Entrevista segunda parte
O petroleiro Deyvidi Bacelar, dirigente da FUP ocupado na sede da Petrobras, relata na entrevista novos dados da greve e um faz um balanço desta 1ª semana de movimento
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Manifestação em frente à unidade da Petrobras: FUP |

Nesta sexta (7), o Diário Causa Operária Online (DCO) continuou a entrevista com o petroleiro Deyvid Bacelar. Um dos 5 dirigentes da Federação Única dos Petroleiros (FUP) que ocupam o prédio da Edise, sede da Petrobras no Rio de Janeiro. Integrante da comissão permanente de negociação com a Petrobras, Bacelar trouxe novos dados da ampliação do movimento, que alcançou 88 unidades da Petrobras em greve. Também falou sobre a perseguição do governo Bolsonaro, através da direção da Petrobras e do TST golpistas. Governo e Judiciário tentam estrangular o movimento através de intimidações operacionais e multas aos sindicatos que passam de 5 milhões de reais por dia. Confira a segunda parte da entrevista.

DCO: Como fica a greve após a decisão ditatorial do Tribunal Superior do Trabalho (TST)? Através do ministro golpista Ives Gandra, decisão liminar declarou a greve abusiva, aumentou a multa para 500 mil reais por sindicato por dia e permitiu à Petrobras à contratação de trabalhadores para substituir os grevistas?

Deyvid Bacelar: Em primeiro lugar, a greve continua e nesta sexta (7) atingiu 88 unidades do Sistema Petrobras. A decisão do ministro Ives Gandra é monocrática, arbitrária e inconstitucional, descumpre a própria lei de greve, que já é bastante moderada. Mais que isso, não apenas a decisão, como a atuação de Ives Gandra é totalmente parcial. O ministro tem um histórico de perseguição aos petroleiros que vem, pelo menos, desde a greve da categoria em 1995.

DCO: Como fica claro na decisão de Ives Gandra, as vias institucionais estão todas sob controle dos golpistas, com forte presença da extrema-direita fascista, quais as perspectivas do movimento grevista para reagir a essa ofensiva, que visa liquidar o setor de petróleo e gás no país e a soberania nacional?

Deyvid Bacelar: É importante não generalizar, neste caso, pois a postura de Ives Gandra não é compartilhada por seus pares no TST. Há histórico no tribunal, com exemplo de decisão recente do ministro Renato Lacerda Paiva na discussão do ACT 2019, em que apesar do resultado do acordo estar muito aquém do ideal, garantiu respeito aos direitos dos trabalhadores e ao direito de greve, que reconheceu inclusive a capacidade histórica que a FUP tem de negociar com a empresa. Neste sentido, a FUP recorreu da liminar imposta por Ives Gandra e a discussão irá ao pleno do TST, onde possivelmente a decisão de Gandra será revertida.

DCO: Em torno de quais palavras de ordem os petroleiros devem se agrupar para se unificar com as demais categorias num movimento mais amplo contra os governos golpistas?

Deyvid Bacelar: Cada vez mais nossa greve tem recebido solidariedade e apoio. No entanto, esse apoio precisa se manifestar concretamente, através da aprovação da greve em outras categorias também, como ocorreu com a Casa da Moeda, com a DataPrev, com os Correios (que iniciam no próximo dia 12) e com os professores. Estas categorias, como a maioria, estão sob diversas ameaças resultantes da política dos governos de direita.

DCO: A greve dos caminhoneiros em 2018 chegou a parar 45% da produção nacional. Na época os petroleiros entraram em greve, mas não se conseguiu a sincronia necessária para a greve geral, que se ocorresse liquidaria o governo golpista de Temer. Como você avalia o impacto da greve dos petroleiros e o potencial dela em dar suporte para a greve de outras categorias e para a greve geral?

Deyvid Bacelar: O ideal é q isso aconteça. O apoio feito através de notas de solidariedade à greve precisa se materializar em luta de fato, com mais categorias na luta. Se a greve durar mais tempo, vai gerar um impacto na gestão da Petrobras e consequentemente no governo federal, o que vai requerer um amplo movimento contra o governo, que pode se materializar numa greve geral.

Hoje as refinarias do sistema Petrobras estão subutilizadas, operando em 70% da sua capacidade. A política de desindustrialização, implementada em 2016, diminuiu a produtividade, elevou os custos e resultou no aumento de preços para o mercado interno. O impacto disso foi o aumento do custo total de produção das refinarias e algumas unidades passarem a dar prejuízo, como a Fafen-PR, que teve sua matéria-prima tornada mais cara do que seus produtos finais. Isso é o que o governo e a grande imprensa não falam. Por exemplo, em 2019, mais de 36 bilhões de reais em diesel foram importados pelo governo, em benefício de empresas estrangeiras. A elevação dos preços dos combustíveis e a privatização das refinarias serve justamente para garantir a importação de produtos refinados que poderiam ser produzidos no Brasil. Para denunciar essa situação, em vários lugares os petroleiros fizeram atos, nesta última quinta (6), vendendo gás de cozinha e gasolina a preços subsidiados (40,00 o botijão). Isto para esclarecer à população que os altos preços se devem à política de preços do governo e que se fossem subsidiados, como foram até 2016, a economia nacional, a começar pela própria população, não seriam prejudicadas.

DCO: A greve dos caminhoneiros e petroleiros em 2018 obrigou Temer a demitir o então presidente da Petrobras, Pedro Parente. No entanto, após manobras aqui e ali o governo manteve a política de indexação de preços ao mercado mundial. É possível reverter as demissões através de uma luta parcial ou a greve dos petroleiros, para ser vitoriosa, necessita da entrada de outras categorias na luta?

Deyvid Bacelar: Reverter as demissões sim. No entanto, as reivindicações dos petroleiros, como a defesa dos empregos, do ACT[Acordo Coletivo de Trabalho] e contra o desmonte da Petrobras, não são apenas da categoria, mas de todo o povo brasileiro. Isso porque estão ligadas à defesa da economia nacional, das estatais e da soberania do país. Neste sentido, a luta é muito mais ampla e necessita que o maior número de categorias e trabalhadores possível se somem a ela contra a desindustrialização, o desmonte das estatais e dos direitos dos trabalhadores.

DCO: A Central Única dos Trabalhadores (CUT), deliberou em seu último congresso nacional, ocorrido no ano passado, que se faça uma mobilização para “derrotar a coalizão de forças golpistas”, na qual propôs “a luta pelo fim do governo Bolsonaro” (e o bloco político que o sustenta). Essa greve dos petroleiros é uma greve contra o governo e a política implementada pelos golpistas a partir de 2016. Qual a possibilidade da greve adotar como pauta a campanha pelo fora Bolsonaro e todos os golpistas?

Deyvid Bacelar: A greve foi iniciada pela suspensão das demissões na Fafen-PR, o cumprimento do ACT 2019-2020, contra o desmonte da Petrobras e a política de preços. Pela própria questão do atendimento à lei de greve, que impõe uma série de limitações, a pauta foi definida desta forma. Ter uma palavra de ordem mais política poderia trazer problemas como a greve ser considerada ilegal. No entanto, ao se colocar em defesa dos empregos, dos direitos dos trabalhadores e contra a desindustrialização provocadas pelo governo, a greve dialoga com um movimento mais amplo e se choca contra o modo de gestão implementado a partir de 2016 com o golpe de Estado e os seus estragos na economia nacional.

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