Conheça os 8 mártires de Chicago, que participaram da Greve Geral de 1886 no 1º de maio

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No final do século XIX, nos Estados Unidos da América, estavam ainda bem marcadas na memória do movimento operário as greves dos carpinteiros e dos calafetadores de Boston de 1832, e as greves de 1868 e 1869 que se estenderam pelo país. Assim como a greve de cem mil trabalhadores nova-iorquinos no inverno de 1873–1874 e as grandes greves dos empregados das ferrovias de 1877.

Com essa memória de lutas e conquistas, estabeleceu-se em 1881, a Federação de Agrupamentos do Comércio e Sindicatos de Trabalhadores dos Estados Unidos e Canadá (Federation of Organized Trades and Labor Unions of the United States and Canada (FOTLU)).

“Geralmente, não se considera um crime um intelectual ser um revolucionário, mas se torna um crime se o revolucionário for um pobre.”

(Samuel Fielden)

No mês de outubro de 1884, em Chicago, durante o quarto Congresso da FOTLU, foi deliberada a realização de uma Greve geral, com foco principal na redução da jornada de trabalho para oito horas, sem redução de salário. Foi escolhido o dia 1.° de Maio de 1886 para início da greve.

À medida em que a data proposta ia se aproximando, muitas categorias foram aderindo e muitas cidades efetivamente foram paralisadas. Chicago, por sua vez,conhecida por sua comunidade anarquista, com muitos operários e operárias migrantes da Alemanha não poderia deixar de ser uma referência. Ali, o anarquismo era o movimento socialista mais numeroso e importante, e os anarquistas bem organizados. Por esse motivo, a luta pela jornada de 8 horas adquiriu um significado especial, um confronto direto contra as classes dominantes.

“Se a morte é a pena correspondente à nossa ardente paixão pela liberdade da espécie humana, então, eu digo isso muito alto: disponham de minha vida”.

(Adolf Fisher)

Como em outros lugares nos Estados Unidos, mesmo antes da greve geral, muitos ramos profissionais em Chicago tiveram êxito em alcançar uma jornada de 8 horas (carpinteiros, embaladores, tipógrafos, mecânicos etc), ou, em alguns casos, uma redução da jornada para 10 horas com aumento de salário (açougueiros, padeiros e cervejeiros).

O que parecia ser uma vitória generalizada da classe operária não foi algo pacifico, nem era ainda motivo de celebração geral. A greve geral estava mantida.

Em decorrência da paralisação, em Chicago, no dia 3 de maio, milhares de trabalhadores foram reprimidos quando se dirigiam para a fábrica McCormick, que, naquela greve, usou a mão de obra de fura-greves para evitar a paralisia total. Diante do avanço dos grevistas, agentes da Agencia Pinkerton e forças policiais locais dispersaram com tiros a multidão enraivecida, provocando 6 mortes e várias dezenas de feridos.

Depois da tragédia, setores anarquistas e operários convocaram um comício na Praça Haymarket. Estavam todos muito revoltados pela ação repressiva e pelas as mortes dos trabalhadores, motivo pelo qual, a primeira convocação para o comício apresentava um tom altamente belicoso e incentivava os operários a irem armados, preparados para o que fosse preciso (“Workingmen Arm Yourselves and Appear in Full Force!”).

A versão final da convocação, no entanto, já não era tão raivosa, pois havia entre os organizadores quem não concordasse em dar munição para mais repressão. De forma que o comício reuniu milhares de pessoas, muitas delas acompanhadas dos filhos, uma vez que a convocação adotou um tom de pacificação.

Assim, no dia 4 de maio e 1886, ao entardecer, o comício tem início com o discurso de August Spies, seguido pelos de Albert Parsons e Samuel Fields. Quando o encontro estava prestes a finalizar, com sinais de que iria encerrar sem maiores problemas, o local, fortemente vigiado por forças policiais e por agentes da Pinkerton, tornou-se um campo de guerra.

A força policial decidiu atacar a concentração e dispersar os participantes de forma violenta. Nesse momento, ouviu-se o estrondo de uma bomba, lançada contra a polícia. O policial Mathias J. Degan morreu em consequência da explosão, e muitos outros ficaram feridos.

Em decorrência do desespero após a explosão, com as pessoas correndo desesperadas, fugindo dos disparos da polícia, houve mais mortes e uma enorme quantidade de feridos.

