Prova da teoria trotskista
País asiático desenvolveu a revolução confrontando os ditames de Stálin, evoluindo das reformas burguesas para a ditadura do proletariado e não se submetendo à burocracia soviética
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Estátua de Kim Il Sung, em Pyongyang, simbolizando a condução da revolução | Foto: Roman Harak

A teoria da Revolução Permanente foi esboçada pela primeira vez por Karl Marx e retomada por Leon Trótski em 1905, sendo desenvolvida posteriormente, a partir da década de 1920.

Essa teoria é uma resposta contundente à teoria do “socialismo em um só país”, criada pela ala direita do Partido Bolchevique no início da década de 1920 e depois elevada ao nível mais grotesco pela burocracia stalinista. Conforme Trótski, na fase imperialista do desenvolvimento da sociedade a burguesia nacional, mesmo nos países onde ela não domina completamente a economia, a classe dominante não tem condições de levar adiante uma luta revolucionária por reformas democráticas, ao contrário do que ela fez no período anterior, liderando as massas pequeno-burguesas e populares para derrubar o feudalismo. Tal revolução, que se pode delimitar no período histórico que vai do século XVIII ao XIX, ocorreu na Europa Ocidental e na América do Norte, enquanto que o resto do mundo, colonizado por essas potências, foi impedido de se desenvolver de maneira acabada nesse mesmo sentido.

Essa tarefa democrática, portanto, nos países atrasados, em que não houve uma revolução burguesa ou esta não foi levada às últimas consequências, só pode ser revolvida pela revolução dos trabalhadores apoiados pelos camponeses. A Revolução Permanente, assim, significa uma violenta transformação social, que passa pela etapa das reformas democráticas da revolução burguesa mas não se detém nelas, evoluindo para uma revolução socialista. Sempre – ao contrário do que foi proposto pelos stalinistas – comandada pela classe operária em aliança com o campesinato, e nunca pela burguesia.

Nas palavras de Trótski:

(…) a vitória da revolução democrática só é concebível por meio da ditadura do proletariado apoiada em sua aliança com os camponeses e destinada, em primeiro lugar, a resolver as tarefas da revolução democrática. (A Revolução Permanente, p. 206)

A Revolução Russa de Outubro de 1917 foi a primeira comprovação dessa teoria. Depois dela, vieram muitas outras. Um exemplo clássico é a Revolução Cubana de 1959, que foi conduzida por um movimento (o M-26) com aspirações nacional-democráticas, sem expropriar a burguesia em um primeiro momento. Porém, diante das necessidades da revolução e da pressão das massas, Fidel Castro rompeu totalmente com os setores burgueses que o haviam apoiado e decretou, em 1961, o caráter socialista da revolução.

No entanto, o outro lado do mundo já havia fornecido novas comprovações da teoria da Revolução Permanente, com as revoluções vietnamita, chinesa e coreana.

Ainda em sua obra A Revolução Permanente, escrita quase 20 anos antes dessas revoluções, Trótski afirmava:

Dada a acuidade do problema agrário e dado o caráter odioso da opressão nacional, o proletariado dos países coloniais, a despeito de sua juventude e do seu desenvolvimento relativamente fraco, pode chegar ao poder, colocando-se no terreno da revolução nacional-democrática, mais cedo do que o proletariado de um país avançado que se coloque num terreno puramente socialista. (Idem, p. 180)

A Revolução Coreana

Com uma civilização milenar, a Coreia sempre foi um país que lutou, em toda a sua história, contra a dominação de forças estrangeiras. Teve de enfrentar invasões mongóis, chinesas e japonesas até que, no século XIX, no auge do capitalismo liberal que, do Ocidente, impunha seu domínio ao Oriente, houve o início da mais dura invasão e posterior submissão do povo coreano. De maneira semelhante ao que ocorreu com a China no mesmo período, a Coreia foi vítima do acosso do imperialismo europeu, norte-americano e japonês que, para abrirem o país ao capital imperialista, impuseram tratados comerciais que subjugaram completamente a soberania da península. Advém daí o processo de desenvolvimento capitalista que leva ao surgimento do proletariado coreano, ainda pequeno no início do século XX mas que, diante das contradições internas, viu-se impelido ao empreendimento revolucionário já na década de 1920.

