Um ano de pandemia
A guerra eleitoral entre os setores da burguesia causaram a morte de centenas de milhares

Por: Redação do Diário Causa Operária

João Jorge Pimenta

João Jorge Pimenta

Estudante de Letras. Militante do Partido da Causa Operária e da Aliança da Juventude Revolucionária. Colunista do Diário.

Faz mais de um ano do paciente zero da Covid-19 no Brasil. Nestes 12 meses vimos Bolsonaro e a direita tradicional fazerem um teatro: Doria, a imprensa golpista e os partidos golpistas acusaram Bolsonaro de não fazer nada contra a pandemia, de ser contra a ciência, e se colocaram como aqueles que estão preocupados em seguir as medidas sanitárias. Bolsonaro, por sua vez, passou um ano acusando os governos estaduais de jogar o povo na miséria com restrições de mobilidade e atividade econômica.

A esquerda pequeno-burguesa, incrivelmente limitada na análise política, decidiu que Doria estava certo e decidiu se juntar ao coro.

A classe média foi à loucura. A ala mais civilizada passou seis meses gritando “fique em casa” para pessoas pobres, pedreiros, lixeiros, metalúrgicos, que não tinham direito ao home-office, nunca pararam de trabalhar, ou só pararam quando foram demitidos. Falaram isso para pessoas que praticamente não tinham casa, que moram em barracos, a cena era grotesca. Muitas mulheres humildes perderam todos os serviços de empregada doméstica, afinal a madame queria que todo mundo ficasse em casa. No entanto, para ficar em casa, que realmente seria necessário para diminuir o contágio, seria preciso casa, comida na dispensa, aluguel e contas pagas, e isso ninguém deu.

A classe média bolsonarista por sua vez surtou também, decidiu que não tinha vírus, que as UTIs estavam vazias, e ficavam na torcida para retornar a atividade econômica.

Talvez essa divisão de civilizada e bolsonarista seja errada. O correto é: a classe média com home-office falava “fique em casa”, a classe média que estava falindo dizia que “não tinha vírus”. Ninguém, no entanto, fazia nada que resolvesse a situação, era só torcida para os atores da peça de teatro, simbolizado por Doria e Bolsonaro.

A realidade, no entanto, se impõe. O governador de São Paulo decidiu iniciar uma quarentena. A coisa parecia uma quarentena por um mês, talvez um mês e meio e, mesmo no melhor momento, apenas 59% das pessoas teriam ficado em casa de acordo com o governo. Um detalhe deste número: os 59% só aconteciam de domingo, em dia útil a coisa girava em torno de 48 e 49 por cento.

A fraude aumenta, no dia 13 de março de 2020, antes de fechar comércio e outras coisas similares, o isolamento era de 28%. Dia 13 era dia útil, isso mostra que naturalmente, ou com muito pouco esforço, 28% da população já ficava em casa. Até maio os índices giravam em torno de 50% em dia de semana. Depois vão tender aos 40%. Uma variação entre o período maior de quarentena de aproximadamente 10%. Não é muito pois não havia um real isolamento social.

Os fins de semana é que são curiosos. No auge da propaganda do “fique em casa”, o isolamento era de 59% aos fins de semana, isso significa que sem nenhum comércio, restaurante, bar ou evento, 41% dos paulistas saíram de casa. 

No pior momento de circulação de pessoas, meados de dezembro de 2020, o fim de semana chegou a ter 45% de isolamento social. A diferença do pior momento para o melhor é de 14 pontos no domingo. 

A conclusão tirada é simples: a população fez o que pode sem ajuda nenhuma do governo. Enquanto os governos fizeram propaganda para ficar em casa, ficaram em casa quando não precisavam trabalhar, pois durante a semana, tem que ganhar o pão de cada dia.

Depois pararam de levar a coisa a sério. Como podemos ver, o Covid-19 tem que ser levado a sério, o governo Doria, não.

A política do governo para promover o isolamento foi lamentável, muito marketing e pouca política. No melhor momento conseguiram 20% mais do que o natural.

Não é complexo entender por que isso. Doria autorizou que as fábricas trabalhassem durante todo o período. Nenhum grande industrial ficou proibido de ganhar dinheiro. O transporte metropolitano de São Paulo, um carrasco do povo na questão da Covid-19, andou lotado o ano inteiro.

O governador não só não colocou mais trens no metrô e aumentou o pessoal, ele demitiu 100 metroviários numa tacada só, como denuncia o sindicato.

O cúmplice de Doria na prefeitura da capital paulista, Bruno Covas, cortou salários de motoristas de ônibus, num programa idealizado por Bolsonaro e reduziu a frota de ônibus na cidade! 

A imprensa burguesa, cínica, disse que a redução da frota era para combater o vírus. O cidadão comum sabe o que significa a redução da frota: menos ônibus, ônibus mais lotados. Isolamento social é uma boa propaganda, mas é péssimo para os negócios dos colegas donos das empresas de transporte.

Doria torturou os pequenos comerciantes enquanto pôde. Pessoas que têm uma loja familiar, um comércio de bairro, pessoas comuns foram obrigadas a pagar com suas economias, muitos faliram, pela falta total de bom senso do governo. Os grandes capitalistas, mesmo os do varejo, perderam mas não tanto.

