Tragédia anunciada
O biólogo faz mais um alerta sobre a situação de Manaus :  “Se não for tomada nenhuma iniciativa, como ocorreu no passado, a terceira onda será mais mais longa e matará mais gente
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Familiares de doentes em busca de Oxigênio em Manaus. | Foto: reprodução
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Familiares de doentes em busca de Oxigênio em Manaus. | Foto: reprodução

No mês de agosto foi publicado um artigo na revista Natura, um artigo com o título “Políticas do Brasil condenam a Amazônia a uma segunda onda de Covid-19″.

Nele o biólogo Lucas Ferrante, do Instituto de Pesquisa da Amazônia (Inpa) alertava para o iminente caos sanitário no estado do Amazonas tendo em vista a não adoção das políticas públicas necessárias para a contenção da disseminação do Coronavírus.

O autor no artigo afirma que as evidências científicas demonstram que o COVID-19 só poderia ser contido através de um significativo isolamento social que perdurasse por mais de dois meses, além da estratégia de testes e rastreamentos do vírus e medidas de proteção individual.

A consequência da não adoção das medidas sanitárias seria uma segunda onda de contaminações e de uma forma mais avassaladora tendo em vista as mutações virais.

Ignorando as evidências e alertas, o prefeito de Manaus, na época Arthur Virgílio Neto (PSDB), cedendo às pressões das igrejas, da Federação do Comércio e da Indústria, iniciou em maio a flexibilização da abertura e liberação das escolas em meados de junho para aulas presenciais.

O que se viu entre a data do alerta e 20 de julho foi um aumento de 4951% nos casos confirmados e 2069 % de óbitos no estado do Amazonas .

A prevista segunda onda propiciou o espetáculo de horrores com mortes em passeio público vistos no mês de janeiro no estado do Amazonas. Até o dia 13 de fevereiro o estado acumulava 294.333 mil casos confirmados , com 9.819 óbitos .É a maior taxa de mortalidade do Brasil, estando em 232,1 mortes a cada 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional que é 113 mortes/100mil .

A letalidade do vírus, ou seja, o índice de mortes por contaminados também supera a média nacional de 2,4%, estando em 3,3 % no Amazonas.

O que traz de novo esta segunda onda é a presença de novas cepas de coronavírus como consequência da livre circulação viral, caracterizada por uma maior capacidade de contaminação, o que é chamado de virulência, uma maior gravidade dos sintomas, além de atingir uma parcela mais jovem da população que na primeira onda foi poupada de sintomas graves.

Outro fator a ser considerado como consequência do não controle da pandemia , é a capacidade de reinfecção pelos vírus pelas mutações. Pessoas que estiveram doentes ou contaminadas em 2020, na primeira onda voltaram a ser contaminadas em janeiro de 2021 .

Neste momento, a situação de incremento em contaminação, internações e mortes já é realidade nos estados do norte do país. As novas cepas já foram identificadas em diferentes estados do Brasil prenunciando que a situação de Manaus se repetirá em todo o país em algum momento caso medidas eficazes não sejam adotadas.

O biólogo Lucas Ferrante veio a público para mais um alerta sobre a situação de Manaus: “Se não for tomada nenhuma iniciativa, como ocorreu no passado, a terceira onda será mais longa e matará muito mais gente. A alternativa é lockdown com mais de 90% de isolamento e vacinação de toda população de Manaus”, disse.

Um novo estudo será publicado em breve com a contribuição de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do Amazonas (UFAM), de São João del-Rei (UFSJ) e de uma pesquisadora aposentada do Instituto Butantan.

O novo estudo é construído a partir das taxas de transmissão da nova variante de coronavírus do Amazonas, as taxas de reinfecção da população por perda de imunidade após seis meses do primeiro diagnóstico, do grau de isolamento social adotado e das estatísticas de vacinação no estado.

Os estudos de Ferrante vão ao encontro de pesquisas em outros países que atribuem a flexibilização da circulação em prol da economia as segundas ondas vistas em países da Europa.

É  importante destacar que não se pode atribuir única e exclusivamente a presença de novas variantes do vírus a crise sanitária . A explosão de novos casos levou ao colapso dos estabelecimentos de saúde por redução de leitos no período anterior , por ausência de investimentos em insumos básicos como a falta de oxigênio para tratamento da população, tendo como consequência um aumento de 632% no último mês.

A terceira onde paira no horizonte como uma realidade palpável e não apenas uma possibilidade ou especulação já que as medidas de contenção dependem de decisões políticas que nem o Governo Bolsonaro, nem governadores e prefeitos intencionam tomar. Acima da vida da população brasileira está a economia e os interesses financeiros da burguesia e do capital.

É preciso lembrar que as parcas medidas de restrição adotadas não atingem e nunca atingiram a toda a população. Poucos são os que podem ou puderam realizar o idealizado “isolamento social”.

As medidas restritivas não passam de meros paliativos teatrais pois não há o que se falar em isolamento se não são dadas as condições econômicas para que a população possa realizar este isolamento.

O fim do miserável auxílio emergencial, o grau de desemprego, a fome que atinge milhões de pessoas é a realidade que o governo nos impõe. Ao mesmo tempo em que a segunda onda toda conta do país, o assunto do momento é a volta às aulas em meio a uma epidemia fora de controle.

O que se espera em um futuro próximo é o agravamento da crise sanitária , com um aumento exponencial dos casos e mortes caso não sejam tomadas medidas urgentes de proteção à vida, ao emprego e renda para toda a população brasileira. Medidas estas que jamais serão realizadas sem uma ampla e massiva mobilização nacional que derrube este governo que administra a farsa de enfrentamento ao Covid no país.

 

 

 

 

 

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