Assalto frontal ao trabalhador
Demissões massivas em diversos setores nesta semana, tanto privados quanto públicos, seguem anunciando o massacre que o organismo fascista quer conduzir para a classe trabalhadora
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Foto: Jeso Carneiro |

O desespero e o colapso econômico já se encontram num patamar de ensurdecedor “alerta vermelho”, em todos os sentidos do termo. O COVID-19 tem agido como um dínamo para o processo de expropriação da classe trabalhadora e extermínio dos mais pobres, que já vinha se dando a todo vapor pela reação de super acumulação do capital imperialista à sua própria crise e consequências políticas, econômicas e sociais.

Já vínhamos observando a aderência conservadora e a ascensão autoritária como sintoma deste fenômeno hodierno do capital. Dessa forma, não nos enganemos: a pandemia foi o “presente divino” que as elites expropriadoras e em controle do Estado brasileiro estavam esperando, e tomaram em suas mãos no sentido de acelerar o processo de cavar um abismo ainda maior entre elas e as massas que forçosamente as servem. O álibi pandêmico para tentar jogar mais uma pá de cal sobre o poder de resistência dos trabalhadores brasileiros contra a investida fascista desliza do céu do acaso como luvas para as mãos sujas de sangue, que trabalham em cascata na manutenção da hegemonia do capital financeiro, do topo até seus lacaios mais abaixo na cadeia dos negócios.

Para nos debruçar sobre o claro assalto frontal à classe trabalhadora, observemos apenas alguns episódios de demissões massivas desta semana no Brasil, tanto por parte do setor privado nacional e internacional, quanto do setor público.

Nesta terça-feira (12), a empresa brasileira de meios de pagamento Stone anunciou, via videoconferência entre o presidente Tiago Piau e seus colaboradores, a demissão de 1.300 empregados – 20 % da sua força de trabalho. No mesmo dia, a multinacional japonesa de peças automotivas Denso demitiu 150 funcionários, que estavam com seus contratos suspensos desde 27 de abril e que, ao retornarem ao serviço por exigência da empresa, foram surpreendidos com sua sumária dispensa. Na quarta-feira (13), mais de 3.000 trabalhadores terceirizados do Detran-RJ foram demitidos, o que deverá paralisar a maior parte dos serviços da autarquia no estado. A Gestamp, da indústria automotiva espanhola, demitiu 164 funcionários em Taubaté (SP) nesta quinta-feira (14), anunciando o encerramento do terceiro turno. A fabricante de peças já havia colocado todos os funcionários em suspensão temporária de contratos, além de redução de 25% nos salários. Segundo o Sindicado dos Metalúrgicos, a unidade planeja demitir mais 350 funcionários. Um anúncio de 400 demissões só no complexo de Gravataí (RS) foi realizado no mesmo dia.

Estes são apenas exemplos notáveis e mais massivos de uma operação de abandono e roubo absoluto da classe trabalhadora. Para entendermos melhor a totalidade dos movimentos em termos do “organismo” do capital em ação neste momento, e de como se trata de um fenômeno claro do assalto de uma classe sobre a outra, observemos um dos exemplos mencionados com uma lente de aumento: a empresa nacional de máquinas de cartões Stone.

Comecemos por seu discurso, emitido a público e aos funcionários via videoconferência. Ao demitir, como reportado, 1.300 de seus trabalhadores, a justificativa dada foi, como repete o protocolo geral, a crise pandêmica e os custos acarretados por ela. A empresa, via Tiago Piau, seu presidente, alega benevolamente que estenderá o plano de saúde e auxílio alimentação dos funcionários demitidos (não foi especificado o período), doará computadores e celulares (a todos?) junto ao acesso a uma conta LinkedIn Premium (recusemo-nos a comentar o simbolismo ridículo do que Tiago Piau chama de “apoio recolocação”), e oferecerá “apoio financeiro proporcional ao período de casa” (quanto isso significa? Qual é o critério de cálculo?). Bem, logo à primeira vista, o desejo de representar-se como empresa “generosa” e “preocupada” que “não tem outra opção” é bem óbvio e alguns questionamentos que não exigem muita reflexão já se colocam. Para confirmar a falsidade desta representação e a realidade do fenômeno nas medidas desta empresa, assim como das demissões em outras nacionais e multinacionais – que ilustra a cascata de repasses de prejuízos até as bases progressivamente massacradas –,  passemos agora de seu discurso para suas “movimentações”.

Fundada em 2012, a empresa é atualmente a maior adquirente independente de franqueados do país. A Stone diz querer “realizar o sonho de empreender das pessoas.” Alegam em portfólio que buscam “pessoas na faixa de 25 a 65 anos que tenham energia e vontade para trilhar um caminho inédito em suas vidas.”. Em termos de mercado, é importante mencionar que a Stone conta com o bilionário Warren Buffet – ninguém menos que o 4º homem mais rico do mundo – como um de seus acionistas de peso, e viu suas ações subirem 42% desde que ingressou no mercado de ações dos EUA em outubro de 2018. Em julho de 2019, juntou-se ao Grupo Globo – maior grupo midiático do país – numa Joint Venture (convenhamos: um truste), que passaria então a ter 33% da empresa e que viria a investir mais de R$450 milhões em mídia para a divulgação da máquina, enquanto a própria Stone entrou com um investimento de R$50 milhões para tais propósitos.

