Eleições
Morenistas recorrem a Lênin e Trótski, mas não conseguem explicar o óbvio: a candidatura do PSOL em São Paulo era a “frente ampla” na prática
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Guilherme Boulos | Foto: Reprodução/Facebook

Incentivado por seus “amigos” da esquerda pequeno-burguesa, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), já completamente desnorteado após doses e mais doses da política pró-imperialista de apoio aos golpes de Estado, decidiu passar mais uma vergonha: chamou voto em Guilherme Boulos (PSOL), candidato da frente ampla em São Paulo. Sob condições semelhantes, a agremiação morenista sorriu para Manuela D’Ávila, candidata do PCdoB em Porto Alegre, e declarou publicamente suas intenções para com a frente ampla gaúcha. Hoje, depois de bater a ressaca e ver que o que parecia belo não era tão belo assim, o PSTU procura, ainda trôpego, juntar as palavras para explicar que, na verdade, nunca esteve embriagado: é o mundo que, entorpecido, não reconhece o caráter revolucionário e combativo da política morenista.

Segundo registrado em artigo publicado no dia 19 de novembro no seu próprio portal na internet, o PSTU declarou:

“Compartilhamos com amplos setores da classe trabalhadora a necessidade e o desejo de derrotar Bolsonaro e Covas, afilhado de Doria. (…) Respeitamos a esperança que a juventude e setores importantes da classe trabalhadora que veem em Boulos a possibilidade de interromper as desastrosas administrações do PSDB na cidade de São Paulo. E por isso vamos  acompanhá-los e chamar a votar criticamente.”.

No dia seguinte, seja por amnésia, seja por muito interesse no assunto, os morenistas repetiram as suas palavras:

“Neste segundo turno, em Porto Alegre, chamamos voto crítico na candidatura de Manuela D’Ávila (PCdoB) para derrotar Sebastião Melo (MDB). Compartilhamos com amplos setores da classe trabalhadora e da juventude a necessidade e o desejo de derrotar Melo (MDB), ainda que não avaliamos que seja “fascista” (termo banalizado pela esquerda parlamentar, que só serve para justificar sua permanente política de aliança com setores burgueses ditos ‘democráticos’ ou ‘progressistas’)”.

Seja em Porto Alegre, seja em São Paulo, o PSTU apresentou a mesma mentira e a mesma chantagem de alcóolatra. A mentira é a de que amplos setores da classe trabalhadora e da juventude estariam interessadas nas candidaturas de Boulos e de Manuela D’Ávila. A chantagem, por sua vez, é a de que, diante da ameaça de um grande “mal”, a esquerda deveria votar no “menos pior”.

Para chegar a uma conclusão tão bizarra de que as candidaturas da frente ampla seriam populares, o PSTU precisou adotar um método de análise política completamente avesso ao marxismo: a análise política através do aquário da classe média. Se Boulos e Manuela são apoiados pela juventude, qual é o movimento real de jovens que declarou voto em qualquer um dos candidatos? Qual a ligação dos candidatos com a juventude? De qual greve estudantil, de qual grande mobilização da juventude saiu a base de apoio do PSOL paulista e do PCdoB gaúcho? E, até mesmo, em que aspecto de seus programas Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos defendem a juventude? Pelo contrário, há apenas a defesa da volta às aulas, do endividamento das famílias, da contenção de gastos e da repressão do Estado.

O mesmo podemos dizer da classe operária. Quais seriam as grandes bases operárias de Boulos e de Manuela D’Ávila? Quantas bases sindicais apoiaram verdadeiramente suas candidaturas? Quantas comissões de fábrica? De qual movimento grevista teria saído a base de Boulos e de Manuela D’Ávila? Há sequer um programa em defesa da classe operária? De forma alguma: não se discute a redução da jornada de trabalho, não há uma única proposta concreta para o desemprego, e a pandemia de coronavírus seguiria sendo negligenciada…

A chantagem também é o oposto de qualquer concepção científica da política. O marxismo busca esclarecer as massas sobre quem são os seus inimigos e como fazer para combatê-los, e não embriagá-las com o hálito de quem já não sabe nem mesmo o caminho de casa… Forçar os trabalhadores a votarem em um determinado candidato contra outro não elevará a consciência de classe, apenas levará a uma desmoralização mais profunda da esquerda.

