Derrota de greve na UNIRIO: entenda pra que serve o identitarismo

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Na última quinta-feira (25), os estudantes da a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) realizaram uma assembleia para colocar em votação a greve estudantil. A assembleia foi realizada no jardim do CLA às 15h.

Os setores reacionários da burocracia estudantil já havia barrado a greve

A pauta da assembleia já tinha sido discutida anteriormente durante uma plenária, que havia sido convocada como assembleia dos três setores. Uma greve dos professores com os estudantes e técnicos foi amplamente requisitada pelos presentes na plenária que contava com mais de 100 estudantes.

Na hora da votação, a mesa, de maneira perniciosa, alegou o impedimento da votação da greve, primeiramente por “não ser possível pedir uma greve que envolvesse todos os setores, cada setor deveria votar sua greve em uma assembleia própria”. Seria ingênuo interpretar esse golpe como uma simples falta de compreensão da utilidade de uma assembleia geral, e não, como uma manobra asquerosa dos reacionários da esquerda pequeno-burguesa que permeiam o movimento estudantil.

Panfleto do Diretório de Ciência Sociais convocando para a assembleia (posteriormente transformada em plenária)

A segunda justificativa, mais esdrúxula que a primeira, foi um verdadeiro puxão de tapete. A mesa alegou que tratava-se de uma plenária e não uma assembleia (apesar de ter sido convocada enquanto assembleia), logo tal decisão não poderia ser realizada.

Foi nesse momento que a assembleia geral tornou-se “uma simples plenária”. Os estudantes logo se empenharam em marcar uma assembleia para discutir a greve. O DCE, presente na mesa, não teve outra escolha se não marcar para a semana seguinte, mas não sem antes botar uma barreira, alegando que para ser votada a greve deveria haver um quórum mínimo de 300 estudantes presentes. Obviamente a convocação para a assembleia por parte do DCE foi insignificante.

Atualmente quem pretende liderar os estudantes na Unirio

O Diretório Central dos Estudantes da Unirio é formado por membros do Partido Comunista Revolucionário (PCR), e seu movimento estudantil, o Correnteza, e do PCB. Ambos os setores estão em uma aliança com o PSOL e com a UJS em diversas universidades pelo país. Esses mesmos movimentos coordenam os DAs (diretórios acadêmicos).

O representantes desses partidos na universidade adotam tradicionalmente uma política capituladora, como de praxe, para qualquer movimento da esquerda-pequeno burguesa.

Quando a reitoria foi ocupada, rapidamente eles acharam um pretexto para que os estudantes saíssem do prédio, tanto alegando que o reitor não se encontrava – afirmativa comprovada falsa  quando minutos depois o reitor foi interceptado tentando sair escondido de táxi – como dizendo que estávamos prejudicando os funcionário (mais tarde esse mesmo argumento foi utilizado para manter os estudantes fora de contato com o táxi do reitor fujão).

Fica evidente a demagogia usada para justificar a covardia do diretório central, que com medo de represálias e sem ter uma liderança capaz de responder aos anseios do movimento estudantil, usa uma série de desculpas – marca registrada de quem está enrolando a situação: quando uma justificativa não serve, prontamente surge uma outra – para justificar seu posicionamento covarde e defensivo.

Entra a dita plenária e a assembleia, o DCE formulou uma política ardilosa para impedir a aprovação a greve. No dia em si os estudantes presentes contavam entre 200 e 300 estudantes.

Golpes e capitulação na assembleia

A Aliança da Juventude Revolucionária propôs logo de início uma greve do movimento estudantil, explicando que os estudantes não podem se acovardar diante do governo Bolsonaro, que é preciso combatê-lo.

Mesmo os DAs já tendo se posicionado contra a greve no início da assembleia, muitos estudantes aplaudiram e se embalaram com a proposta, afinal todos esperavam ansiosamente a assembleia que foi convocada expressamente para isso. Logo, levantada a proposta na assembleia, os golpes sujos começaram a surgir.