Aproximando-se um pouco mais de nossa atualidade, ao fim de abril último, a empresa havia anunciado a disponibilização de R$100 milhões em microcrédito, além de desconto de 25% em taxas (antecipação de recebíveis) para o seguimento do varejo, para iniciativas em estados que tomassem medidas restritivas para combater o COVID-19 – vejam que “preocuparam-se” com o povo brasileiro até março, mas parecem ter recentemente “perdido a motivação”. Para se imaginar a dimensão de seu poder de caixa, em 2019 a empresa já havia somado quase 500 mil clientes. Foram transacionados, também em 2019, quase 130 bilhões de reais nos equipamentos da companhia. Ao final de abril último, ao anunciar as já mencionadas medidas, também decidiu destinar mais R$30 milhões em ações para estimular o comércio. As previsões de novembro de 2019 nos cadernos das costumeiras revistas econômicas, diante da perda da Cielo, Rede e Itaú Unibanco de fatias deste mercado, eram de que a Stone veria seu volume transacional de pagamentos saltar 54%. Mesmo tendo ficado atrás das líderes – a mais imponente sendo a Cielo -, ela ainda se equiparou à GetNet, do grupo Santander . Não nos esqueçamos que o Santander, apenas para um parâmetro de comparação, é um dos dois maiores bancos privados do país – cujos lucros no primeiro trimestre de 2020, por exemplo, foram em expansão de 10,5% a mais que no mesmo período de 2019 (e cresce ininterruptamente como se nenhuma crise tivesse se abatido no país ou no globo nos últimos anos).

Toda essa falsa representação de preocupação com o trabalhador e de que “todos estão sofrendo com a queda dos negócios”, típico discurso da direita, do empresariado e dos bancos, nos faz refletir sobre o gigantesco poder financeiro e de investimentos da empresa cujas demissões nesta semana escolhemos para observar com nossa “lente de aumento”, além de possibilitar a compreensão de que não se trata de uma tendência em uma empresa, mas de uma movimentação macroeconômica e macropolítica. Nossa “cobaia” analítica é apenas um sintoma da doença generalizada. Com tudo isso em mente, podemos contemplar com mais perspicácia uma das citações de Tiago Piaui, mencionado presidente da Stone, que, ao anunciar as demissões, fazendo referência ao atual “descasamento entre investimentos e receitas em nossa companhia”, simplesmente lamentou “sempre mais gente do que o necessário para a companhia funcionar”, mesmo que ele julgue que as ridículas medidas tomadas tenham sido “a maneira de agradecer àqueles que dedicaram tempo de suas vidas à construção da empresa”. Aparentemente, apesar de todos os dados citados acima e de todos os “atos de generosidade” da Stone, isso não impediu a demissão brutal de 1.300 funcionários.

Neste cenário de cascata, as grandes empresas, nacionais e multinacionais, além de – e principalmente – bancos privados, obviamente farão tudo não apenas para não pagar a conta, sangrando quantos forem necessários e sem a perda de um único centavo, mas também – e sempre – para aproveitar esta oportunidade de colocar o Estado e o povo ainda mais de joelhos. Há total disposição de que se sacrifiquem as pequenas empresas, que se repasse o insustentável peso até mesmo às médias, que multinacionais se ponham (melhor dizendo, sigam) a devorar nacionais – já que o canibalismo também ocorre entre os grandes tubarões – desde que, primeiro e de forma mais ampla, se esfolem vivos os trabalhadores, até a última tira de couro, ou os deixem morrer na indigência e na doença; desde que a mínima alteração nos mecanismos e propósitos centrais dos moinhos de sangue da nata do capital jamais ocorra. As elites financeiras, o mais perverso destilado do capitalismo, se valerão de todos os seus recursos para combater, mais do que nunca, qualquer mínimo abalo de sua estrutura acumuladora, e a pandemia é uma arena perfeita para o coliseu que o capital deseja manter. Além disso, o termo “crise” sempre deve ser seguido do predicado interrogativo: “para quem?”. O combustível do capitalismo e da exploração é a crise.