A fórmula do “voto útil” — isto é, do “vote no menos pior” — sempre fez parte dos setores mais oportunistas da esquerda internacional. Os setores mais carreiristas e pequeno-burgueses, que veem na política apenas uma forma de conseguir um bom salário, sempre tiveram como principal política confundir os trabalhadores para que acabassem votando em partidos e candidatos que defendiam o exato oposto de seus interesses. Foi com essa política, de “evitar o mal maior”, que o PSDB tomou conta do aparato estatal de São Paulo.

O que é particularmente ridículo no caso do PSTU é que, diferentemente de uma figura como Guilherme Boulos, a agremiação morenista não deveria ter qualquer ilusão de conquistar algum cargo por meio das eleições fraudadas deste ano. Boulos entrou de cabeça na frente ampla, destruindo a mobilização das torcidas organizadas e assinando manifestos com o PSDB, porque tinha a expectativa de conseguir algum prestígio no atual regime político. Para o PSTU, nem mesmo esse tipo de mesquinharia estava colocada. Ou seja: tal como um bêbado, o PSTU passou a agir pensando que era outrem.

E essa confusão absoluta não é por acaso. Isso demonstra que o PSTU, como a esquerda pequeno-burguesa internacional, incluindo aquela que se autointitula “trotskista”, se encontra refém da política oficial do imperialismo: a democracia burguesa. Para o PSTU, tornou-se impossível romper com as eleições, porque, para todo pequeno-burguês, as eleições são uma espécie de droga: não dá para ficar sem. Obviamente, é possível ter uma política independente das eleições: no que é fundamental, as eleições nunca mudaram coisa alguma para a classe trabalhadora. Muito pelo contrário: sempre foram um recurso para desviá-la de sua luta.

Chama a atenção, inclusive, que o PSTU não chamou voto em Manuela D’Ávila para combater o “fascismo”, principal argumento utilizado pelos picaretas da frente ampla. A agremiação sequer considera o candidato do MDB um fascista, o que demonstra uma obsessão pelas eleições. Basta o pretexto do “mal menor” para que o PSTU apoie qualquer candidato.

O dia seguinte

De acordo com os registros de seu portal na internet, o PSTU, no dia 3 de dezembro, decidiu gritar duas palavras contra aqueles que demonstraram suas incoerências: “oportunista” e “sectário”. Dizem os morenistas:

“A posição do PSTU de voto crítico em Guilherme Boulos (PSOL) no segundo turno em São Paulo curiosamente gerou críticas de correntes políticas pela direita e pela esquerda, oportunistas e sectárias. Um setor exigia do partido apoio político e incondicional à candidatura do PSOL e chamava o PSTU de sectário. Para esse setor, nenhuma crítica pública podia ser feita a Boulos. Outros grupos pequenos de ultraesquerda trataram o voto em segundo turno como princípio e apontavam que qualquer posição que não fosse a de voto nulo era uma capitulação ao campo burguês de colaboração de classes representado pela candidatura de Boulos. Assim, para esse setor, o PSTU seria oportunista”.

Após chamar todos daquilo que é, o PSTU, não satisfeito, ainda confundiu seus próprios delírios com as concepções revolucionárias de quem não têm absolutamente nada a ver com a história:

“Para os marxistas e para os revolucionários, como Lenin e Trotsky, a sociedade se divide em classes sociais, e o campo do proletariado e de seus aliados deve confrontar-se com os diferentes campos burgueses. (…) É por isso que Lenin e Trotsky exigiam dos mencheviques que rompessem com a burguesia e tomassem o poder”.

De uma coisa, o leitor pode ficar tranquilo: nem Lênin, nem Trótski, nem também Charles Baudelaire ou Edgar Allan Poe disseram algum dia: “trabalhadores de todos os países, votai em Guilherme Boulos”.

