Riqueza imaginária
Riquezas criadas pelas Bolsas de Valores são voláteis e podem desaparecer rápido, mais um sinal da crise capitalista
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Tesla_Roadster
Carro enviado ao espaço em campanha publicitária da Tesla em 2018 | Foto: Reprodução

O noticiário empresarial da semana passada estampou em toda imprensa burguesa que Elon Musk havia se tornado o homem mais rico do mundo, depois de uma alta de 4,8% nas ações da empresa Tesla, onde tem uma participação de 18%. Com isso, seu patrimônio alcançou US$188,5 bilhões de dólares, o que equivale a aproximadamente R$1,01 trilhão de reais. Com isso teria passado a frente de Jeff Bezos, presidente da Amazon, empresa norte-americana de comércio eletrônico e serviços de internet.

Elon Musk é um capitalista aventureiro nascido na África do Sul e depois naturalizado canadense e em seguida norte-americano. Ele iniciou sua carreira empresarial criando uma empresa de desenvolvimento de portais de notícias na internet, que conseguiu vender por US$307 milhões de dólares em 1999. Nesse mesmo ano criou uma empresa de pagamentos de serviços financeiros, que depois se uniu a outras formando a PayPal, empresa líder hoje em pagamentos pela internet. Sua participação foi vendida em 2002 para a eBay, quando recebeu mais US$165 milhões de dólares.

Nesse ano ele criou, com US$100 milhões de dólares a Space X, uma empresa de tecnologia espacial, que até hoje desenvolve veículos de lançamento espacial e foguetes em conjunto com a NASA. Em 2003, se associou a empresa Tesla, fabricante de baterias de armazenamento de energia para automóveis e carros elétricos. Atualmente é seu diretor presidente. Em 2019 a Tesla ultrapassou a General Motors em valor de mercado e se tornou a montadora mais valiosa dos EUA, apesar de ter poucos modelos no mercado e representar uma fração pequena desse mercado naquele país.

O segredo dessa riqueza toda é o caráter do capitalismo hoje em dia. Sua fortuna é baseada no valor de ações que estão em negociação em Bolsa de Valores, que por sua vez é definida por uma série de elementos imaginários e reais que se misturam para fazer com que uma ação seja muito procurada (comprada) e tenha seu valor aumentado principalmente por conta da expectativa de lucro que ela própria aparenta ter.

O imaginário, neste caso, não é só uma invenção ou uma criação fantasiosa, é um elemento muito forte em nossa sociedade contemporânea, que assume a mesma concretude das demais mercadorias com um valor de troca aumentado pela expectativa que se tem dos benefícios que esse produto imaginário e conceitual poderá trazer.

Com isso, ele conseguiu atrair investidores e bilhões de dólares para seus dois empreendimentos atuais, a conquista do espaço e a conquista do mercado de automóveis.

Mesmo as duas principais empresas dando prejuízos até hoje, continuam valorizadas na bolsa e atraindo mais e mais investidores. É esse fluxo de entrada de novos investidores que garante a rentabilidade das empresas e as faz parecer que são empresas lucrativas e sempre serão.

Brasil teve sua primeira bolha financeira no século XIX

Não é um fenômeno novo. No Brasil, Ruy Barbosa, ministro da Fazenda da recém fundada República brasileira, criou um sistema de estímulo à industrialização baseado em créditos crescentes garantidos pelo Tesouro Nacional a partir da emissão de mais moeda. Criou-se um processo de grande especulação a partir da instituição de empresas fictícias e criação de empresas de crédito sem lastro. Isso foi possível porque havia um ambiente favorável à criação dessas expectativas desde o final do Segundo Império com o aquecimento da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1886 e a regulamentação da Lei Bancária de 1888, com três bancos que tinham sido autorizados a emitir moeda, Banco Nacional do Brasil, Banco de São Paulo e Banco do Comércio. Essa foi a primeira bolha do País. Em poucos anos fortunas foram criadas e destruídas em poucos dias em 1890 e 1891.

Nos Estados Unidos da América algo muito semelhante ocorreu em 1929, com pessoas ganhando fortunas na Bolsa, que entraram em colapso na quebra da Bolsa de Nova Iorque em 24 de outubro de 1929.