A Revolução Coreana remonta à segunda metade do século XIX, com o nascimento de um movimento nacionalista embrionário contra a dominação imperialista. No entanto, a partir de 1905 e, de maneira acabada, a partir de 1910, o Império Japonês impõe um domínio oficial à Coreia, conquistando-a por completo como uma colônia. Esse domínio acentuou as contradições do desenvolvimento capitalista coreano, combinado com uma extensa estrutura agrária e o modo de produção asiático, levando a uma espoliação sem precedentes do país e a uma enorme exploração do povo, fosse ele parte dos trabalhadores assalariados, dos camponeses semi-escravizados ou mesmo de setores burgueses e pequeno-burgueses cujas atividades eram prejudicadas e/ou suprimidas pelo capital imperialista. Por exemplo, os japoneses monopolizaram a indústria e dominaram por completo a propriedade fundiária, além de imporem uma ditadura cultural, proibindo os coreanos de falarem o próprio idioma. Assim, até algumas camadas da burguesia e pequena-burguesia nacionais viam-se compelidas a lutar contra tais empecilhos para seu próprio desenvolvimento como classe.

A primeira grande aparição da classe operária ocorreu em 1º de março de 1919, quando fábricas foram ocupadas em um amplo movimento grevista, seguindo-se ocupações de terras pelos camponeses. É perceptível o impacto da I Guerra, com a derrota do imperialismo japonês abrindo uma crise em seu império e, por outro lado, a Revolução Russa influenciando a classe operária de diversos países (e a Coreia faz fronteira com a Rússia) em um sentido revolucionário.

O Movimento Popular 1º de Março, como ficou conhecido, teve importantes consequências. A principal delas foi inserir o proletariado de uma vez por todas como protagonista na cena política, abrindo caminho para um salto qualitativo do movimento nacional-democrático revolucionário coreano.

Em 1925 é fundado o Partido Comunista da Coreia, que durou somente três anos. Guiado pela política da III Internacional, já controlada pelo stalinismo e cuja política errática havia imposto duras derrotas aos operários britânicos e chineses, esse partido não se comportou à altura da situação.

Surge, então, dentro do movimento revolucionário coreano, o jovem Kim Il Sung, que lideraria nas sete décadas seguintes o processo de estabelecimento da ditadura do proletariado na Coreia. Ao invés de aderir à política do Partido Comunista da Coreia – um instrumento da burocracia stalinista -, Kim Il Sung funda a União para Derrotar o Imperialismo (UDI), em 1926, levando adiante uma política independente do Partido Comunista da III Internacional.

Na cerimônia de fundação da UDI, Kim Il Sung fez um discurso no qual afirmava que:

Pelo fato de a UDI assumir, de nome e de fato, a missão de derrubar o imperialismo, seu programa deve estabelecer a tarefa imediata de destruir o imperialismo japonês, inimigo jurado do povo coreano, conquistar a libertação e independência da Coreia, e manter como tarefa futura a construção do socialismo e do comunismo na Coreia, derrubar todas as formas de imperialismo e construir o comunismo por todo o mundo. (Derrubemos o Imperialismo, 17 de outubro de 1926)

Surge da própria situação colonial da Coreia e das lutas contra os outros setores do movimento revolucionário (como os nacionalistas e o PC) a ideia de independência das massas populares para fazer a revolução. As massas precisam ter a independência de classe em relação ao nacionalismo burguês, ao stalinismo e, obviamente, ao imperialismo. Mais adiante essa ideia será desenvolvida e resultará na ideologia oficial do Estado Operário norte-coreano, liderado por Kim Il Sung: a filosofia Juche. Trata-se de um conceito que significa que é preciso apoiar-se nas próprias forças, sendo assim um demarcador de terreno entre o movimento que lideraria a revolução e tomaria o poder na Coreia do Norte e os outros setores como os nacionalistas e stalinistas coreanos, bem como, a nível internacional, um ponto de apoio ideológico da independência política do regime norte-coreano em relação à burocracia soviética.

