Tudo por uma eleição
Sob cínica desculpa, setores de esquerda auxiliam a implementação da integralidade da política repressiva da extrema-direita
Brasília: Senadores comemoram a aprovação, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, do projeto de lei (PLS 166/2018) que altera o Código de Processo Penal para disciplinar a prisão após a condenação em segunda instância. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
foto arquivo DCO |

Com o apoio inusitado de representantes parlamentares da esquerda nacional, o chamado “pacote anti-crime”, aprovado na Câmara no último dia 04, uma espécie de reformulação para a situação presente do Ato Institucional número 2, outorgado pelos militares em 1967, vai tornando-se, de maneira completa, uma realidade, ainda que por caminhos diversos.

Setores da esquerda, como o parlamentar do Psol, Marcelo Freixo, não somente votaram a favor como comemoraram a aprovação do pacote repressivo, com a desculpa de que com as aparas realizadas na Câmara, que excluíam algumas propostas do projeto original, a aprovação seria uma vitória do movimento popular contra a extrema-direita. 

Trata-se, evidentemente, de uma farsa, não houve nenhuma vitória popular. O que existiu foi a capitulação da esquerda perante a extrema-direita. O que estes setores de esquerda realizaram na verdade foi  um importante auxílio para efetivação da política repressiva e ditatorial da extrema-direita contra o povo.

Porém, nem mesmo a desculpa de que as aparas realizada nos “excessos”, como se o projeto em si e por si não fosse excessivo e ditatorial, significaram uma derrota para extrema-direita, pode ser sustentado.

Aquilo que pretensamente os esquerdistas procuraram cortar, reagrupa-se de outras formas ao regime político. A prisão em segunda instância, cortado na versão aprovada com apoio da esquerda, foi aprovado pelo CCJ do Senado Federal (em 10/12) através do PL do Senador Lasier Martins e seguirá para votação no Plenário da casa. 

O mesmo CCJ, de maioria de extrema-direita, e no mesmo dia, aprovou a toque de caixa o projeto apoiado pelos representantes da esquerda sem alteração alguma, o que mostra que o projeto, apoiado por essa esquerda serve  a absolutamente a extrema direita. 

Tal como em 1967, a mudança na legislação penal, proposta por Sérgio Moro e Alexandre de Morais, dois representantes da extrema-direita, sob a alcunha de projeto anti-crime, visa o aumento da repressão do regime golpista contra seus opositores e o povo em geral. A comparação não exagerada, também o pacote anti-crime de Sergio Moro produz uma transformação profunda do regime político na medida em que elimina direitos democráticos fundamentais previstos na Constituição vigente, é a transformação do regime que abre caminho para uma ditadura aberta. Também na ditadura militar o AI-2 abriu caminho para o AI-5. 

Mas o recrudescimento do regime no momento atual está sendo feito com o apoio de uma parcela de representantes da esquerda, isso feito não por engano ou burrice, mas pela cretinice parlamentar, pelo desejo de ser conciliar com os golpista para garantir seu lugar ao sol no próximo pleito. Para isso sacrificam mesmo o interesse popular que muitos dizem defender.

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