Contra o genocídio nas escolas
Com mais de mil mortes por dia e a contaminação nas escolas que reabriram, os genocidas querem abrir ainda mais escolas ao invés de fechar. Contra o genocídio, paralisação já!
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Aulas suspensas. | Marcelo Camargo/Agência Brasil.
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Aulas suspensas. | Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Desde a reabertura de escolas para o ensino presencial na cidade de Campinas (SP), no fim de janeiro, pelo menos três escolas privadas e uma pública registraram casos de Covid-19. O caso mais grave foi registrado no colégio Jaime Kratz, onde foram registrados 37 funcionários e cinco alunos contaminados. Demonstrando o caráter genocida do governo do Doria que mandou abrir as escolas, mesmo sendo o estado com maior registro de mortes, por habitante, do país.

De acordo com o jornal O Estado de S Paulo, uma professora do colégio Jaime Kratz está internada, em quadro estável. Após a confirmação da contaminação, as aulas presenciais foram suspensas na segunda-feira (1º) até 18 de fevereiro. A escola que tem cerca de 1,3 mil alunos, estava com aulas presenciais desde 25 de janeiro, com rodízio de 35% dos estudantes por dia. O Colégio Farroupilha, também da rede privada, registrou a contaminação de uma professora e uma aluna, filha da docente, após o retorno ao ensino presencial, em 26 de janeiro. Como prevenção, suspendeu as aulas presenciais na terça-feira, 2, até o dia 14.

Segundo levantamento realizado pelo G1[1], em 14 estados, os governos anunciaram a volta às aulas de forma remota para o mês de fevereiro. A maioria decidiu começar as aulas com ensino remoto, para implementar, gradativamente, o retorno presencial no formato de aulas híbridas, ou seja, parte virtual, parte presencial, com rodízio dos alunos presentes e em atividades remotas. Outros 9 estados e o Distrito Federal programam o retorno das atividades escolares a partir de março, na maioria destes prevê-se o formato híbrido. Apenas o estado da Bahia não informou uma previsão de retorno.

Não é a primeira vez, desde o início da pandemia, que se constata a necessidade de fechar as escolas reabertas. Em novembro de 2020, no Rio de Janeiro, várias cidades reabriram as escolas e tiveram que fechá-las novamente[2], menos de um mês depois, devido ao aumento de casos.

Em 22/07/2020, a Fiocruz publicou nota técnica apontando que: mais de 9 milhões de brasileiros adultos e idosos do grupo de risco da Covid-19 residem com pelo menos uma pessoa em idade escolar e; que em um cenário otimista se 10% dessa população com fatores de risco que vivem com crianças em idade escolar necessitarem de cuidados intensivos, cerca de 900 mil pessoas poderão necessitar de UTI, considerando a taxa de letalidade no país [na época], pode representar 35 mil óbitos somente nessa população. [3]

Por que, então, reabrir as escolas nesse momento, em que continuam morrendo mais de mil pessoas por dia [considerando os dados oficiais, que sabemos serem muito abaixo da realidade]? Para compreender essa situação, precisamos analisar os discursos presentes na defesa da abertura das escolas, resgatar e refletir a própria natureza e finalidade da instituição escolar.

A pediatra e colunista da imprensa burguesa, Ana Escobar afirma que é seguro reabrir as escolas para os alunos, pois “as escolas que já reabriram ao redor do mundo não causaram uma explosão no número de casos, não foi constada essa relação de causa e efeito em lugar nenhum” [4], desconsiderando as condições materiais das escolas públicas brasileiras, que atendem 80% das crianças e adolescentes em idade escolar. Defende ainda que, “é possível afirmar que a transmissibilidade do novo coronavírus é menor entre crianças e que a quantidade de casos que evoluem para estágios graves da doença são raros nessa população”, desconsiderando dados como os da Fiocruz apontados acima.

Outra justificativa muito utilizada para defender a abertura das escolas é de que, a manutenção das escolas fechadas, sem o ensino presencial, não protege as crianças da Covid-19 e as expõe a riscos como desnutrição, violência e dificuldades de aprendizagem. Usando problemas sociais e econômicos anteriores à pandemia para sensibilizar a população a aderirem à discursos que atacam profissionais da educação como se estes não estivessem trabalhando durante a pandemia.

