Conheça a história de Ignazio La Russa, um dos fascistas italianos envolvidos na extradição de Battisti

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Ignazio Benito Maria La Russa é um dos principais políticos italianos envolvidos na campanha direitista e ilegal pela extradição do ex-ativista Cesare Battisti para a Itália, onde está condenado à prisão perpétua através de um julgamento absolutamente fraudulento. Battisti pode ser enviado para as piores prisões italianas, onde corre real risco de tortura e de assassinato.

Em meio à pressão da direita pela extradição de Battisti, em 2010, La Russa prometeu que, caso ela fosse realizada, ele mesmo iria “torturar Battisti” com suas “próprias mãos”. Na época, ele era dirigente e pertencia à ala direita do partido direitista Povo da Liberdade, cujo presidente era o então primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

Ignazio La Russa ao lado de foto de Mussolini

Foi La Russa quem convenceu Berlusconi a participar do bombardeio imperialista contra a Líbia, em 2011, que devastou o país para que os monopólios capitalistas pudessem sugar todo o petróleo líbio.

Herdou a posição política fascista de seu pai, que foi dirigente regional do Partido Nacional Fascista nos anos 1940, ainda na ditadura de Benito Mussolini. La Russa nasceu em 1947, o que nos faz perguntar se seu segundo nome, Benito, não seria em homenagem ao ditador italiano. Em 2013, La Russa falou que havia “muitas luzes no regime” fascista de Mussolini, um elogio aberto ao fascismo.

Atualmente, La Russa é vice-presidente do Senado italiano e membro do partido Irmãos da Itália, de extrema-direita.

A seguir, leia um relato detalhado da vida do fascista La Russa, escrito em 2010 pelo pesquisador Carlos Lungarzo, autor do livro “Os cenários ocultos do caso Battisti”.

Vida, Façanhas e Milagres de Ignazio La Russa

Se você não sabe quem é Ignazio La Russa, não se envergonhe.  Ele só ficou conhecido fora da Itália por sua perseguição contra o escritor italiano Cesare Battisti, montando um circo que incluiu cenas tais como se acorrentar às grades da Embaixada Brasileira em Roma, e de proferir enfaticamente a frase: “Sei que não é possível, mas eu adoraria torturar Battisti”. Não sabemos se ele disse que “não é possível” porque Battisti está longe, ou porque pegaria mal que o ministro de defesa da Itália torturasse um prisioneiro. Não é, sem dúvida, por medo da lei, porque a Itália não possui uma legislação que considere que a tortura é crime. É o único país da UE nestas condições. Nem a Turquia, autora do genocídio da Armênia e aplicadora de tratos prisionais brutais, admite a tortura do ponto de vista legal.

Fundador da Juventude Neofascista

Ignazio Benito Maria La Russa nasceu em julho de 1947, em Paternò, uma cidade de 50 mil habitantes (em 2009) da Província de Catania, na região da Sicilia. Seu pai foi o influente senador Antonino La Russa, membro do Movimento Social Italiano (MSI), uma agrupação fascista fundada em 1946 pelos grandes amigos de Mussolini (Giorgio Almirante, Pino Romualdi e Manlio Sargenti) e pelo antigo voluntário do falangismo na Guerra Civil Espanhola, Arturo Michelini.

A criação do MSI foi permitida porque os aliados Ocidentais que libertaram a Itália, não empreenderam uma tarefa de neutralização do fascismo, como foi feita, pelo menos parcialmente, no caso do nazismo. Os Estados Unidos, conscientes de que a experiência dos fascistas seria importante para sua implantação da Operação Gládio (uma operação sistemática de terrorismo de estado destinada a aniquilar a esquerda em todos seus estilos) limitaram-se a proibir ações fascistas deste tipo: tentar restaurar a ditadura explícita no estilo de Mussolini, ameaçar outros países da Europa Ocidental, mostrar falta de cooperação com NATO, e fazer propaganda ostensiva do nazismo alemão (o que poderia irritar os países vítimas do Holocausto). Entretanto, um partido com os mesmos princípios que o Partito Nazionale Fascista seria permitido, desde que respeitasse essas limitações. Inclusive, a propaganda do Fascio (mas não do Terceiro Reich) foi permitida. O MSI convocava atos em locais públicos e especialmente em Igrejas, onde se desfraldavam bandeiras com a águia fascista e a cruz céltica, e se fazia a saudação romana. No entanto, quando os encontros eram mais solenes, como alguns enterros, e a visibilidade menor, também se exibiam algumas suásticas.

MSI foi exatamente isso: o antigo partido fascista sem pretensões de domínio na Europa. O MSI aliou-se em 1994 com outro partido neofascista, a Destra Nazionale, e finalmente se dissolveu em 1995, após 49 anos de sucessos, deixando passo a uma nova e mais eficiente direita neofascista: Alleanza Nazionale. Ignazio, que na época tinha já grande experiência parlamentar como representante de diversas coalizões fascistas, foi um dos fundadores.

