Confundir e desmobilizar
Talíria Petrone fez afirmações confusas sobre a Amazônia, favorecendo o bolsonarismo e colaborando para a desmobilização.
Ato em defesa da Amazônia convocado pela Companhia de Teatro Vitória Régia no centro de Manaus (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
Protesto em defesa da Amazônia em Manaus. Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real |

A deputada Talíria Petrone, do PSol/RJ, provocou algum rebuliço nas redes sociais ao afirmar que não seria possível misturar nacionalismo e a defesa da Amazônia, com o argumento de que a Amazônia pertence a oito países, portanto seria ‘internacional’.

A explicação da deputada é, no mínimo, simplista (ou foi absurdamente simplificada), e um prato cheio para produzir confusão. Aliás, os bolsonaristas já estão usando as afirmações de Talíria Petrone para justificar alegações de Jair Bolsonaro.

O fato é que a deputada mistura conceitos, faz elucubrações obscuras e, assim, deseduca os cidadãos.

A psolista, no lugar de denunciar Bolsonaro e sua demagogia ‘nacionalista’, reforça o discurso da extrema-direita. Ao invés de esclarecer a possibilidade real de mais intervenção da Amazônia pelo imperialismo – e apontar como o governo fascista a usa para confundir a população, apresenta uma falsa justificativa, mais uma, para a defesa bolsonarista –, faz justamente o contrário do que quer se fazer entender, e acaba dando suporte para ampliar a intervenção dos norte-americanos na Amazônia.

Se é verdade que o imperialismo, do qual participam vários países ocidentais, têm interesse real em apropriar-se da Amazônia, o fato de a região espalhar-se para vários países no subcontinente sul-americano, não impede ou se opõe ao nacionalismo. O problema não é o nacionalismo.

De toda forma, o governo de extrema-direita é entreguista, não é nacionalista, embora faça de conta que é. Usa um discurso pseudo nacionalista para atrair parte da população em seu apoio. Quando a deputada do Psol faz essa defesa de uma Amazônia internacional, confunde a cabeça dos cidadãos, dos trabalhadores.

É preciso deixar claro que a Amazônia deve ser objeto de defesa das nações ‘amazônicas’ contra o imperialismo. A região não é internacional, não no sentido dado pela deputada. Os estados nacionais, em nome de sua soberania, devem se unir contra a intervenção e os interesses imperialistas, que não têm outra pretensão senão a de extrair riquezas, explorar mão de obra barata, tornar-se proprietária, de fato, de terras e recursos.

Não se pode confundir, por exemplo, a chamada de Marx e Engels à união dos proletários de todo o mundo que, em tese, não teriam pátria, para a abolição da propriedade com um internacionalismo genérico. Essa profissão de fé internacionalista, revolucionária, não elimina a necessidade de se tomar posição nos embates e batalhas reais, inclusive nas lutas nacionais, por libertação e independência, enquanto a revolução não se tornar realidade.

O capital é internacionalista? Ele também não conhece fronteiras, para ele a nacionalidade dos trabalhadores é irrelevante, ele vivia e vive de movimentações internacionais e intercontinentais permanentes. Para o capital, convém tratar a Amazônia como questão internacional, mas por motivos muito pouco nobres.

Talíria Petrone deveria gastar um tempo maior para explicar que o internacionalismo que lhe importa não é o do capital, mas o do proletariado, para quem mais importante do que a comunidade nacional a que pertence estaria a consciência de classe. Mas isso também não ajuda, dito assim, a pontuar o debate sobre a Amazônia.

Em uma situação na qual a burguesia nacional se coloca em confronto com a burguesia internacional, contra o imperialismo, de que lado ficaria Talíria Petrone e o Psol? Essa deveria ser uma decisão fácil de se tomar, em defesa da nação?

Isso não implica abandonar a luta, nem negar a luta de classes, mas seria uma questão tática na batalha para superar o capitalismo.

O latifundiário local é inimigo da classe trabalhadora tanto quanto o imperialista, mas a batalha contra o imperialismo pode obrigar que se foque no inimigo mais forte e externo num dado momento. O latifundiário local continuará a ser adversário a ser combatido e vencido, ele é tão nefasto para a Amazônia quanto as empresas multinacionais que a exploram, face mais visível do imperialismo.

Fazer discursos obscuros, confusos, não colabora em nada para mobilizar e conscientizar a classe trabalhadora, a população, pelo contrário. É necessário ser direto, claro, nesse momento. O governo de extrema-direita é antinacionalista, pró-imperialista, entreguista. A Amazônia deve ser defendida dos imperialistas tanto quanto dos seus lacaios locais.

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