Em 1930, ocorre a Conferência de Kalun da Liga da Juventude Comunista e da Liga da Juventude Anti-imperialista. Nessa oportunidade, Kim Il Sung faz novas afirmações do caráter permanente da revolução coreana:

(…) A tarefa principal da Revolução Coreana, portanto, é derrubar os imperialistas japoneses e conquistar a independência da Coreia e, ao mesmo tempo, liquidar as relações feudais e introduzir a democracia. (…) Não vamos nos deter no meio do caminho ao concluirmos a revolução democrática anti-imperialista e antifeudal, mas iremos transformá-la em uma revolução para também construir a sociedade socialista e comunista e, assim, levar a cabo a revolução mundial. Concluir a Revolução Coreana é um grande serviço para acelerar a revolução mundial. (O caminho a ser seguido pela Revolução Coreana, junho/julho de 1930)

Tal política ia de encontro aos ditames da III Internacional de Stálin, que pregava a “revolução por etapas”, em que a revolução democrática deveria ser apoiada pelo proletariado mas liderada pela burguesia, para formar um regime burguês que realizasse as reformas democráticas e, só depois, o proletariado poderia, finalmente, tomar o poder.

Forma-se, na esteira dessa conferência, um movimento armado de libertação nacional, o Exército Revolucionário da Coreia, que depois viria a se chamar Exército Guerrilheiro Popular Antijaponês e, mais para frente, Exército Popular Revolucionário da Coreia. Enquanto o stalinismo, a nível mundial, obrigava o movimento comunista que estava sob sua influência a ficar à reboque da burguesia imperialista nas famigeradas Frentes Populares, retirando assim a independência de classe do proletariado e adaptando-se à democracia burguesa, na Coreia os revolucionários pegavam em armas para derrotar o imperialismo e realizar a revolução. O que fez Kim Il Sung, como fez depois Fidel Castro, foi conduzir o proletariado à liderança do processo revolucionário, apoiando-se primeiramente nos camponeses e depois nos demais setores oprimidos pelo imperialismo japonês, dentre eles camadas da pequena burguesia e da burguesia nacional cujos interesses entravam em contradição com os ocupantes. Mas nunca colocou o movimento operário à reboque desses setores. Pelo contrário: fundada em 1936, a Associação para a Restauração da Pátria foi uma frente única que teve como principal objetivo e resultado o recrutamento de centenas de milhares de coreanos para as fileiras da revolução, sendo um impulso para a luta armada, que nunca foi abandonada por Kim Il Sung, contrapondo-se assim à política geral do stalinismo.

Sobre esse processo, Kim Jong Il (filho de Kim Il Sung e seu sucessor na liderança da Coreia do Norte) refletiu da seguinte maneira:

Devido ao fato de que no passado nosso país foi uma sociedade atrasada, semifeudal e colonial, a classe operária não era numerosa, mas sendo o contingente com mais forte aspiração pela independência e espírito revolucionário, constituiu a medula das forças da revolução. Desde a etapa democrática, anti-imperialista e antifeudal, o grande Líder [referindo-se a seu pai] considerou os operários como integrantes da classe dirigente da revolução e tomou suas demandas e as da nação como ponto de partida de todas suas políticas e orientações. Em nosso país, todos os processos da revolução, desde o da anti-imperialista de libertação nacional e o da democrática antifeudal, até o da socialista e de sua construção, foram efetuados com êxito sob a direção da classe operária. (Nosso socialismo centrado nas massas populares é invencível, 5 de maio de 1991)

Assim, por meio desse processo revolucionário, que combinava a luta armada nas montanhas com a organização da classe operária nas cidades através de Comitês Populares, os comunistas liderados por Kim Il Sung tomaram o poder na Coreia na esteira da derrota do Japão na II Guerra Mundial, em 1945.

Aqui cabe uma importante observação. Como explicado em artigo anterior, a onda revolucionária do pós-guerra era algo pré-determinado pelo próprio desenvolvimento das contradições do sistema imperialista. Tal como a I, a II Guerra desencadeou uma nova crise revolucionária, que teve lugar especialmente nos países coloniais, devido à brutal decadência do regime colonial imperialista. A propaganda imperialista, para tentar deslegitimar o Estado Operário norte-coreano (mas também a propaganda stalinista) sempre tentou dizer que a Revolução Coreana foi vitoriosa por causa da presença do Exército Vermelho da URSS, que adentrou o país nos momentos finais da derrota japonesa na guerra. Na verdade, quando isso ocorreu, toda a Península Coreana era repleta de Comitês Populares, que provocaram o estabelecimento de uma dualidade de poderes com as forças de ocupação e, finalmente, saíram-se vencedores através da insurreição revolucionária do povo coreano.