As redes varejistas têm reservas de capital, podendo aguentar uma crise, as redes de restaurantes têm vantagem nas plataformas de delivery, têm marca mais conhecida e tiveram perda menor de serviço. Muitos grandes varejistas têm lojas online bastante visitadas, então não ficaram no sereno. Mas também não precisaram. O Banco Central foi caridoso o suficiente para injetar 1,2 trilhão no mercado financeiro. Solidariedade de banqueiro, dar o dinheiro do pobre para os super-ricos. Eles nem vão precisar devolver.

O governo federal fez uma versão dessas para o pequeno comércio, era mais humilde, ao invés de 1,2 trilhão deram míseros 15,9 bilhões! Tem uma pequena pegadinha, o trilhão foi dado, a esmola para o pequeno comércio tem que ser devolvida em 36 prestações.

Os mais pobres do País, que não tinham emprego, alguns nem tinham o que comer, receberam o auxílio emergencial, num valor menor que um salário mínimo. O valor gasto para impedir que a fome fosse instaurada foi da ordem de 300 bilhões de reais, 25% do bolsa-banqueiro.

Depois de 3 meses de quarentena mais rígida, os grandes capitalistas, temendo uma crise financeira de demanda, exigiram uma abertura. O PSDB então abriu São Paulo. O teatro estava ficando caro.

O balanço financeiro da Covid-19 é: 8,9 milhões de novos desempregados, mais de 700 mil pequenas empresas fechadas, 50% das paralisadas pela pandemia. A Bovespa, Bolsa de Valores de São Paulo, terminou o ano batendo máximas de valor. A burguesia aproveitou a crise para assaltar o erário público

Em vidas, a situação é ainda pior. Mais de 220 mil pessoas morreram em 2020. O governador João Doria fez muita propaganda de que ele havia conseguido a vacina Coronavac. A revista Istoé deu até capa do governador segurando vacinas, numa peça publicitária lamentável.

Doria e a Istoé se esqueceram de avisar que ela é pouco eficaz, a mais baixa aprovada no mundo. Deixaram de fora o preço, o dobro da vacina russa ou da AstraZeneca, e outros detalhes cruciais: como ela tem quase metade da eficácia de outras vacinas, precisa vacinar o dobro de pessoas para obter o mesmo resultado.

Vladmir Putin, cujo país inventou uma vacina, planeja vacinar 70% da população e especialistas dizem que isso seria uma suficiente cobertura vacinal para quebrar a espinha dorsal da pandemia. A vacina Russa é metade do preço da de João Doria e tem quase o dobro da eficácia, 91,7%.

O Estadão, fiel apoiador de Doria, foi obrigado a dar a vergonhosa manchete  “Com eficácia da Coronavac, Brasil precisa vacinar 99% do público-alvo para ter imunidade coletiva”. É, 2021 vai ser pior.

Infelizmente isso não foi tudo do desastre da vacina. Com um mês e meio de campanha de vacinação, apenas 1,2 milhão de pessoas foram vacinadas com as duas doses necessárias. 0,6% da população. Neste ritmo, a vacinação precisaria correr, numa conta muito amadora, por mais 300 meses, ou 50 anos, para terminarmos. Doria anunciou uma vacina que não tinha e não funcionava da maneira que precisamos que funciona.

A segunda onda é simbólica de toda a pandemia. Com um ano de pandemia, a doença chegou e atacar duramente o interior do Brasil, muito menos equipado que as capitais para esta luta. No interior de SP, as cidades são duramente afetadas. Sumaré tem 100% dos leitos ocupados, Presidente Prudente tem 91%. Em Araraquara, a lotação chegou a 100% e tem fila de espera por leitos de UTI.

Quase 20 mil pessoas morreram de novembro até agora no Estado de São Paulo. Em escala nacional, o país está há um mês, com média móvel de mortes acima de 1000 pessoas. São 30 mil pessoas mortas em 30 dias. A segunda onda é muito pior que a primeira.

O colapso chegou, e ninguém fala em fechar nada. Doria propôs um toque de recolher, entre 11 da noite e 5 da manhã. É uma piada. Para terminar a piada ele estabeleceu que as aulas presenciais continuarão. Nas escolas administradas por ele, mais de 800 pessoas ficaram doentes, e, pelo menos, uma professora morta. Depois de muito discurso de defesa da ciência, Doria mostra que não tem divergências com Bolsonaro na questão da matança.

As soluções têm que ser práticas neste momento crítico. A propaganda e o toque de recolher durante a madrugada não resolvem, também não adianta fechar o comércio e não ajudá-lo a não falir. Fazer o povo escolher entre ficar doente e colocar comida na mesa é doentio. Não adianta falar para ficar em casa sem dar condições para a pessoa fazer isso, nem adianta falar para tomar uma vacina que simplesmente não está disponível. 

Outros países, mais pobres que nós, como os russos, fizeram menos propaganda e agiram mais. Na Rússia fizeram uma quarentena geral de um mês, onde o governo pagou os salários de todos para garantir a paralisação de toda a atividade não essencial e agora já estão à todo vapor na vacinação. Venezuela fez coisas similares.

Doria e Bolsonaro fizeram muito discurso, muita demagogia, e muita politicagem. Com isso mataram 250 mil pessoas.

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