Bolsonato-Mourão-e-Moro

As bombásticas revelações veiculadas pelo site The Intercept Brasil no início desta semana não só causaram estupefação e alvoroço no ambiente social e político do país, como tiveram o efeito imediato de debilitar ainda mais toda a frágil e movediça estrutura que mantém de pé o natimorto governo do presidente fraudulento Jair Bolsonaro, atingindo também em cheio o próprio núcleo do regime burguês golpista em seu conjunto.

Toda a espiral de crises que o recém empossado presidente vem enfrentando, mesmo antes de sua posse, não pode ser interpretada de outra forma a não ser como resultado do mais completo fracasso da empreitada golpista empreendida pela burguesia nacional, auxiliada por seus serviçais e agentes internos, tendo como elemento articulador fundamental o imperialismo mundial, particularmente o norte-americano e as grandes corporações ianques, financiadoras e articuladoras do golpe de Estado no Brasil em 2016.

Um dos instrumentos mais importantes e decisivo para levar adiante a obra golpista contra o governo eleito em 2014 se deu na criação da “Operação Lava Jato”. Desde o início de sua atuação, a famigerada “Operação” golpista nunca conseguiu ocultar ou mesmo disfarçar seu conteúdo reacionário, direitista e persecutório, particularmente contra o PT, seus dirigentes e o ex-presidente Lula, embora, curiosamente, tenha atraído não só a simpatia, mas o apoio direto de setores da própria esquerda nacional, que viam e ainda veem na atuação dos Procuradores fascistóides da Lava Jato, a determinação em “combaterem a corrupção” no país. Um escândalo inominável em se tratando de partidos e gente que se reivindica como representante de esquerda.

O farto e volumoso material que se encontra de posse do The Intercept – que convulsionou o ambiente político nacional ao ser disponibilizado – não é e não pode ser interpretado como uma ação de “hackers” ocasionais, como vem sugerindo os tresloucados defensores mais incisivos e fanatizados do juiz Sérgio Moro e da Lava Jato. Tudo indica – e todos os elementos apontam claramente nesta direção – que as denúncias chegadas às mãos do The Intercept partiram de um setor da própria burguesia, descontente com os descaminhos e “cabeçadas” do impotente e paralisado governo do ex-capitão e que vem sendo diretamente afetada em seus interesses com o estado de crise em que se encontra a combalida economia nacional, que vem ostentando indicadores medíocres e raquíticos, sem qualquer mínima perspectiva de recuperação.

A fratura no interior da burguesia está marcada não só pelo descontentamento desta com o sombrio cenário econômico do país, mas sua preocupação advém principalmente da entrada em cena de um elemento que pode atuar como decisivo no desenvolvimento da situação política no período próximo, que é a tendência da luta popular de massas ao enfrentamento contra o governo Bolsonaro e o conjunto do regime burguês golpista. Este é, na verdade, o epicentro de toda a crise que eclodiu com as denúncias arrasadoras contra a Lava Jato, que atingiu em cheio uma das figuras de proa do ministério bolsonarista, o ex-juiz dos processos fraudulentos da Lava Jato, e atual Ministro da Justiça, Sérgio Moro, o homem colocado no pedestal das virtudes e da inviolabilidade pelo conjunto das forças golpistas.

É óbvia e mais do que evidente a enorme pressão que o governo vem sofrendo dos mais diversos setores, em particular de um setor do golpismo que lhe hipotecou apoio e que se vê neste momento incomodado com os rumos e descaminhos de um governo completamente sem bússola e sem qualquer perspectiva de oferecer ao país um mínimo de estabilidade para a travessia do mar revolto em que foi transformado o intrincado tabuleiro político nacional, onde as peças se encontram totalmente confusas e desorientadas.

As recentes declarações de setores que nunca esconderam sua postura golpista (jornal o “Estadão”, o vice Hamilton Mourão e a OAB, entre outros) e que sempre hipotecaram apoio não só ao governo Bolsonaro, como principalmente às ações de “combate à corrupção” levadas a efeito pela Lava Jato, o ex-juiz Sérgio Moro e os Procuradores da Força Tarefa da “República de Curitiba”, no sentido de se abrir investigações acerca das graves denúncias reveladas esta semana, evidenciam que há uma aguda luta fratricida entre as diversas frações golpistas, o que, indubitavelmente irá potencializar ainda mais a crise, que já é, por si só, sob todos os aspectos, demasiadamente explosiva.

Todo este quadro de elevada temperatura, cenário convulsionado e impasse em que se encontra o conjunto do regime político surgido do golpe de Estado de 2016, coloca como perspectiva imediata a intervenção das massas no cenário político nacional. Esta política, no entanto, não pode estar orientada para a obtenção de vitórias parciais inócuas de um ou outro setor atacado pelo governo (educação, previdência, meio ambiente, saúde, agrotóxicos etc.), mas deve estar direcionada para a derrubada do governo Bolsonaro, responsável de conjunto por todos os mais brutais ataques aos direitos e conquistas dos trabalhadores; ao ataque às massas sofridas do campo e da cidades; aos negros; às mulheres, aos aposentados; aos moradores pobres das periferias das grandes cidades; aos indígenas, aos quilombolas. A Geral Greve marcada para o dia 14 de junho deve apontar claramente nesta perspectiva, um caminho de lutas e vitórias contra o conjunto regime burguês golpista.