Primeiramente, uma das estudantes colocou que era pretensão alegar que uma estudante negra não optaria pela greve por motivos de medo, deturpando de maneira golpista a proposta de greve dos militantes da AJR. Essa primeira oposição desencadeou a manobra organizada para impedir a greve. Outros estudantes, negros e mulheres se posicionaram contra a greve associando a fala de nosso companheiro a um ataque as mulheres e aos negros, ora diretamente, ora indiretamente.

O camarada em questão não teria “lugar de fala” para falar que negros e mulheres sentem. Uma maneira demagógica e rasteira de desmoralizar o autor da proposta e a própria proposta em si. Essa confusão abriu precedentes para atacar de maneira generalizada a ideia de uma greve contra a intervenção do governo Bolsonaro na universidade.

O DCE apontou diversos argumentos confusos e covardes para barrar a greve: não seria “o momento certo”, a greve “afastaria estudantes do movimento”, “o desejo do governo é que a universidade se esvaziasse”, o ideal seria “esperar os professores e técnicos se mobilizarem antes” (sendo que a proposta de greve geral na assembleia anterior havia sido barrada pelo próprio DCE), “não é uma boa tática impedir pessoas de entrarem no campus”, “a última tentativa de piquete na UNIRIO teria falhado mesmo com aparente mobilização ainda maior que a atual”, “a greve agora seria uma irresponsabilidade” e que “as consequências de uma greve falhar ou até do processo de uma greve de sucesso seriam perigosas para os estudantes”. Argumentos fajutos e típicos de uma política capituladora e de conciliação de classes com os reacionários que querem destruir a universidade.

Porém, o que fica claro é que o identitarismo serviu como pretexto para impedir uma mobilização dos estudantes contra o governo Bolsonaro, expressando claramente seu caráter contra-revolucionário. Mas, voltaremos sobre esse assunto mais adiante.

Sobre os argumentos do DCE, ficou claro que a política da esquerda pequeno-burguesa não busca orientar os estudantes no sentido de uma verdadeira mobilização. A greve não “afasta estudantes e trabalhadores”, se isso fosse verdade nenhuma greve da educação seria válida. O piquete como tática é essencial e utilizado amplamente em movimentos grevistas internacionalmente. As greves e as mobilizações, no geral, são a manifestação de um setor mais consciente da luta política para arrastar os outros setores da comunidade para uma política de enfrentamento aos ataques da classe dominante.

Já a “derrota de uma greve no passado” deve ser usada de aprendizado de como se organizar e não como desmobilização para greves futuras. Nesse sentido, é óbvio que é preciso organizar a greve, mas o primeiro passo é ter claro que ela precisa acontecer para atingir um determinado objetivo – nesse caso, a derrota da intervenção bolsonarista na faculdade. Em seguida, é preciso ter claro quais foram os problemas das greves anteriores para saber como lidar com os problemas da greve atual. A política, desta forma, é um processo de aprendizado político, em que os setores, com um processo de luta e mobilização, vão naturalmente se educando (quando têm uma política e avaliação correta).

“Esperar os professores”, que em peso votaram a favor da direita e da extrema-direita bolsonarista puxarem uma greve não é algo coerente, pois colocaria o setor mais avançado e de vanguarda da comunidade acadêmica à mercê da burocracia reacionária da universidade. O correto seria realizar a greve e arrastar os setores mais progressistas dos docentes universitários, de forma a fortalecer a greve.

As consequências para os estudantes, citada pelo DCE é uma desculpa esfarrapada, pois em toda mobilização popular existe um risco, principalmente em um governo que tende ao fascismo, como o de Bolsonaro. Mas uma estratégia menos combativa possui mais chance de ser derrotada e com isso os estudantes sofreriam com as políticas impostas pelo governo golpista, como ficou demonstrado nas experiências históricas.

Dito isso, é necessário enfatizar que uma greve não pode ser feita de forma desorganizada e impulsiva, após aprovada em assembleia deve ser muito bem organizada pelos estudantes de forma que se divulgue bem o seu motivo e as conquistas que serão garantidas para todos, produza materiais para distribuição, realize-se mobilizações de rua, piquetes e crie-se um comitê de autodefesa.

