essas estruturas.

A direção da Vale sabia dos enormes riscos, como atesta o relatório de 2018. O documento apontava inclusive que havia o risco de “mais de cem mortes”, a um custo de até US$ 1,5 bilhão (R$ 5,6 bilhões a câmbio de hoje), num rastro de destruição de 65 quilômetros. Na mesma categoria de risco são colocadas ainda outras nove barragens da companhia: Laranjeiras (em Barão de Cocais), Menezes 2 e 4-A (Brumadinho), Capitão do Mato, Dique B e Taquaras (Nova Lima), Forquilha 1, 2 e 3 (Ouro Preto).

As ações tomadas pela companhia para mitigar o risco parecem exemplos kafkianos de burocracia: havia um Plano de Ações Emergenciais de Barragem de Mineração (PAEBM), atendendo a portaria do Departamento Nacional de Produção Mineral (DPNM) n.70.389/2017. Tudo devidamente protocolado junto à Defesa Civil, e tudo absolutamente inútil. Havia 94 piezômetros (indicadores de pressão) e 41 indicadores de nível d´água, mas enhum indicou anomalias nas estruturas. Havia alarme para os funcionários da Vale nos escritórios abaixo da torrente de lama, mas as sirenes estavam posicionadas na própria região alagada e não funcionaram a tempo. Havia rotas de fuga, mas elas conduziam a outras áreas soterradas pela lama. Como relatou o funcionário da Vale Jhonatan Júnior, que perdeu um irmão no desastre: “quem correu para onde a Vale mandou, morreu, e quem não seguiu o treinamento está vivo”.

Em suma: tratava-se de um plano para inglês ver. O sistema é conhecido: a empresa contrata consultorias que basicamente cobram pelos royalties de entrega de um papelório genérico e ineficiente, usado pela companhia para obter licenças junto a um poder público fragilizado diante da força econômica desses conglomerados imperialistas.

Para o grande capital, a vida é uma mera externalidade a ser minimizada lançando mão de golpes de Estado, de regimes brutalmente ditatoriais, de sistemas produtivos de alto risco implementados sobretudo em países oprimidos como o Brasil e o restante da América Latina. A única maneira de controlar esses gigantes destrutivos é por meio das organizações populares dos próprios trabalhadores, da estatização de sua direção, da transferência do poder sobre as decisões que mudam a paisagem e a vida de continentes inteiros para o povo por meio dos trabalhadores de cada uma dessas empresas. A Vale do Rio Doce foi privatizada há 20 anos pelo governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O plano dos donos do golpe de Estado que levou primeiro Michel Temer e depois o fascista Jair Bolsonaro ao poder é justamente privatizar irrestritamente todas as estatais restantes, destruir os serviços públicos, desmontar a máquina administrativa e mesmo os instrumentos regulatórios do Poder Público.

As organizações dos trabalhadores devem unir-se não apenas pela reestatização da Vale, mas também pela deposição de Bolsonaro e todos os golpistas, que estão plantando hoje as sementes de catástrofes incalculáveis no futuro, em consequência de sua sanha privatista.