Duas décadas antes, em 1972, La Russa fez parte do grupo que criou o Frente da Juventude, o braço juvenil do MSI, que era tanto um grupo político para que os calouros do fascismo fizessem suas primeiras experiências, como uma esquadra de choque para atacar esquerdistas ou simpatizantes, tanto individualmente, nas ruas e passeatas, como massivamente, em seus locais, atos e encontros.

Nesse mesmo ano, Marco Bellocchio rodou um filme sobre o jornalismo fascista na Itália, chamado Esmaga o Monstro na Primeira Página. A abertura inclui segmentos de um documentário real, onde aparece um comício em Milão da organização anticomunista de extrema direita Maioria Silenciosa. O orador daquele comício é o futuro ministro Ignazio La Russa, que na época estava com 24 ou 25 anos.

Mas, foi em abril de 1973, quando o Frente da Juventude teve sua mais árdua tarefa. Participar de uma passeata do MSI, no dia 12, quando todos os fascistas de Milão se juntariam para fazer uma megaprovocação, da qual culpariam os comunistas.

O fato é antecedido por um frustrado ataque fascista 5 dias antes. Nico Giuseppe Azzi (1951-2007) tentou fazer explodir o trem do circuito Turim-Roma com uma expressiva carga de TNT. Primeiro, passou por vários vagões do comboio, mostrando ostensivamente exemplares da revista do movimento de esquerda independente Luta Contínua, chamando a atenção de vários passageiros. Quando quase todos tinham visto aquele jovem alardeando de sua ideologia, Nico se fechou no banheiro para preparar a detonação da carga de TNT. Para sorte dos passageiros e desgraça sua, o detonante (um pequeno explosivo que deflagra a explosão maior) explodiu em sua mão. Mesmo de baixo impacto, o estouro deixou em seu corpo várias feridas.

Apesar da falha no atentado, o projeto fascista seguia os passos habituais. Aquele grande atentado de Piazza Fontana, também em Milão, tinha sido atribuído aos anarquistas em 1969. Este falho ataque de 1973 seria atribuído a Luta Contínua, já que os passageiros tinham visto aqueles jornais e ninguém reconheceria Nico como fascista, já que ele era um total desconhecido. Tampouco existia o risco de ser denunciado, porque polícia e justiça eram coniventes. Então, o ato de 12 de abril, mostraria a decisão dos fascistas de salvar seu país e as tradições nacionalistas e católicas, e repudiar os comunistas e outros esquerdistas.

Todos os grupos em ação, e especialmente o Frente da Juventude, dirigido na região norte por La Russa, protestavam contra a “violência marxista”. O prefeito de Milão proibiu todas as passeatas (de esquerda e de direita) para evitar o confronto, sob as protestas dos dirigentes fascistas, entre os quais estava o Ignazio.  Apesar do veto, os fascistas lançaram a primeira bomba, ferindo um agente e um transeunte. Logo, nova explosão matou o agente Antonio Marino. Além disso, destruíram, entre outros edifícios, a Casa do Estudante e uma Escola, ambas dirigidas por grupos de esquerda. (Vide)

Este fato tem continuação histórica com outro, ocorrido 34 anos depois. Nico Azzi sobreviveu a suas feridas, porém morreu de um ataque ao coração em 2007, sendo velado na linda igreja de Santo Ambrogio, em Milão. O fúnebre ritual teve muitos assistentes, entre os quais destacavam os skin heads, que escoltavam o caixão portando bandeiras fascistas, e o feixe (fascio) típico do movimento, do qual deriva justamente seu nome. Mas, convidados de honra mesmo foram o ministro Ignazio La Russa, junto com seu irmão Romano, que é parlamentar Europeu. Por sinal, este é um assunto para ser pensado pelos que acreditam que a União Europeia é um paraíso de democracia e justiça. Contudo, para sermos sinceros, devemos reconhecer que os fascistas no Parlamento Europeu não passam de 20%, se tanto. (Vide)

Os “Fratelli” do Signore Ministro

Falando em terroristas de grande porte, o ministro tem amigos que não são boas companhias. Um deles, camarada desde a juventude, é Giancarlo Rognoni, envolvido no primeiro grande superatentado, no Banco Agrícola de Milão, em Piazza Fontana (marcando, em 1969, a abertura dos atos ultraterroristas). Giancarlo foi condenado em primeira instância, mas absolvido por tribunais superiores, cheios de juízes fascistas. La Russa esteve, segundo muitas versões, entre os que ajudaram ele a livrar a cara.