A independência foi vitoriosa com a revolução no norte, de onde partiram os soldados do Exército Popular Revolucionário da Coreia. No entanto, ela foi abortada no sul. A Conferência de Potsdam estabeleceu que a União Soviética, ao intervir na Guerra do Pacífico para ajudar os Estados Unidos a derrotarem o Japão, dividisse com os imperialistas norte-americanos as atividades operacionais militares na Coreia (Ho, H. J.; Hui, K. S.; Ho, P. T. Os imperialistas dos Estados Unidos iniciaram a Guerra da Coreia, p. 39). Na prática, foi uma capitulação de Stálin, uma vez que os EUA demonstravam claramente que pretendiam dominar a Coreia após derrotarem o Japão, e os soviéticos conciliaram, permitindo a presença militar dos norte-americanos na Coreia, o que abriu a porteira para a posterior intervenção que ocorreu na Coreia do Sul, quando o general Douglas MacArthur impôs seu fantoche Syngman Rhee e, junto com ele e os colaboradores dos japoneses que foram perdoados, realizou uma brutal supressão dos Comitês Populares, evitando a revolução no sul da Coreia e impondo uma ditadura fascista sobre o seu povo.

Na Conferência de Ialta essa concordância com a submissão da Coreia já havia sido indicada pela URSS, quando Franklin Roosevelt afirmou que, “para que a Coreia se torne um país independente”, haveria que existir um período de transição de 40 anos, o que foi ratificado pouco depois (Idem, p. 67). Tudo isso sem uma política de enfrentamento por parte dos soviéticos, que demonstraram logo em seguida que estavam realmente a fim de conciliar com o imperialismo na Ásia. Se a URSS defendesse uma política revolucionária (como alguns insistem em acreditar), ao ver as tropas dos EUA invadirem o sul da Coreia para dizimarem a revolução, o Exército Vermelho deveria intervir para apoiar a revolução e garantir a independência da Coreia.

Assim, enquanto a revolução era afogada em sangue pelo imperialismo sem a intervenção soviética na Coreia do Sul, a Coreia do Norte experimentava o início da sua revolução democrática-nacional. Isso já vinha sendo realizado gradualmente em alguns territórios libertados pelo EPRC e pelos Comitês Populares (como ocorrera também na Revolução Chinesa), mas com a conquista da independência em toda a parte norte e a tomada do poder pelos revolucionários comandados por Kim Il Sung, isso acarretou em um salto gigantesco.

No capítulo “Os países atrasados e o programa de reivindicações transitórias” do Programa de Transição da IV Internacional, Trótski analisa que a revolução democrática nesses países tem como tarefas centrais a revolução agrária e a independência nacional, que resultariam diretamente nas questões da revolução socialista:

É impossível rejeitar-se simplesmente o programa democrático: é imperativo que as próprias massas o superem na luta. A palavra de ordem por uma assembleia nacional (ou constituinte) conserva toda a força em países como a Índia ou a China. Essa palavra de ordem deve ser ligada indissoluvelmente ao problema da emancipação nacional e reforma agrária. O primeiro passo é armar os operários com esse programa democrático. Somente eles podem mobilizar e unificar os camponeses. Sobre a base do programa democrático revolucionário é preciso opor os operários à burguesia ‘nacional’. Assim, numa determinada etapa da mobilização de massas sob as palavras de ordem da democracia revolucionária, os sovietes podem e devem surgir. O papel histórico deles, em cada período dado, em particular a relação deles com a assembleia nacional, será determinado pelo nível político do proletariado, pela vinculação entre este e a classe camponesa e pelo caráter da política do partido proletário. Cedo ou tarde, os sovietes deverão derrubar a democracia burguesa. Somente eles são capazes de conduzir a revolução democrática a uma conclusão, abrindo assim uma era de revolução socialista. (Programa de Transição, pp. 62-63)

Trótski conclui que:

A ditadura do proletariado, que sobe ao poder como força dirigente da revolução democrática, será colocada, inevitável e muito rapidamente, diante de tarefas que a levarão a fazer incursões profundas no direito burguês da propriedade. No curso do seu desenvolvimento, a revolução democrática se transforma diretamente em revolução socialista, tornando-se, pois, uma revolução permanente. (A Revolução Permanente, p. 208)

O programa democrático consiste em pontos como a assembleia constituinte, a jornada de trabalho de oito horas, o confisco das terras, a independência nacional diante do imperialismo e o direito do povo de dispor de si mesmo (Idem, p. 201).

