Um sistema caduco
Para quem ainda tinha dúvidas sobre a podridão do sistema capitalista, o coronavírus tem sido um bom professor. Não há saída nenhuma nos marcos do capitalismo
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Este homem tem mais chances de se recuperar do que o capitalismo, ambos na UTI. Foto: scottmontreal |

Por Eduardo Vasco

O capitalismo é um velho (bem velho mesmo) gagá, de bengala, dentadura, marca-passo, aparelho auditivo, diabético, asmático, hipertenso. Ele é o ser mais vulnerável de todos ao coronavírus. E o pior: já está na UTI respirando por aparelhos há muito tempo!

A crise capitalista, da qual o coronavírus é um produto indireto, foi ampliada pelo caos sanitário gerado pela pandemia. No mundo inteiro, os governos foram pegos de surpresa, sem uma infraestrutura de saúde preparada para lidar com a situação. Mesmo que, na verdade, esse tipo de crise esteja sempre no horizonte e nas preocupações dos Estados, particularmente dos chamados “estados profundos” – o aparato militar e de inteligência, responsável por se ater aos problemas de segurança nacional, dentre eles as catástrofes naturais e as epidemias.

É de se impressionar que até mesmo nos países avançados esteja-se morrendo como mosca. Os Estados Unidos, símbolo da prosperidade do capitalismo, terra da liberdade e da democracia, exemplo da superioridade da livre empresa, onde a mão invisível do mercado demonstrou sua eficiência, sucumbiram e estão sendo humilhados pela mão invisível do coronavírus. São mais de 50 mil mortes e cerca de um milhão de casos confirmados, de acordo com os dados oficiais, que não podem ser levados exatamente a sério. Um quarto das mortes globais até o momento ocorreram no país mais desenvolvido do mundo.

Os países europeus não ficam muito atrás. A Itália apresenta 26 mil mortes, enquanto a Espanha e a França têm 23 mil. O Reino Unido, por sua vez, viu 20 mil de seus cidadãos perderem a vida por causa da doença.

Não é coincidência que sejam as nações mais ricas do mundo justamente as que mais estão sofrendo com o calvário epidêmico. Foram elas também as que apresentaram os distúrbios econômicos, políticos e sociais mais importantes dos últimos anos. Lembremos que Itália e Espanha foram dois dos países mais golpeados pela crise de 2008, o que os fez integrar o famigerado grupo dos PIIGS, formado também por Portugal, Irlanda e Grécia e cuja sigla humilhante acusa a lama à qual foram jogados.

A Itália, ainda, sofreu uma imensa turbulência política que levou a extrema-direita ao poder por algum tempo. Por sua vez, a Espanha viu cair o governo do PP e mal está conseguindo segurar o PSOE na liderança do executivo, com eleições sucessivas e um impasse que apenas foi mitigado. Para piorar, a crise de 2008 fez ressurgiu o principal fator de desestabilização do Estado espanhol: o independentismo catalão.

O Reino Unido vive um cenário parecido, com os escoceses voltando a organizar o movimento de independência, o drama do Brexit e a polarização política entre a extrema-direita do Partido Conservador e a esquerda do Partido Trabalhista.

Por último, a França, pátria da democracia europeia e do iluminismo, sofreu um terremoto com o movimento dos coletes amarelos e o governo de Emmanuel Macron, antes o modelo de gestão nacional para toda a Europa e o mundo, vive em constante crise.

Nem é preciso dizer muita coisa sobre os EUA. Desde as eleições de 2016 o país vive uma instabilidade política e uma crescente polarização puxada por Donald Trump, por um lado, e, de certa forma, pelos trabalhadores e pela juventude, por outro, cuja expressão tem sido o eterno candidato fracassado da ala esquerda do Partido Democrata, o senador Bernie Sanders.

Todas essas crises são resultado da crise de 2008 que, por sua vez, tem raízes na crise de 1974, a qual não é mais do que um aprofundamento das crises anteriores. Afinal, a cada crise o capitalismo, ao invés de se fortalecer – como acreditam alguns inocentes intelectuais –, se enfraquece e, inevitavelmente, prepara uma nova crise, com potencial cada vez mais destrutivo que as anteriores.