Mesmo com todas as regulamentações que foram criadas ao longo dos anos, muitas crises financeiras no século XX e a de 2007 foram iniciadas também por movimentos especulativos que faziam as pessoas crerem que o imaginário de títulos e empréstimos era tão real quanto um tijolo arremessado contra a testa de um incauto.

De qualquer sorte, o imaginário e a fantasia só se tornam mercadoria no capitalismo quando se fundem com algum aspecto da realidade e convencem pessoas que isso tem algum valor. As empresas de Elon Musk têm essa característica.

A Tesla foi criada apostando em algo muito verdadeiro que é a falência da indústria montadora de automóveis baseada em motores de combustão interna à base de combustíveis fósseis. Algo que já se previa desde os anos 1970, com a primeira crise do petróleo. Nas décadas seguintes, a aposta era quando seria produzida a última gota de petróleo. Mas isso talvez nunca ocorra, a escassez de petróleo foi substituída pela volatilidade de seus preços, pelas guerras constantes e necessárias para a manutenção do poderio dos EUA no controle das fontes de petróleo, e finalmente por conta dos efeitos negativos da queima de combustíveis fósseis no clima do planeta.

A outra empresa se baseia na convicção de que o planeta está fadado a perecer por conta dos efeitos negativos do capitalismo e, por isso, o capitalismo tem que se instalar em outros planetas para continuar sobrevivendo, já que ninguém pode acreditar que outro sistema possa existir. Essa é a crença que o capital tem conseguido instalar com hegemonia no mundo. Até mesmo parte das esquerdas agem assim e defendem isso, assim como os revisionistas franceses e alemães no interior da Segunda Internacional das duas primeiras décadas do século XX.

Para completar o tripé fundador da nova concepção de sobrevivência e desenvolvimento do capitalismo, a massa que une os tijolos de Elon Musk é a inteligência artificial. Ele prega que é possível desenvolverem-se produtos e sistemas autômatos baseados em Inteligência artificial boa, aquela que não irá destruir o planeta e declarar como desnecessários os humanos. A inteligência artificial é outro ramo do mercado capitalista que está mobilizando fortunas e gerando outras poucas nas disputas por mercado entre os imperialistas.

Mesmo vendendo poucos automóveis, a liderança da Tesla, no mercado de ações e financeiro, é resultado da falência do modelo monopolista criado ao longo das últimas décadas do século passado. As dezenas de marcas de veículos hoje estão unidas em arranjos comerciais e empresariais que fazem com que exista, em realidade, não mais que cinco empresas mundiais de automóveis. O ponto fora da curva são as empresas regionais indianas e as empresas nacionais chinesas. Incorporando esses dois mercados nacionais o número de empresas de grande porte sobre para algo como doze ou treze empresas mundiais responsáveis pela produção e comercialização de quase 100 milhões de automóveis por ano.

A Tesla além de apostar no mercado de veículos elétricos e controlados por inteligência artificial – mercado em que a Google e a Amazon também despontam – ela tem associação com várias montadoras para o fornecimento de baterias de lítio. É bom sempre lembrar que o golpe de novembro de 2019 na Bolívia, que depôs Evo Morales, foi financiado pelo Elon Musk e associados, justamente para manter o controle sobre o lítio produzido naquele país. Algo parecido com o que acontece em vários países da África, onde as guerras “tribais” financiadas e mantidas pela Apple, Samsung e outras empresas garantem o fornecimento de grande parte das “terras raras” e outros metais necessários para a produção de celulares e computadores.

O exemplo de Elon Musk é muito interessante para mostrar como se originam algumas fortunas contemporâneas e para mostrar o quão frágeis sãos os alicerces dessas fortunas. Grande parte delas contabilizada somente com resultados de pregões das bolsas de valores. Fortunas criadas e que podem desaparecer como se fossem resultado de algum passe de mágica.

Essa é a mágica do capitalismo em sua fase decadente e de crise permanente. Transforma em riqueza mercadorias criadas pelo imaginário e pelas expectativas futuras. O grande truque ilusionista dessa mágica é fazer com que as pessoas acreditem que não há como superar o sistema de exploração capitalista.

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