Os Comitês Populares eram o equivalente coreano dos sovietes. Se, no sul, eles foram violentamente esmagados, no norte foram fundamentais para o processo que se desenvolveu após a independência. Consistiram na base para a posterior fundação, em fevereiro de 1946, do Comitê Popular Provisório da Coreia do Norte, o governo revolucionário provisório. Esse órgão foi o responsável pela promulgação, no mesmo ano, das leis de reforma agrária (março), do trabalho (junho), de igualdade dos sexos (julho) e da nacionalização das indústrias (agosto). Isto é, tarefas da revolução burguesa executadas através da liderança da classe operária, já no poder do Estado.

Em 10 de outubro de 1945 também é fundado, por Kim Il Sung, o novo Partido Comunista, que criou suas organizações de massas como a União Camponesa, a Liga Democrática da Juventude e a União Democrática das Mulheres, além dos sindicatos operários. Também é fundada a Frente Única Democrática Nacional com os outros partidos apoiadores da revolução. Essa frente era “baseada na aliança operário-camponesa dirigida pela classe operária, e abarcando as amplas massas do povo de todos os estratos da vida social” (Ho, H. J.; Hui, K. S.; Ho, P. T. Os imperialistas dos Estados Unidos iniciaram a Guerra da Coreia, p. 85). Em agosto do ano seguinte, o Novo Partido Democrático (um dos que apoiaram a revolução) ingressa no Partido Comunista, que é, então, renomeado para Partido do Trabalho da Coreia.

Conduzindo as reformas democráticas da revolução nacional, o partido operário decide realizar o processo que desataria na formação da Assembleia Constituinte. Primeiro, são efetuadas as eleições dos comitês populares nos distritos, municípios e províncias em finais de 1946. A partir disso, é realizado o Congresso dos Comitês Populares Distritais, Municipais e Provinciais em fevereiro de 1947 na capital Pyongyang, do qual é conformado o Comitê Popular Norte-Coreano. “Este comitê, que foi uma poderosa arma para a edificação e revolução socialistas, esforçou-se para levar a cabo as tarefas do período de transição ao socialismo e desenvolver a economia nacional de forma planificada”, escrevem Ho Jong Ho, Kang Sok Hui e Pak Thae Ho (Idem, pp. 89-90).

No final de 1947 e início de 1948, o Partido do Trabalho elabora a proposta de fundação da República Popular Democrática da Coreia através de eleições democráticas a nível nacional. Ao mesmo tempo, o regime fantoche da Coreia do Sul, que não cessava a dizimação dos Comitês Populares e a supressão de todos os direitos democráticos, orientado pelo imperialismo, buscava organizar eleições separadas, indo de encontro com as aspirações do povo coreano pela reunificação.

Expressando a necessidade de concluir a revolução nacional-democrática, Kim Il Sung declara:

Nós devemos estabelecer imediatamente um corpo legislativo supremo em toda a Coreia, que represente a vontade de todo o povo coreano, e organizemos a Constituição da República Popular Democrática da Coreia. Não devemos estabelecê-la de uma forma separada, mas em um governo de toda a Coreia que consista em representantes dos partidos políticos e organizações sociais do sul e do norte da Coreia. (Idem, p. 94)

Um primeiro passo no sentido dessas eleições constituintes foi a Conferência Conjunta dos Representantes das Organizações Sociais e Partidos Políticos Sul e Norte Coreanos, realizada em Pyongyang em abril de 1948, onde estavam representadas 56 entidades de todo o país. A Conferência chamou todo o povo coreano a boicotar as eleições separadas e antidemocráticas (uma vez que todas as organizações e partidos políticos populares estavam sendo colocados na ilegalidade) convocadas por Syngman Rhee no Sul.

Mesmo assim, o regime sul-coreano realizou eleições abertamente fraudulentas, impondo a fundação da República da Coreia, no sul, em 15 de agosto. Isso obrigou os revolucionários a chamarem eleições gerais no norte e no sul para fundar uma República Popular Democrática unificada, nas quais participaram 99,97% dos eleitores norte-coreanos e 77,52% dos sul-coreanos, apesar da forte repressão de Seul (Idem).

Essas eleições deram origem à Assembleia Popular Suprema, a assembleia constituinte coreana, que promulgou uma constituição e proclamou a fundação da República Popular Democrática da Coreia em 9 de setembro de 1948. Contudo, apesar de dar uma legitimidade política nacional ao regime nascido dos Comitês Populares, a República Popular Democrática não pôde se consolidar em toda a Coreia, devido à divisão imposta pelo imperialismo.