Cabendo aqui reflexão sobre a função social da escola, pois afinal, para que serve a escola? A escola foi criada com o objetivo de instruir as novas gerações com conhecimentos do mundo e da sociedade. Destinada inicialmente à classe burguesa, para que esta detivesse o conhecimento necessário para dirigir a sociedade. Com o desenvolvimento do modo de produção capitalista, além de ensinar os filhos da burguesia, a escola passou a ser responsável por ensinar conhecimentos fundamentais para a formação da classe trabalhadora adequada às necessidades do capital. Com as mudanças provocadas pelo neoliberalismo, a escola continua a adequar os conhecimentos escolares à nova demanda da sociedade. Além de impor para a escola responsabilidades que não são de sua natureza e competência.

A Constituição de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9.394/96), mesmo com a defesa das desigualdades sociais, permitindo as escolas privadas, asseguram a educação como um direito fundamental de todas as crianças do país. Isto é, direito à educação, reafirmando a escola como um lugar de conhecimento, não de assistencialismo. Por isso, a função da escola não é (e não deve ser) a de manter a alimentação das crianças, até mesmo porque apenas a alimentação escolar não garante todas as refeições necessárias à nutrição e desenvolvimento infantil saudável.

Nesse sentido, a escola deve sim oferecer alimentação saudável aos estudantes, no período que lá estão, mas as crianças não devem ir para escola para se alimentar, mas para estudar. Quem deve garantir alimentação saudável e necessária ao desenvolvimento infantil através de outras políticas, como de emprego, é o Estado, pois não são somente as crianças em idade escolar que necessitam e tem direito a uma alimentação de qualidade, mas toda sua família. O Estado tem que garantir é trabalho digno e remuneração adequada à toda classe trabalhadora, para que nenhuma família mande suas crianças pra escola para comer, mas sim, para estudar.

Outro ponto que a imprensa burguesa vem defendendo é a saúde psicológica das crianças e adolescentes. Contudo, a saúde mental de estudantes, professores, e da classe trabalhadora em geral, é decorrente da crise econômica e social provocada pelo capitalismo e que, com a pandemia, a falta de empregos e os desgovernos burgueses e genocidas tanto nos municípios quanto estados e governo federal, ficou ainda mais evidente.

E ainda, o discurso presente nas falas dos governos e imprensa burguesa, estão alinhados no sentido de afirmar, mentirosamente, que professores e servidores públicos não trabalham e não querem trabalhar, colocando as categorias da classe trabalhadora exploradas pelas empresas privadas contra os servidores públicos, com a intenção de provocar, com o imaginário coletivo, um ambiente favorável à reforma administrativa. Assim como fizeram com a reforma trabalhista e da previdência, que atingiu toda a classe trabalhadora e rasgou a CLT, em nome de acabar com privilégios. Sendo que, a classe trabalhadora nunca foi privilegiada, pelo contrário, sempre foi explorada em benefício dos reais privilegiados, os proprietários dos meios de produção. Enquanto aprovavam as reformas trabalhista e previdenciária, perdoavam dívidas bilionárias da burguesia.

Por isso, os estudantes e profissionais da educação só devem retornar presencialmente às escolas quando todos estiverem realmente vacinados, sem as atuais falsas promessas de vacinação que visam impulsionar a candidatura de Doria nas eleições de 2022. Para isto, a classe trabalhadora precisa se unir contra os governos genocidas do Doria e demais governadores, pelo Fora Bolsonaro

[1] https://g1.globo.com/educacao/volta-as-aulas/noticia/2021/02/04/14-estados-definiram-volta-as-aulas-para-fevereiro-ao-menos-com-ensino-remoto-confira-situacao-na-sua-regiao.ghtml

[2] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/11/23/casos-de-covid-19-fazem-rio-fechar-mais-de-100-escolas-em-7-dias-de-atividades-presenciais-diz-sindicato-prefeitura-nega-informacao.ghtml

[3] https://portal.fiocruz.br/sites/portal.fiocruz.br/files/documentos/nota_tecnica_12_monitoracovid19.pdf

[4] https://brasil.elpais.com/brasil/2021-02-02/escolas-reabrem-entre-medo-da-covid-19-e-do-atraso-no-aprendizado-mais-um-ano-sem-aula-e-inaceitavel.html

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