As crises econômicas do final do século XIX geraram a intensificação da disputa imperialista pelos recursos das colônias, o que desencadeou a I Guerra Mundial, que viu nascerem a revolução (o socialismo) e a contrarrevolução (o fascismo) modernas. A crise de 1929 obrigou as potências imperialistas a guerrearem entre si novamente entre 1939 e 1945, o que levou à fragilização sem precedentes das potências coloniais, que perderam a esmagadora maioria de suas colônias, bem como ao estabelecimento de uma série de Estados operários com revoluções em todo o mundo. A crise de 1974 inaugurou o neoliberalismo e a de 2008 fez ressurgir a extrema-direita fascista e os golpes de Estado imperialistas nos países atrasados.

O que nascerá desta nova crise, que está apenas começando?

Dos regimes capitalistas, só podemos esperar uma degradação ainda maior contra o gênero humano. Como sempre, os momentos de crise são utilizados pela burguesia para espoliar ainda mais os trabalhadores. Nos EUA, o Estado acaba de repassar cerca de 2,7 trilhões de dólares para os grandes capitalistas, na soma dos dois pacotes aprovados recentemente. No entanto, o dinheiro público para o setor da saúde ou da proteção social é ridiculamente irrisório. Deve ser difícil encontrar exemplo mais evidente de que os capitalistas lucram com a morte de dezenas de milhares de pessoas.

Na Europa, algo muito parecido acontece. Poucas semanas atrás, a União Europeia havia aprovado 540 bilhões de euros em ajuda aos países membros, cuja quase totalidade irá para o bolso dos capitalistas. Agora, um outro fundo de emergência foi criado e, desta vez, deverá ser ainda maior, com estimativas de que chegue a um trilhão de euros.

O que estamos vendo é um dos maiores processos de transferência de renda dos trabalhadores – uma vez que trata-se de dinheiro público – para os capitalistas. Um verdadeiro saque contra o povo, que está morrendo de doença e de fome, e o Estado, ao invés de lhes fornecer ajuda financeira, os rouba para dar à burguesia.

Qual tem sido a solução encontrada por esses países para enfrentar a crise no sistema de saúde? A rapinagem. Os EUA, principalmente, mas também os países europeus e mesmo a China, mostrando como o capitalismo e a “democracia liberal” – que não tem nada de democrática e nem de liberal – são inimigos da humanidade, estão pirateando respiradores, remédios, testes, e todo o tipo de equipamento, desviando de outros países, roubando, chantageando, monopolizando. As aves de rapina brigam por um pedaço de carne, enquanto a principal delas, a águia norte-americana, retira a parte que lhe cabe do financiamento da Organização Mundial da Saúde.

É um “salve-se quem puder” desnecessário, porque esses países poderiam utilizar as fortunas que estão dando aos capitalistas para produzir medicamentos e fabricar equipamentos de saúde. Mas, para eles, o lucro – isto é, a expropriação da riqueza socialmente produzida – é sagrado e vem em primeiro lugar. O resto, que se dane.

Mas os países imperialistas não estão matando apenas suas próprias populações. Toda morte por coronavírus na Venezuela, na Síria, no Irã, em Cuba ou em qualquer outro país que sofre sanções econômicas pode perfeitamente ser atribuída aos Estados Unidos e aos países imperialistas europeus. Mesmo em um cenário apocalíptico como este, o bloqueio imperialista não cessa, impedindo que esses países comprem remédios e equipamentos para seu sistema de saúde, ou mesmo peçam empréstimo para lidarem com a crise econômica. O Fundo Monetário Internacional, por exemplo, negou crédito à Venezuela já com a pandemia fazendo suas primeiras vítimas. Os mesmos que acusam Maduro de genocida comprovaram que eles é quem são os verdadeiros genocidas.

Outro aspecto, até que muito noticiado mas pouco analisado, que mostra a falência total do regime político e social, é a libertação – mesmo que em termos limitados – de milhares de presos em dezenas de países pelo mundo. Irã, Turquia, Afeganistão, Sudão, Peru e México são apenas alguns exemplos de governos que foram obrigados e libertar uma parcela de sua população carcerária por causa das pressões contra o amontoamento desumano dentro dos presídios e a grande possibilidade de contágio massivo. Esse direito democrático básico – o direito à liberdade – só lhes foi concedido, no entanto, porque – como ocorre, por exemplo, na Colômbia ou na Argentina – uma rebelião nos presídios resultaria em uma gigantesca desestabilização social nesses países, com mortes, fugas e desespero geral da população. Mesmo assim, os regimes antidemocráticos dos EUA e Brasil (primeira e terceira maior população carcerária do mundo, respectivamente) insistem em manter os presos confinados nessas sucursais do inferno, embora nos dois países hajam casos confirmados, e, inclusive, de mortes, dentro dos presídios.