A Guerra da Coreia e a conciliação do stalinismo com o imperialismo (mais uma vez)

Diante das ameaças crescentes de invasão do norte da Coreia pelas tropas de Syngman Rhee apoiadas pelos EUA, em 1949 a Frente Democrática pela Reunificação da Pátria percebe que a revolução nacional-democrática ainda está pendente e lança um conjunto de propostas para a reunificação independente da Coreia. Essas propostas incluem a reunificação feita pelos próprios coreanos, a expulsão do imperialismo, legalização dos partidos e organizações políticas na Coreia do Sul e eleições gerais simultâneas no norte e no sul que estabeleçam um órgão legislativo supremo que promulgue uma constituição, formando assim um governo unificado de toda a Coreia. A resposta do regime de Seul foi preparar, orientado pelo imperialismo, a invasão do norte para destruir de uma vez por todas a revolução.

Assim, em 25 de junho de 1950, após diversas incursões para o norte do Paralelo 38 (divisão formalizada pelo imperialismo em 1945 entre o norte e o sul da península), finalmente inicia-se a Guerra da Coreia. O Exército Popular da Coreia, regularizado em 1946, contra-ataca e consegue empurrar o exército sul-coreano de volta para o Paralelo 38 e mais além. Caso a guerra fosse apenas entre as forças norte e sul-coreanas, certamente o EPC venceria e libertaria toda a Península Coreana, realizando finalmente a reunificação e a revolução nacional-democrática. Essa era justamente a política do governo norte-coreano, diante da nova situação imposta.

Todavia, o imperialismo interveio militarmente. Os planos de intervenção já vinham sendo elaborados anos antes e o aumento da presença militar norte-americana no Japão e na Coreia do Sul, bem como a própria participação dos EUA nas provocações do exército de Syngman Rhee, sinalizavam que a guerra era iminente. No entanto, a URSS ainda mantinha uma crença na conciliação com o imperialismo no Oriente. O próprio Stálin preocupava-se que a Revolução Chinesa, vitoriosa no ano anterior, estalasse uma revolução nos países vizinhos que desagradasse o imperialismo (Marie, Jean-Jacques. Stalin, p. 842). Foi por isso que os soviéticos foram pegos de calças curtas quando os EUA convocaram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para aprovar o envio de uma força militar conjunta a fim de apoiar a Coreia do Sul contra a “agressão” do norte.

E foi justamente o que ocorreu. Os EUA e mais 15 exércitos invadiram a Coreia para sufocarem a revolução, desta vez também no norte. Dentre esses 15 exércitos estavam os da França, Bélgica e Grécia, países onde, no final da II Guerra Mundial, a classe operária estava a ponto de tomar o poder mas foi traída pelo stalinismo. A Guerra da Coreia mostrou o tamanho do prejuízo resultante da política da burocracia soviética para o proletariado internacional.

Como dito acima, não fosse a intervenção imperialista o governo da Coreia do Norte teria levado a revolução para o sul e libertado toda a nação. Esteve a ponto de fazer isso. Ainda nos primeiros meses da guerra, o EPC chega a ocupar 90% da Coreia do Sul, onde viviam 92% dos sul-coreanos, e por lá os revolucionários do norte restauram os Comitês Populares, fundam células do Partido do Trabalho e realizam as reformas democráticas que já haviam sido feitas na Coreia do Norte.

Porém, o desembarque das tropas imperialistas, em setembro de 1950, desnivela completamente a guerra e faz recuar o EPC, demolindo a estrutura revolucionária que havia sido retomada, desta vez de uma maneira ainda mais sangrenta. O avanço das 17 tropas (Coreia do Sul, EUA e os outros 15 países) chega ao Paralelo 38 e o ultrapassa, invadindo a Coreia do Norte e ocupando quase todo o seu território, com exceção das montanhas mais ao norte. Quando o imperialismo já dava mostras de tentar uma invasão da própria China, o governo revolucionário que havia tomado o poder um ano antes em Pequim decide organizar o Exército Voluntário do Povo Chinês, com um milhão de homens, para apoiar os norte-coreanos e obrigar os imperialistas a voltarem novamente para o Paralelo 38.

