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Um dos assuntos do momento é o documentário brasileiro “Democracia em Vertigem”, produção da gigante Netflix, dirigido, escrito e narrado, pela jovem cineasta Petra Costa. O filme que estreou no último dia 19 no serviço de streaming está gerando discussões em todos os níveis, de elogios rasgados ao chamado ao boicote. Tanto a direita como a esquerda reagiram.

As reações são as mais variadas possíveis, tem a direita xucra que não assistiu e não gostou do filme. Tem a direita pena de aluguel que assistiu ao filme para dizer que não gostou e no dever de ofício falar mal procurando  “falhas” que o filme não tem, como dizer que a diretora usa de fake news  ao apresentar Temer como conservador sendo que é progressista (!), pois votou a favor do aborto (!). Do lado da esquerda temos a ala ufanista que achou o filme maravilhoso, uma aula de cinema, de narrativa, de concisão, de fidelidade aos fatos, irretocável. E a ala “talibã” que acha que o filme é um desserviço à esquerda, tem clima de velório, de derrota, de autocrítica, quando na verdade deveria ser um chamado à ação, à revolução. 

O filme de Petra Costa entra para o rol de obras recentes do cinema brasileiro que tentam de maneira quase que imediata retratar ou entender o momento atual. E não são poucas as obras que tentam explicar o golpe. Há os outros dois documentários importantes, “O Processo”, de Maria Augusta Ramos e “Excelentíssimos”, de Douglas Duarte, ambos de 2018. 

Há também as famigeradas obras golpistas, o fracasso “Polícia Federal – A lei é para todos” e a série “O Mecanismo”, de José Padilha, também patrocinada pela Netflix. Diga-se de passagem produções extremamente nada agradáveis de se ver do ponto de vista cinematográfico, chatas de assistir.

Povo impede na marra Lula de sair do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

Em “Democracia em Vertigem”, título pouco inspirado, diga-se de passagem, a diretora utiliza de uma narração em primeira pessoa, algo comum em sua filmografia, para falar sobre o golpe no Brasil utilizando sua própria vida pessoal. Ao assumir claramente uma posição, a diretora conseguiu anular uma “crítica” que certamente seria feita ao filme, é partidária, panfletária, toma posição. Ela se assume pertencente à classe burguesa, com avós que fundaram a Andrade Gutierrez e filha de pais militantes políticos perseguidos pelo regime militar. Fala da história recente do país tratando desde à construção de Brasília, os 21 anos de regime militar, as greves do ABC, as eleições presidenciais até chegar aos quatro governos do PT, impressões pessoais pontuadas por momentos de sua vida.

Essa honestidade da diretora revela uma análise pequeno burguesa, confusa, indecisa, pessimista, do golpe, nada mais natural para alguém da origem dela. Em tom melancólico ela narra com certa tristeza os acontecimentos que levaram o Brasil a ter hoje como presidente uma figura execrável como Jair Bolsonaro. Por meio da narração o filme legitima as passeatas coxinhas, a queda de popularidade de Dilma, os “erros” do PT e em até certo ponto a luta contra a corrupção promovida pela Operação Lava Jato. Falta também um aprofundamento sobre a participação dos EUA no golpe.  Por outro lado, ao expor por meio de imagens, muito bem selecionadas e editadas os fatos que ocorreram entre 2013 a 2018, a chamada “narrativa” pequeno burguesa é contrariada, pois fica evidente por meio dessas imagens que houve um golpe, uma conspiração e uma farsa para tirar Dilma da presidência e colocar Lula na cadeia, ou seja, uma armação deliberada.

Outro fator importante no filme é o depoimento de anônimos que fazem as melhores declarações do documentário. Em uma delas um senhor diz claramente que o que está acontecendo, o golpe é obra dos norte-americanos que querem roubar a Amazônia, o petróleo e ainda completa dizendo que o PT dava migalhas e agora não vai sobrar nem migalhas. Em outro desses depoimentos uma faxineira do Palácio da Alvorada diz que Dilma não foi tirada pelo povo e que no Brasil não existe democracia. Aliás esta palavra é apresentada inúmeras vezes na narração, como se o Brasil tivesse tido uma democracia e agora está perdendo, mas as imagens mostram o contrário, não há e nunca houve a tal da democracia. 

Sobre a tese de que o filme seria um anestésico da esquerda, por tratar o tema com tristeza e desesperança na verdade tem um elemento externo que faz com que o que é mostrado seja potencializado. Este elemento externo é o conjunto de conversas vazadas pelo The Intercept Brasil, entre Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato, evidenciando a conspiração para colocar Lula na cadeia e eleger Jair Bolsonaro. Ao assistir o filme e rever os acontecimentos, a apresentação do Power Point, o depoimento de Lula a Sérgio Moro e as acusações infundadas contra Lula, fica ainda mais evidente a farsa.

Em determinado trecho, aparece Geofrey Robertson , advogado de Lula na ONU, em uma palestra comparando o caso de Lula à inquisição espanhola e que Moro age como um juiz investigativo que persegue o réu. E que é direito de qualquer réu ter um juiz imparcial, coisa que Moro não é. É a comprovação de que Lula é preso político. O filme cresce por causa dos acontecimentos atuais. 

Para além das interpretações e análises, o filme merece ser visto, é bem montado, e tem um ritmo fluente algo que as produções coxinhas não conseguem atingir. Há também cenas de bastidores inéditas e momentos memoráveis como quando o povo impediu na marra que Lula saísse do sindicato de São Bernardo do Campo para se entregar à PF gritando “Cercar! Cercar! E não deixar Prender!”. Para alguns não é um filme ideal, mas filmes não são feitos para mudar o mundo e precisam ser vistos para ser analisados. Há muitos temas decorrentes do filme que podem ser analisados, mas por hora fico por aqui.  

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