Demagogia
Bolsonaro é contra o futebol feminino e a esquerda pequeno burguesa é contra o futebol brasileiro
NEYMAR MARTA
Os dois craques brasileiros | Arquivo
NEYMAR MARTA
Os dois craques brasileiros | Arquivo

No último domingo, dia 17, a prova do ENEM trouxe uma questão comparando os salários dos dois maiores jogadores do mundo em suas modalidades, Marta e Neymar. A questão trazia os valores dos respectivos salários e as respectivas estatísticas de cada um.

O fato acabou gerando nova polêmica em torno de Neymar que, embora sequer tenha se pronunciado sobre o assunto, passou a ser atacado pela imprensa e pela esquerda pequeno-burguesa. A polêmica foi agravada pela crítica de Bolsonaro que afirmou que a questão era “ridícula”.

A declaração do presidente golpista serviu para aumentar a confusão em torno do assunto. A esquerda pequeno-burguesa, com sua habitual dificuldade em adotar uma posição independente diante das polêmicas, aproveitou para atacar Neymar.

A melhor reação sobre o caso foi da própria jogadora Marta. Ela postou em seu Instagram uma crítica indireta a Bolsonaro: “Uns serão lembrados como os melhores da história. Já outros…”, mostrando que até mesmo entre os atletas, a popularidade de Bolsonaro é cada vez menor.

Vejam que a crítica de Marta está voltada a Jair Bolsonaro. Sua declaração, em nenhum momento ataca Neymar, o que mostra que Marta é mais consciente do que a esquerda sobre o problema.

A conta oficial do PSTU no Twitter afirmou o seguinte: “Em uma coisa Bolsonaro tem razão: é absurda a comparação entre Marta e Neymar. Todo mundo sabe que Marta joga muito mais…”. Diferente da crítica de Marta, o PSTU preferiu jogar o jogador brasileiro contra a jogadora, o que no fundo é a mesma política de Bolsonaro.

Não é necessário atacar o futebol masculino para defender o feminino

Sem dúvida, a defesa do futebol feminino deve estar nas preocupações da esquerda. Em primeiro lugar pelo próprio incentivo dado às mulheres na prática do esporte mais popular do Brasil. Até pouco tempo, as mulheres eram excluídas desse esporte.

Em segundo lugar, é preciso defender o total apoio ao futebol feminino, verbas, estrutura, incentivos e divulgação. Essa é a política que garante a qualquer modalidade se tornar competitiva em uma país.

O futebol feminino precisa ser tratado como um esporte amador, no sentido de que ele é uma modalidade olímpica. Ele precisa, muito mais do que o futebol masculino, de verbas e incentivos estatais para poder se desenvolver.

Logicamente que a presença dos capitalistas no futebol deve ser denunciado. Do mesmo jeito que o futebol feminino é preterido em relação ao masculino, dentro do futebol também os clubes menores estão preteridos em relação aos grandes. Como o futebol se tornou um enorme e lucrativo negócio, sua dependência dos capitalistas gera uma profunda desigualdade de condições.

Diante de tudo isso, é preciso exigir que os governos invistam no futebol feminino e ao mesmo lutar para que os capitalistas sejam expulsos dos clubes, que devem ser controlados pelos torcedores e pelo povo. É preciso, portanto, uma política clara em relação ao problema.

É natural que a imprensa capitalista, para disfarçar o fundo do problema, procure apresentar a desigualdade entre o futebol feminino e masculino não como um problema do próprio funcionamento do capitalismo. Para isso, cria uma oposição artificial entre um e outro. Ao invés de mostrar a desigualdade, procuram atacar os jogadores por serem privilegiados. A esquerda pequeno-burguesa, como fica claro no tuíte do PSTU, sempre pronta a acatar a orientação da imprensa capitalista, adota exatamente essa política.

Não atacam o sistema capitalista e os lucros provindos da exploração do futebol, mas opõe o futebol masculino ao feminino. Não há dúvida que Marta é a melhor jogadora de todos os tempos, mas a grande pergunta é: para que a comparação com o futebol jogado por Neymar? Isso com certeza não irá mudar a situação do futebol feminino mas tem um objetivo bastante claro que é servir de combustível para atacar o futebol brasileiro de conjunto.

Ao dizer que Marta joga melhor que Neymar, sendo que tal comparação nem está colocada, o PSTU e a esquerda estão corroborando com a política de desmoralização do futebol brasileiro.

Ao invés de defender o futebol como cultura do povo brasileiro, o PSTU prefere aderir à intriga de Bolsonaro, jogando Marta contra Neymar. Bolsonaro jogou a isca e o PSTU mordeu.

A declaração do presidente golpista tem como objetivo desqualificar a reivindicação legítima de que o futebol feminino deve ter o mesmo tratamento do que o masculino.

Já o PSTU e uma parte da esquerda pequeno-burguesa estão mais preocupados em atacar o futebol brasileiro do que defender o futebol feminino.

Pura demagogia

Ao adotar essa posição, o PSTU não está nada mais do que simplesmente fazendo demagogia em torno do problema do futebol feminino. Não se trata de uma defesa real, com um programa coerente em defesa do esporte e da cultura popular que é o futebol, mas de mero discurso demagógico para agradar determinados setores.

Na sua preocupação de fazer demagogia, o PSTU se mostra um inimigo do futebol. Como boa parte da esquerda de classe média, o PSTU não tem nenhuma política de defesa do futebol brasileiro. O PSTU não está comprometido em defender um futebol popular, em defender as conquistas do futebol e dos jogadores brasileiros em contraposição ao imperialismo europeu. Por isso não se importam de atacar Neymar, misturando as supostas posições políticas deste com seu futebol.

A esquerda pequeno-burguesa mais uma vez mostra que não tem nenhum interesse no futebol, porque não tem nenhuma ligação real com os interesses das massas. Mais uma vez, a esquerda pequeno-burguesa mostra sua ignorância nas questões da cultura.

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