Para quem ainda tinha dúvidas sobre a podridão do sistema capitalista, o coronavírus tem sido um bom professor. Não há saída nenhuma nos marcos do capitalismo. Mesmo após o fim da pandemia (que ninguém ainda sabe ao certo quando isso ocorrerá), a crise não será resolvida e nada será como antes. Pelo contrário: o regime capitalista se afundará ainda mais na lama e, para tentarem salvar os seus lucros, os capitalistas se verão obrigados (como já dão claros sinais de o fazer) a aplicarem uma política ainda mais brutal contra o povo.

Como afirmado acima, não há saída nenhuma para a crise histórica e estrutural do capitalismo nos marcos do sistema capitalista. As soluções apresentadas pela esquerda reformista à Bernie Sanders e Jeremy Corbyn, ou mesmo pelo chavismo, por mais radicais que pareçam (embora não sejam), são insuficientes e inviáveis.

Não há possibilidade de reformas simplesmente porque o regime de acumulação capitalista, de monopolização dos recursos econômicos mundiais por um punhado cada vez menor de parasitas, é incompatível com elas. A rapinagem que estamos vendo no mundo todo, como os exemplos mencionados dos EUA e da União Europeia, é prova disso. O máximo que pode haver é a entrega de algumas migalhas para que o povo não morra de fome, não se rebele e continue alimentando os bolsos dos capitalistas com a sua força de trabalho. Reformas sociais, como vimos nos Estados Unidos e na Europa no pós-II Guerra, com o chamado welfare state, já pertencem ao passado. Mesmo o que ocorreu na América Latina nas primeiras duas décadas deste século muito dificilmente voltará a se repetir.

A burguesia já deu provas de que não pretende fazer mais concessões aos trabalhadores. Mesmo os fenômenos recentes de Corbyn na Inglaterra e de Sanders nos EUA dão conta disso. Um dossiê revelado recentemente pela imprensa britânica mostrou que os dirigentes do Partido Trabalhista atuaram para sabotar a campanha de Corbyn nas eleições gerais de 2017, preferindo que seu partido perdesse para os conservadores a ver seu secretário-geral, representante da ala esquerda e apoiado pelos sindicatos, ser eleito primeiro-ministro do Reino Unido.

Toda a burocracia do Partido Democrata dos EUA, por sua vez, se uniu no apoio a John Biden, contra Bernie Sanders, nas primárias para as eleições deste ano. E o senador “socialista” capitulou vergonhosamente, desistindo de sua candidatura.

Tanto a desistência de Sanders como a capitulação à direita de Corbyn nas eleições de 2019 – após um início de campanha esquerdista – e sua posterior derrota para Boris Johnson mostraram os limites da esquerda reformista.

A crise de 2008 gerou uma “nova esquerda” que se dizia radical, mas que se provou tão reformista quanto a “antiga” esquerda social-democrata. Tanto é que o Podemos espanhol e o Syriza grego duraram pouco. A crise que veio se desenhando em seguida, desdobramento da de 2008, e que estamos vendo seus primeiros sinais vermelhos agora, “reciclou” a antiga esquerda social-democrata, com Corbyn e Sanders. Mas também duraram muito pouco: um perdeu sua última chance de se tornar presidente dos EUA, o outro acaba de ser chutado da liderança do Partido Trabalhista.

Mas há uma diferença fundamental entre esses dois fenômenos, que tem a ver diretamente com o próprio desenvolvimento da crise capitalista. O Podemos e o Syriza são expressão da radicalização de uma parcela da pequena-burguesia de seus países, enquanto Corbyn e Sanders expressam a radicalização da classe operária, não apenas da esquerda pequeno-burguesa. Por isso são mais importantes para a situação política.

Embora todos esses casos tenham fracassado, esse fracasso expõe somente a limitação e inviabilidade das propostas reformistas. Vendo com maior cuidado, percebe-se que elas são a expressão, ainda nos marcos capitalistas, do desenvolvimento – ainda que embrionário – da classe operária em meio à crise atual do sistema capitalista. A classe operária mundial que, até agora, está em um período de décadas de paralisia e mesmo de refluxo, começa a dar sinais de se levantar. E esse levante exigirá uma superação da política de conciliação da social-democracia reformista, cujo resultado é apenas o fracasso, e uma verdadeira política de esquerda, revolucionária, que organize as amplas massas levantadas no caminho para a derrubada completa e final do Estado capitalista e a edificação de um novo modelo de sociedade, o socialismo.

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