Esse conflito ficou conhecido como a Revolta (ou tragédia) de Haymarket e o(s) autor(es) da explosão jamais foi (foram) identificado(s). Obviamente, a repressão policial não cessou nesse dia, ao contrário, foi intensificada e resultou na detenção de vários anarquistas e líderes operários.

“É a primeira vez que compareço diante de um tribunal americano e nele me acusam de assassino. E por que razão estou aqui? Por que razão me acusam de assassino? Pela mesma razão que tive de abandonar a Alemanha: pela pobreza, pela miséria da classe trabalhadora. Aqui também, nesta república livre, no país mais rico do mundo, há muitos trabalhadores que não tem lugar no banquete da vida e como párias sociais arrastam uma vida miserável. Aqui tenho visto seres humanos buscando algo com o que se alimentar nos montões de lixo das ruas”.

(George Engel)

Isso se explica pelo fato de que, em Chicago, a luta de classes ser muito marcada e os anarquistas serem reconhecidamente lideres operários contra as elites reacionárias da região.

As reivindicações sociais e trabalhistas eram um problema para essas elites e o movimento socialista de caráter anarquista mantinha poderosos meios de propaganda, como as publicações Arbeiter-Zeitung, dirigida por August Spies (escrita em alemão), o  jornal The Alarm, escrita em inglês sob direção de Albert Parsons. Mantinham também várias organizações e grupos, assim como tinham lideranças reconhecidas e muito ativas entre os trabalhadores, tais como William Holmes, Lucy E.Parsons, Sara E. Ames, William Patterson, James D. Taylor entre dezenas e outros. Ou seja, a questão em Chicago era importante porque a luta de classes estava no centro, e era o estopim para a repressão.

Entre os detidos que, posteriormente, foram julgados (isso é um modo de dizer, pois o julgamento foi todo controlado pelos patrões): Albert Parsons, Oscar Neebe, August Spies, Adolf Fischer, Louis Lingg, Michael Schwab, Samuel Fielden e George Engel.

 

August Spies
Albert Parsons
Michael Schwab
Oscar Neebe
Adolf Fischer
George Engel
Louis Lingg
Samuel Fielden

 

 

 

 

 

 

“Ao me dirigir a este tribunal o faço como representante de uma classe frente a uma outra classe inimiga (…). Minha defesa é vossa acusação; meus presumidos crimes são vossa história”

(August Spies)

Fielden, Neebe e Schwab foram condenados à prisão e os demais foram condenados à morte, por meio de enforcamento, o que aconteceu em 11 de novembro de 1887. Louis Lingg suicidou-se algumas horas antes em sua cela.

O julgamento não foi sobre os autores materiais da explosão na praça de Haymarket, mas das ideias que os prisioneiros sustentavam, foi um julgamento contra a classe trabalhadora. Não eram criminosos, morreram como mártires.

 

“Eu repito que sou inimigo da ordem atual, e repito também que a combaterei com todas as minhas forças enquanto ainda tiver fôlego. Declaro outra vez, franca e abertamente, que sou partidário dos meios de força. (…) morro feliz, porque estou seguro de que as centenas de trabalhadores a quem falei recordarão minhas palavras, e quando tivermos sido enforcados, eles farão explodir a bomba. Com esta esperança, digo-lhes: os desprezo, desprezo sua ordem, suas leis, sua força, sua autoridade. Enforquem-me!”.

(Louis Lingg)

 

Ontem, como hoje, seja em Chicago ou em São Paulo, nas Américas, na África, na Europa ou na Ásia, a classe trabalhadora é perseguida e reprimida pela ousadia de se organizar e lutar por condições melhores de trabalho. A burguesia sempre usou o direito para garantir a submissão dos mais pobres, dos trabalhadores, criminalizando a luta de classes e submetendo o trabalho ao Direito, pois o Direito está nas mãos da burguesia. As greves sempre foram um problema para os patrões e o direito tratou delas, desde sempre, como um delito, para justificar a repressão contra os grevistas.

Ontem, como hoje, em memória desses e tantos outros mártires, que morreram por entender que os trabalhadores fazem sua história, desde que não abandonem a organização e a luta, contra a burguesia, contra toda e qualquer exploração do trabalhador, é que devemos considerar todo 1º de Maio um dia de lutas, que somente cessarão quando não existirem mais classes sociais.