A greve estudantil, com aspiração de adesão dos professores e técnicos, segue sendo a proposta da AJR para barrar a intervenção bolsonarista na UNIRIO. Apesar de alguns companheiros acreditarem na incerteza ou ineficiência da greve, esta segue sendo uma das mais fortes ferramentas de luta da classe trabalhadora e também dos estudantes, que se mostram favoráveis a uma forte mobilização em nossa universidade.

Os argumentos de que “não era o momento certo”, “que a greve afastaria estudantes do movimento”, “que era ideal esperar os professores e técnicos se mobilizarem antes”, “que não é uma boa tática impedir pessoas de entrar no campus”, “que a última tentativa de piquete na UNIRIO falhou mesmo com aparente mobilização ainda maior que a atual”, “que a greve agora seria uma irresponsabilidade” e que “as consequências de uma greve falha ou até do processo de uma greve de sucesso seriam perigosas para os estudantes” são em sua totalidade nefastos para os estudantes.

O identitarismo: a política reacionária do imperialismo e da esquerda pequeno-burguesa

Entretanto, o mais absurdo de tudo isso é que a greve não foi somente barrada com estes argumentos falaciosos, porém típicos dos conciliadores pequeno-burgueses, mas também de uma política identitária altamente reacionária e nefasta para a esquerda. O identitarismo é uma corrente ideológica que surgiu nas universidades norte-americanas, no berço do imperialismo, como forma de confundir todo um setor da população (negros, mulheres etc.) que é oprimido pela sociedade capitalista.

Na colocação identitária, a greve proposta pelos estudantes da AJR seria uma proposta de “homens brancos arrogantes”, enquanto que a política de capitulação total ao governo de Jair Bolsonaro, que está indicando um militar para a reitoria da universidade, ameaçando o direito de todos os estudantes, seria uma política favorável aos negros, às mulheres e às “mulheres negras”, como foi defendido pelo DCE.

Uma afirmação totalmente retrógrada, como se vê, que impediu uma ampla mobilização dos estudantes contra os fascistas. É para isso que serve a política identitária. Os movimentos que seguem esta ideologia utilizam-se dela para censurar todo um setor da população, inclusive os grupos políticos de combate, com quem deveriam se unir para derrotar a direita – que é quem de fato estabelece sua condição de oprimido.

O identitarismo foi usado como arsenal para barrar a direção política correta a ser adotada pelos estudantes. A greve é um meio combativo de se posicionar contra a intervenção na Unirio e posteriormente nas outras federais do país. Os estudantes já haviam encurralado o reitor e o atual vice reitor (líder da lista tríplice enviada ao MEC), que com medo retiraram as escadas de acesso ao prédio da reitoria, botaram tapumes nas portas e saíram de férias. O movimento estudantil deve continuar na ofensiva. Através de um meio sorrateiro de desmoralização, que engana apenas os sonsos, integrantes da pequeno burguesia da burocracia estudantil atacaram e prejudicaram as conquistas parciais dos estudantes cariocas e barraram uma importante ferramenta para lutar contra a intervenção bolsonarista.

A intervenção federal que quer botar no mais alto cargo administrativo, um elemento fascista como Ricardo Cardoso, só tem consequências nefastas para os setores oprimidos pela sociedade. O cerco contra essa parcela da sociedade só tem aumentado durante o governo Bolsonaro, as bolsas estão sendo cortadas assim como as condições materiais que o estudante têm para se manter na universidade estão sendo aniquiladas pela crise e pela política neoliberal do nosso governo subserviente ao imperialismo. Assim, prejudicando os grupos mais marginalizados, que têm mais difícil acesso à universidade, como os negros.

Em suma, o identitarismo serviu como uma cartada de uma esquerda acovardada que não tem a mínima condição de liderar os estudantes numa luta política contra os fascistas do governo. A greve foi rejeitada, sem nem mesmo, precisar do tão requisitado quórum mínimo de 300 estudantes, exigido para aprová-la.