“Confissão” de Battisti: entenda o caso e as torturas sofridas na “democracia” italiana

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A grande imprensa burguesa e a extrema-direita nacional e internacional se regozijaram no início dessa semana com a divulgação pela imprensa italiana de que o militante de esquerda italiano, Cesare Battisti havia admitido ao procurador Alberto Nobili a responsabilidade pelo assassinato de quatro militantes da extrema-direita italiana entre o final dos anos 1970 e início dos 1980.

Até mesmo a esquerda pequeno-burguesa apressou-se em declarar que, caso Battisti tivesse confessado a culpa pelos crimes quando estava no Brasil, teria sido extraditado, como declarou Tarso Genro, ministro da Justiça de Lula no período em que o presidente concedeu asilo político a Battisti.

Quando se trata da direita e da extrema-direita e da sua imprensa não se poderia esperar, obviamente, nenhum tipo de consideração sobre as condições em que Battisti supostamente teria admitido a responsabilidade pelos assassinatos, a não ser a exploração do ato como “terrorismo” com o objetivo de atacar a própria esquerda.

O problema é quando a própria esquerda veste a carapuça moral da direita e sai condenando Battisti sem mesmo levar em consideração as condições em que se deram a suposta confissão.

Entregue ao governo de extrema-direita italiano pelo presidente boliviano, Evo Morales, no início de janeiro desse ano e levado como um troféu pela polícia daquele pais, Battisti foi confinado em uma prisão italiana, em regime de isolamento. Finalmente, depois de mais de dois meses de isolamento, aquilo que negou por mais de 40 anos foi admitido em apenas nove horas de depoimento a um procurador italiano.

Não precisa ser nenhum especialista na justiça italiana para compreender que caso tenha admitido de fato os crimes, isso de deu mediante pressão, chantagem e mesmo tortura.

A Itália é reconhecida por ter mantido toda uma estrutura fascista, principalmente no judiciário, depois da 2ª Guerra Mundial. Até recentemente, existia um programa oficial e legal de tortura dos presos, especialmente dos presos políticos.

O sistema de tortura 41-bis foi estabelecido nos “anos de chumbo” do regime de extrema-direita italiano, na década de 1970.

Nesse sistema, o detento fica em regime de solitária, sem contato com nenhum ser humano e não pode ter qualquer objeto de leitura ou de comunicação, como livros, jornais e rádio. Isso configura tortura psicológica, levando o preso inclusive a ficar louco.

Portanto, não é de se admirar que diante da fragilidade em que se encontrava, e ainda mediante a todo tipo de chantagem e coação, Battisti tenha “reconhecido”, o que não reconheceu durante quase 40 anos e para o que não existem evidências matérias de sua responsabilidade.

Um outro aspecto do caso Battisti que chama a atenção é que ele é tratado pelo governo de extrema-direita italiano, pelas “democracias” mundiais e mesmo por setores da esquerda, como terrorista. De um ponto de vista da luta política, essa posição não guarda nenhuma verdade, mesmo numa concepção burguesa.

Por essa ótica, a resistência francesa que combateu o nazismo, os partisans italianos que combateram o fascismo e assassinaram Mussolini ou ainda os militantes que lutaram com armas contra a ditadura no Brasil deveriam assim, todos, serem considerados como terroristas.

Battisti e vários setores da esquerda italiana combateram governos fascistas. O assassinato de quatro pessoas que são imputados a Battisti, foram de elementos da extrema-direita, que faziam parte de milícias fascistas apoiadas pelo Estado, promovendo atentados contra a esquerda e as organizações dos trabalhadores.

O falso moralismo pregado pela direita deve ser amplamente repudiado pelos trabalhadores e suas organizações. É uma questão fundamental de solidariedade de classe defender Battisti e os métodos de luta históricos contra os fascistas acobertados por governos supostamente “democráticos”.