Coronavirus e a ciência
As instituições, as revistas e as organizações cientificas existentes no capitalismo não são autonomas em relação a Luta de classes
São Paulo SP 28 02 2020 -O  Brasil tem 132  suspeitos e  paciente em São Paulo  confirmado, afirma o Ministério da Saúde. O virus ja se alastra em todos os continentes.foto OMS
coranavirus | arquivo

A propagação do Covid-19 tem provocado um rastro de mortes e pânico. Ao mesmo tempo, tem colocado em evidência o debate sobre o papel da ciência na sociedade. Contudo, o que se vê não é uma discussão “cientifica” sobre o tema, mas toda sorte de manipulação ideológica sobre o que seria a ciência ou melhor o que a “ciência” recomenda.

Um ponto crucial para o entendimento da questão é não se deixar levar pela visão fantasiosa e ingênua (e interessada) que existiria uma abordagem “cientifica” inteiramente neutra e imparcial sobre a crise sanitária. De acordo com a imprensa, as medidas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) seriam a expressão da abordagem cientifica e, dessa maneira, cruciais para a defesa da “vida”.

Se é verdade que a resposta médica cientifica para enfrentar a proliferação de uma pandemia por um novo vírus é um método indispensável. Não é correto acreditar que as instituições, as revistas e as organizações cientificas existentes no capitalismo podem ter independência para o desenvolvimento da ciência.

 

A política “cientifica” dos governadores de direita no Brasil

No Brasil, a crise sanitária foi amplificada pela posição genocida e criminosa do governo Bolsonaro, que de maneira deliberada simplesmente negligenciou completamente os efeitos do Covid-19 sobre a população. O negacionismo da gravidade da situação foi expresso em diversas oportunidades pelo próprio presidente, que classificou o Coronavírus como tão somente uma “gripezinha”.

Nesse contexto, até mesmo os governadores da direita, eleitos na mesma fraude política de Bolsonaro, como João Doria (SP), Wilson José Witzel (RJ) e Ronaldo Caiado (GO) colocaram-se em “oposição” ao presidente Bolsonaro, e advogaram por um tempo o “isolamento social” e as “recomendações cientificas” da OMS. A esquerda ficou completamente a reboque da “direita civilizada” e aderiu de maneira completamente desesperada ao jargão “fique em casa” em nome da “defesa da vida”.

Assim, enquanto Bolsonaro aproveitava a pandemia para atacar ainda mais os trabalhadores, os governadores buscavam manter as aparências, e na prática não faziam efetivamente nada contra a proliferação do Covid-19, a não ser fechamento parcial no isolamento seletivo. A esquerda, por sua vez, fechava os sindicatos, e se limitava aos insípidos Lives e bateção de panelas nas sacadas dos apartamentos.

Pois bem, agora, quando a catástrofe social se concretiza com a morte de mais de 50 mil pessoas no Brasil, os governadores e os defensores da “vida” e das “recomendações cientificas” simplesmente decidem abandonar até mesmo o isolamento seletivo, e passam a adotar a mesma política criminosa de Bolsonaro, com o tênue disfarce da “ flexibilização”.

 

Negligências, usos e abusos das “recomendações cientificas”

Esse caso brasileiro é o mais gritante, pois revela que as políticas epistemológicas são usadas ou descartadas de acordo com a conveniência dos governantes. O negacionismo radical de Bolsonaro e de outros presidentes como Donald Trump (EUA), em relação aos efeitos do Coronavirus não é simplesmente uma questão de ignorância, mas relaciona-se com interesses de setores capitalistas que pretendem salvar a “saúde” das empresas, mesmo que tenha como efeito colateral a morte de milhares de pessoas.

Por outro lado, governantes elogiados como “rigorosos nas suas decisões”, por usarem as “recomendações científicas”, como Angela Merkel, na Alemanha, ou Emanuel Macron, na França, simplesmente não impediram que milhares morressem, pois resumiram-se a medidas emergenciais no sistema de saúde e a confinamentos mais consistentes. De qualquer forma, o Covid-19 evidenciou que mesmo nesses países com sistema de saúde mais estruturado e instituições cientificas mais adiantadas, o regime capitalista não se preocupa com a saúde humana, e o desenvolvimento científico de forma alguma está a serviço do povo.

Um aspecto relevante é que as posições apresentadas pela imprensa capitalista em todo o mundo, em especial a veiculação dos estudos e recomendações chancelados pela OMS, são contraditórias e ambíguas. Assim, em determinado momento, o enfrentamento ao Covid-19 seria resolvido magicamente se todo o mundo ficasse em casa. Em seguida, quando a “ flexibilização” foi adotada, o uso das máscaras, que era considerado “cientificamente” como ineficaz, passou a ser um item indispensável.

Uma primeira questão é o fato de que não são questionados os fundamentos que levaram à catástrofe do Coronavírus. O que explica que até mesmos países com economias capitalistas desenvolvidas como a Itália, Reino Unido e Estados Unidos, entre vários outros, foram completamente incapazes ao enfrentar o Covid-19? Em contraste, o exemplo positivo de Cuba, um país pobre, mas que tem um sistema de saúde voltado para o interesse da saúde pública do povo cubano, revela que as políticas epistemológicas têm relação direta com a política.

As instituições cientificas e os governos dos países capitalistas naufragaram não por acaso. Acima de tudo, as redes cientificas, as revistas e as pesquisas cientificas estão condicionadas largamente pelos grandes interesses econômicos.

Uma explicação para todos esses equívocos  é que o mundo científico não escapa à lógica econômica e política do capitalismo. As revistas científicas tornaram-se negócios muito lucrativos. O grupo Elsevier, dono do Lancet , além de 2.500 outros periódicos, faturou 2,8 bilhões de euros em 2018 por mais de um bilhão de euros em lucro. Essa lucratividade excepcional é explicada, entre outros motivos, pelo trabalho voluntário dos autores, que às vezes têm que pagar pela publicação de seus artigos. (https://journal.lutte-ouvriere.org/2020/06/17/covid-19-quand-la-science-assure-le-spectacle_149391.html, Tradução A.E)

A indústria farmacêutica multinacional tem um controle de um sistema de patentes excludentes, que permite preços elevados. A produção de equipamentos médicos e insumos hospitalares são controlados e monopolizados por conglomerados econômicos, que não permitem que determinada tecnologia cientifica seja disponibilizada. Além disso, a política neoliberal desmontou os sistemas de saúde públicos, com privatizações e favorecimentos a seguradoras de saúde (planos de saúde).

Da mesma forma que o funcionamento dos sistemas de saúde são condicionados fortemente pelos interesses dos grupos capitalistas, a produção cientifica em geral, e na área de saúde em especial, são dependentes dos grupos econômicos.

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