O tsunami pandêmico atingiu uma nação cujo cenário trabalhista já vinha sendo progressivamente transformado numa ilha pirata. As ameaças de desemprego atuais, que se apresentam no discurso (e veladamente nas ações) da direita como ameaças causadas quase exclusivamente pelo COVID-19, tomam as proporções já anunciadas pela progressiva construção das fundações desta masmorra imperialista, cuja planta arquitetônica já havia guiado a edificação da criminosa Reforma Trabalhista, a Emenda Constitucional do Teto de Gastos (Emenda Constitucional Nº95) – esta erguida para a proteção dos juros da dívida pública a serem pagos pelos cofres federais aos bancos privados, um saque explícito -, pelas concessões progressivas de financiamento ao latifúndio, pela destruição do trabalho formal e das organizações de trabalhadores, e pela intensificação acelerada e violenta de todos estes elementos sob o fascismo escancarado no poder. São quase inumeráveis os fatores que se pretendem incluir para encerrar os trabalhadores brasileiros numa prisão privada do tamanho de nosso território nacional, ofertando mão-de-obra progressivamente mais barata e escravizada, tudo sob o comando de um “supraestado”: o capital financeiro e multinacional. Como o leitor atento observou, a empresa em foco neste artigo é oficialmente sediada no Brasil, mas a decisiva fatia de suas ações não é brasileira, o que é cada vez mais claro e violento nas tendências do neoliberalismo.

O Estado brasileiro, por sua vez, está repassando apenas 4% de seu PIB para medidas de contenção do desastre sendo causado (e que se estenderá) no contexto pandêmico (que, para os que vêm acompanhando a farsa e o descaso na distribuição das esmolas estatais, por exemplo, sequer chegam a seu destino). Inclui-se nessa porcentagem pífia medidas tanto para os mecanismos da saúde quanto para o emprego e sobrevivência das pequenas e médias empresas. Dois dados ilustrativos, para exercitar a crítica: 1. mais de 70% dos cofres federais seguem sendo dedicados ao pagamento das dividas públicas a bancos privados; 2. A Alemanha, por exemplo, havia dedicado, até meados de abril, 37% de seu PIB (cerca de €800 bilhões, ou R$4,4 trilhões) ao sistema de saúde na pandemia e ao resgate de seus trabalhadores – são países de economias incomparáveis, e papéis muito distintos no organismo capitalista global – não entraremos neste mérito -, mas o dimensionamento é importante. Simples: pare um segundo e pense nesses dados apenas aparentemente desconexos.

Retornando ao nosso país, já nos deparamos com previsões catastróficas de desemprego. A BBC Brasil, de forma relativamente otimista, estimou ao final de março que o desemprego atingiria o patamar de 20 milhões de pessoas como resultado do COVID-19. Contudo, realizemos mais um passeio estatístico breve: de acordo com a Associação Nacional de Restaurantes, por exemplo, apenas até o início de abril, 600 mil pessoas já haviam sido demitidas só neste setor, e com a nova MP em vigor – a então anunciada criminosa medida que “flexibilizaria” ainda mais os direitos dos trabalhadores, possibilitando suspensão de contratos e redução de salários -, a associação previa mais 150 mil demissões. Atualmente, 1,5 milhão de brasileiros buscam o seguro-desemprego – o número representa um salto de mais de 30% em relação ao mesmo período em 2019.

Como observável, as demissões se intensificaram mesmo após a mencionada MP (que teria sido elaborada para “evitar demissões”), aprovada pelo Estado posto de joelhos– ou seja, sequer o “direito de ser explorado” é dado ao trabalhador. Além disso, o número de desempregados sequer é conferível com eficácia, devido à aceleração do processo ao passo largo do avanço pandêmico e a recusa de muitas empresas de providenciar informações – só em janeiro e fevereiro, por exemplo, mesmo antes dos efeitos do COVID-19, o Ministério da Economia já havia suspendido a divulgação de contratações e demissões no Caged, pois muitas empresas não estariam reportando corretamente à plataforma online eSocial, e 17 mil empresas não haviam enviado dado algum. Em oposição à mencionada “previsão otimista” – porém aterradora – da BBC, de 20 milhões de desempregados (até abril estávamos em 13 milhões), há outras avaliações, como a de Bruno Ottoni, pesquisador do IDados e do Ibre-FGV, que estima atualmente a possibilidade de 40% dos brasileiros de ficarem desempregados. Interessante realizar o paralelo histórico: no auge dos efeitos nefastos da Grande Depressão de 1929, pior período econômico e social na história dos EUA e maior crise na história do capitalismo, a taxa de desemprego norte-americana chegou a 25%.

Atualmente, 60% das pequenas e médias empresas não conseguem empréstimos para um giro de capital que evitaria ainda mais demissões e mais “água cascata abaixo” – por outro lado, ao notar os primeiros casos do vírus no Brasil, o Estado decide “salvar” os bancos privados reduzindo alíquotas de depósito compulsório (de 25% para 17%) para aumentar a “liquidez do sistema financeiro” (retorne rapidamente aos mencionados lucros do Banco Santander e reflita mais uma vez…).

O saque é óbvio, assassino, progressivo e busca a todo custo mascarar-se atrás da pandemia. Apenas a união de toda a classe trabalhadora, organizada contra a burguesia, nas ruas, poderá travar o moinho que ensaia acelerar-se nas turbulentas águas, turvas de sangue trabalhador.

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