Ora, quem afirma isto? Os membros da esquerda alternativa, subversivos e violentos? Não. Os antigos comunistas, moderados e conciliadores, porém “envenenados” pelo espírito marxista? Também não. Aliás, eles denunciam esta amizade, sim, mas não apenas eles. O principal denunciante é nada menos que Vincenzo Vinciguerra, um célebre superterrorista e o único fascista que cumpre prisão. Se ficasse alguma dúvida, veja uma matéria escrita em vivo e a cores pelo mesmo Vincenzo (em espanhol), intitulada Os Reincidentes. (Vide)

Alguns pensam que Vinciguerra está resentido porque é o único que está preso, mas esta conjetura pode beirar o preconceito. Os fascistas têm convicções violentas e desumanas, mas muitos deles realmente acreditam em seus nocivos princípios. Vinciguerra demonstrou várias vezes ser um fascista honesto, ou seja, alguém que não quer tirar vantagem, mas que se orgulha de sua ideologia de ódio, e é capaz de sacrificar-se por ela. Talvez seja por isso que não foi liberado. Ele não tentou colocar a culpa na esquerda, orgulhou-se de seus crimes, e declarou que não queria ser utilizado pelos oportunistas que colaboram com os Estados Unidos. Isso não o torna, obviamente, melhor que os outros!

O Jogo das Cruzes

Todo mundo sabe que os nazistas tornaram tristemente célebre a cruz suástica, um símbolo indostânico que não representava nada de ruim, muito pelo contrário. Em sânscrito, a palavra deriva de su asti, que juntos significam algo como “amuleto da sorte”, horrível contraste com a imagem dos 20 milhões de vítimas do nazismo.

O atual uso da Cruz Malta já está mais próximo de seu significado inicial, pois sempre esteve associado com intolerância, crueldade e barbárie. Deriva das cruzes dos Cruzados, que a sua vez a tomaram de outros cavalheiros cristãos, e foi usada pelos fascistas de todo o mundo, mas também pelos exércitos não fascistas nas condecorações militares.

O Ministro La Russa é também chegado a uma cruz. Um exemplo é sua defesa da presença de crucifixos nos locais públicos da Itália, recentemente condenada pela Corte Europeia de Direitos Humanos.

[NOTA: Sobre a exposição de símbolos religiosos pode existir, algumas vezes, uma tênue divergência até dentro das grandes OGNS de DH. Por exemplo, o pesquisador de Anistia Internacional para assuntos islâmicos se pronunciou contra a proibição de burca na França. Nossas coincidências são absolutas em assuntos básicos, como tortura, genocídio, racismo, pena de morte, aborto, escolha sexual, etc., mas pode divergir em pontos menores. Faço questão de salientar que minha posição neste escrito é puramente pessoal.]

Em novembro de 2009, a Corte Europeia de DH instou a Itália a tirar os crucifixos das escolas públicas. Estes crucifixos não são simples cruzes, que podem ter um significado cultural e estético, mas são réplicas de cruz católica, com a figura de Cristo submetido à tortura da morte lenta. É bom salientar que a maioria das grandes correntes cristãs repudia a representação completa da morte de Jesus, considerando-a uma idolatria e um espetáculo constrangedor. A Corte alegou que essa proclama pública de tendência religiosa num país teoricamente secular violava o direito de consciência para as crianças que não eram católicas.

Como era natural, a medida provocou a histeria de padres, bispos e carolas de todo gênero e idade, que se referiram ao juiz de Estrasburgo como “porco muçulmano”. Por sinal, esta reação dificulta entender como os católicos reclamam “tolerância religiosa”.

Nos representantes da Igreja era natural esperar esse tipo de atitude, mas não num representante de um poder público, como o Ministro La Russa. Afinal, apesar da cultura fascista, mafiosa e teocrática que infesta Itália, esta teve também o maior movimento humanista e uma das maiores esquerdas do planeta. La Russa não tratou de “porcos” aos juízes; apenas lhes desejou a morte. Esqueceu dizer, se a morte devia ser na santa paz do Senhor. Literalmente:

Todas as cruzes ficarão penduradas, e os opositores da cruz que morram. Podem morrer, podem morrer, eles junto com esses órgãos internacionais mentirosos, que não valem nada!” [Grifo meu] (Vide e também).

Uma reflexão para os inimigos do direito de asilo. Dizem que a União Européia apoia Itália no caso Battisti. Será que as relações entre ambas são tão boas como para isso?

Os “Heróis” do Fascismo

Um ano antes da defesa do crucifixo, La Russa tinha manifestado sua vocação pelo fascismo e pelo obscurantismo de maneira ainda mais categórica. Fechamos nosso artigo com este último feito de nosso ministro.

Em setembro de 2008, num ato público em que estava o presidente Napolitano, ex-comunista e membro da Resistência antifascista durante a Segunda Guerra, La Russa defendeu os soldados fascistas que tentaram impedir a entrada das forças canadenses, americanas e britânicas, que, quaisquer que fossem seus interesses últimos, naquele momento estavam libertando o povo italiano da ditadura de Mussolini. La Russa disse que:

“[Os militares fascistas] combateram acreditando na defesa da pátria, opondo-se aos anglo-americanos e merecendo respeito”. (Vide isto1, isto2 e isto2)

Além de enaltecer o fascismo, o ministro esqueceu que grande parte da população italiana, incluindo um grupo de católicos alternativos, também apoiou a libertação do país. Aliás, percebo uma falta de gratidão. O que teriam feito todos os terroristas de estado nos anos 60, 70, 80, etc., sem o apoio dos americanos?

Bom, esta é uma breve saga, muito resumida do homem que se perfila como o maior inimigo de Cesare Battisti.