Quanto ao oportunismo do PSTU, não deveria haver qualquer contestação. A candidatura de Guilherme Boulos em São Paulos é hiper-oportunista. E quem apoia sua candidatura é, portanto, oportunista. Ainda mais no caso do PSTU, que é uma organização com mais de duas décadas de existência…

Se uma figura que sequer vem do movimento operário se lança como candidato da esquerda e extorque todo o movimento operário e popular para que vote nele, não poderia ser chamado de outro nome que não um oportunista. Seu objetivo é, no fim das contas, submeter as organizações do povo trabalhador ao seu projeto individual de carreira.

Se Boulos não é um candidato popular, de onde viria sua suposta votação expressiva? Ora, vem justamente das operações da burguesia. A burguesia impulsionou sua candidatura de todas as maneiras possíveis, utilizando, principalmente, a sua imprensa. A Folha de S.Paulo, que já havia cedido seu espaço para Guilherme Boulos fazer campanha contra o governo do PT, fez campanha aberta para que Boulos fosse o candidato da esquerda. Outras figuras direitistas, como Felipe Neto, Vera Magalhães e José Luís Datena, também passaram a elogiar o candidato psolista. Tanto é assim que, antes mesmo da convenção do PSOL, todos sabiam quem seria o seu candidato em São Paulo: a burguesia já havia determinado que seria Guilherme Boulos. E o motivo pelo qual a burguesia escolheu Boulos como sua “esquerda favorita” era óbvio: Boulos vem se rastejando aos pés da direita golpista durante anos, garantindo que não faria nada que não fosse de seu interesse.

Na tentativa de se justificar, o PSTU ainda compara um eventual governo Boulos com os governos do PT:

“A candidatura Boulos-Erundina, pelo seu programa, projeto de governo e composição, é de colaboração de classes. Sua proposta conformaria um governo burguês como os do PT”.

Somos obrigados a discordar dos morenistas também neste ponto. De fato, tanto o governo do PT como um inexistente governo Boulos são expressões da colaboração de classes. E ambos foram apoiados pelo PSTU. No entanto, há duas diferenças principais. A primeira é que o PT, apesar de ter governado junto com os inimigos dos trabalhadores, possui uma ampla base social, o que faz com que seu governo seja fortemente pressionado pelos trabalhadores e pelos sem terra. Já Boulos conta apenas com uma minúscula base na classe média conservadora de São Paulo. A segunda é que o governo do PT com a direita se deu em meio a uma falência dos governos neoliberais, e não de um golpe de Estado continental. Os setores com os quais Boulos aparece hoje foram os responsáveis por toda a onda golpista recente sobre o País. Tanto é assim que esses setores não querem uma aliança com o PT no momento.

Sectarismo ou ciúme?

A acusação de sectarismo contra o PSTU é engraçada, mas não deixa de ter certo fundamento. Quem levanta esse tipo de acusação, quer dizer o seguinte: ora, se o PSTU pensa como nós, defende abertamente a frente ampla, por que iria criticar o melhor candidato da frente ampla? Vendo por esse lado, os psolistas que criticam o PSTU têm razão: não há diferença significativa entre a política de colaboração de classes do PSTU e a política de Guilherme Boulos.

Ao que parece, as críticas do PSTU a Boulos são, no fundo, o ressentimento daquele que se sentiu traído. No início do século, o PSTU disse que o PT era um partido inviável, de modo que seria preciso construir um outro partido. Esse outro partido viria a se consolidar como o PSOL, o partido da liberdade de não ser socialista. Rejeitado pelo PSOL, o PSTU propôs a formação de uma “frente de esquerda” com Heloísa Helena nas presidenciais de 2006, mas não conseguiu sequer ficar como vice… Desde então, foi escanteado. Agora, a “frente de esquerda” com que tanto sonharam foi feita em São Paulo: PSOL, PCB e UP, mas esqueceram de chamar o PSTU para festa… O partido morenista entrou de última hora, quase que de penetra, e acabou quebrando a cara. Acreditando piamente na propaganda da burguesia de que Boulos poderia vencer as eleições, o PSTU encontrou, no fundo do copo, mais um erro retumbante para a sua coleção.

Esse breve retrospecto mostra que, finalmente, o PSTU nunca foi revolucionário, mas sim uma espécie de eterno seguidor da frente ampla, que lhe defendia mesmo quando essa ainda não tinha o nome e a forma que tem hoje.

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