Por sua vez, a União Soviética pouco fez para apoiar os revolucionários coreanos. A burocracia stalinista, além de governar o maior país do mundo, fronteiriço com a Coreia e com um prestígio elevado pela vitória na II Guerra Mundial, controlava os governos do leste europeu e os partidos comunistas do Ocidente, muitos deles grandes partidos de massas. Poderia ter feito muitas coisas, desde enviar o Exército Vermelho até organizar brigadas internacionais como fizera na Espanha pouco mais de dez anos antes (que já havia sido um empreendimento extremamente burocrático, conservador e mesmo reacionário em termos de resultados). A URSS já havia desenvolvido a bomba atômica em 1949 e poderia ter utilizado esse poderio como forma de dissuasão logo quando o imperialismo já esboçava um ataque contra a Coreia. Mas não o fez, nunca.

Assim, os norte-coreanos conseguiram obrigar o imperialismo a assinar um cessar-fogo em 1953, retornando a divisão da península a partir do Paralelo 38. Se tivessem sido ajudados pelos soviéticos, a revolução poderia ter triunfado em toda a Coreia. Mas a burocracia stalinista, há décadas, já apresentava uma total decadência contrarrevolucionária.

As críticas ao stalinismo e o chamado pela união dos povos contra o imperialismo

Apesar das contradições do desenvolvimento da revolução e do Estado Operário coreano, os norte-coreanos demonstraram inúmeras vezes, ao longo da segunda metade do século XX, a vigência da teoria da revolução permanente.

Enquanto a burocracia soviética aprofundava a política fracassada do “socialismo em um só país” com a doutrina da “coexistência pacífica” com o imperialismo e a continuidade do boicote à revolução mundial, os norte-coreanos pregavam a luta aberta para abolir o sistema imperialista, a começar pela dominação de seu próprio país pela burguesia vassala.

Participaram da Conferência Tricontinental que, em 1966 em Havana, fundou a Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina (OSPAAAL) com o objetivo de expandir a revolução para todo o globo terrestre. Os países atrasados, cujos movimentos revolucionários tinham uma maior independência em relação à burocracia soviética (ao contrário da Europa) eram incentivados a pegar em armas para travar a luta pela libertação nacional, a revolução democrática e o socialismo.

Em um artigo para a Revista Tricontinental, Kim Il Sung expressa tal política totalmente oposta aos ditames de Moscou, afirmando:

É um erro tratar de evitar a luta contra o imperialismo alegando que, ainda que a independência e a revolução sejam boas, mais preciosa é a paz. Por acaso não é um fato real que a linha de um compromisso sem princípios com o imperialismo unicamente fomenta as manobras agressivas deste e aumenta o perigo da guerra? Uma paz que leva à submissão escravista não é paz. A paz verdadeira não pode ser conquistada se não lutarmos contra aqueles que a perturbam e se não destruirmos a dominação dos opressores, opondo-nos a essa paz escravista. Da mesma maneira que nos opomos à linha de compromisso com o imperialismo, não podemos admitir o temor a lutar contra o imperialismo com ações práticas, limitando-se unicamente a proclamar de modo ruidoso que se está contra o imperialismo. Isto não é senão o contrário da linha de compromisso. Tanto uma quanto a outra não tem nenhuma semelhança com a verdadeira luta anti-imperialista e só servem de ajuda à política de agressão e guerra do imperialismo. (Reforcemos a luta anti-imperialista e anti-ianque, 12 de agosto de 1967)

O líder norte-coreano escreve também, no mesmo artigo:

A luta anti-imperialista e anticolonialista dos povos da Ásia, África e América Latina é uma sagrada luta de libertação de centenas de milhões de seres humanos oprimidos e explorados e, ao mesmo tempo, uma grande luta dirigida a cortar do imperialismo mundial essa linha de vida. Esta luta constitui, junto com a luta revolucionária da classe operária pelo socialismo, as duas grandes forças revolucionárias de nossa época, as quais se uniram formando uma só corrente que sepulta o imperialismo. (Idem)

Ao longo dos anos 1950, 1960 e 1970, os norte-coreanos buscaram colocar em prática esse pensamento, dando treinamento militar e enviando tropas e armas para os revolucionários de diversos países atrasados, dentre eles Angola, Moçambique e o próprio Brasil. Esse apoio foi muito maior do que o da burocracia soviética, que não estava preocupada com a revolução, mas sim em controlar os governos resultantes dessas revoluções para que eles, ao invés de aprofundarem o processo revolucionário, servissem de satélites para atender aos interesses políticos e econômicos da URSS.

Contrariando a teoria stalinista dos campos, os norte-coreanos entenderam que a luta de classes a nível mundial não é sintetizada na luta do “campo socialista” contra o “campo capitalista”, mas sim na luta dos povos oprimidos contra o imperialismo.

A luta contra o imperialismo dentro da Coreia, até hoje, também é travada seguindo esses mesmos princípios. Corretamente, as reivindicações da Coreia do Norte pela reunificação com o Sul partem das necessidades da revolução nacional-democrática, uma vez que, apesar de ter sido estabelecida a ditadura do proletariado no Norte, o Sul continua sendo controlado pelo imperialismo e uma ditadura contra a classe operária. Portanto, ainda segue em vigor a luta pela libertação nacional que, por essência, tem um caráter nacional-democrático na parte Sul.

Aprendendo com a própria experiência da revolução nacional-democrática e da guerra anti-imperialista, os norte-coreanos tiveram aquela conclusão eternizada nas palavras de Che Guevara: “¡no se puede confiar en el imperialismo, pero ni tantito así, nada!” Por outro lado, décadas de luta contra as tendências errôneas dentro de seu próprio país, desde a fundação da UDI em contraposição ao partido comunista stalinista, passando pela revolução de libertação nacional que contrariava a política da burocracia soviética de conciliação com o imperialismo e chegando até a Guerra da Coreia na qual não receberam o apoio necessário da URSS, os norte-coreanos aprenderam que era preciso manter a independência política em relação à camarilha stalinista.

Chegaram a criticar abertamente a burocracia soviética, ao denunciá-la por boicotar a revolução mundial, como nesta declaração de Kim Jong Il:

A causa socialista de um povo é nacional e, ao mesmo tempo, internacional. O partido comunista ou o operário de cada nação tem o direito de defender sua independência e, ao mesmo tempo, a obrigação de respeitar a dos partidos de outros Estados, e de se unir e colaborar baseado na camaradagem pela causa da vitória socialista. (Lições históricas da construção do socialismo e a linha geral do nosso Partido, 3 de janeiro de 1992)

Ainda nesse discurso, Kim Jong Il faz uma crítica contundente ao aparelhamento dos partidos comunistas do leste europeu pela burocracia stalinista:

Já há muito tempo que existira um centro no movimento comunista internacional, e o partido de cada país atuava como sua sucursal. O natural teria sido que os partidos dos países socialistas cooperassem sobre a base de completa igualdade e independência, mas alguns, por não terem se desprendido dos costumes contraídos em meio às suas velhas relações, no tempo da Internacional Comunista, causaram grandes danos ao avanço do movimento comunista internacional. Um, autodenominando-se como ‘centro’, havia perpetrado descaradamente atos de transmitir ordens a outros e pressionar e intervir nos assuntos internos dos que não seguiam sua equivocada linha. (Idem)

Certamente, o fato de ter sido realizada de maneira independente do stalinismo e de ter mantido essa independência é uma das causas da permanência do Estado Operário norte-coreano, mesmo após a queda da URSS e dos regimes do leste europeu e a restauração capitalista na Ásia. Talvez o maior mérito de Kim Il Sung, que faleceu em 1994, tenha sido levar a revolução adiante no exato momento em que ela era boicotada pela burocracia stalinista a nível mundial.

Ao contrário do que podem pensar os stalinistas de boteco, a Coreia do Norte não é uma prova da teoria do “socialismo em um só país”, mas sim da necessidade da revolução permanente. O socialismo, como forma superior de organização da sociedade e como sistema político e econômico, só pode ser plenamente alcançado quando o sistema imperialista tiver sido superado. Em um mundo controlado pelo imperialismo, onde todas as relações sociais são dominadas ou ao menos influenciadas por esse regime, não é possível alcançar uma independência completa, como demonstra o próprio exemplo norte-coreano. O isolamento pós-URSS com o cruel bloqueio econômico imperialista produziu mais de uma década de fome para milhões de coreanos e mesmo hoje, quando essa situação está melhor controlada, o país ainda sofre com inúmeras dificuldades causadas pelas sanções econômicas e constantes ameaças militares.

Além disso, o domínio semicolonial do imperialismo sobre a Coreia do Sul freou a revolução nacional-democrática do povo coreano. Ela só irá se concluir com a libertação do Sul da Coreia e a reunificação de toda a península de maneira independente do imperialismo.

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