Vingadores – Guerra Infinita: um filme malthusiano

A última produção da Marvel pelo selo “Disney” nos cinemas, Vingadores – Guerra infinita, mostra um vilão (sempre tem de haver um vilão!) obsecado pela ideia de reduzir a população do Universo pela metade. Necessário, segundo ele, pelo fato de os recursos naturais serem já escassos.

Esse vilão, Thanos, vai com seu exército, de planeta em planeta, aniquilando metade de suas populações. Mas, precisando de mais poder, passa a recolher os elementos místicos que lhe possibilitarão reduzir a população do universo com um simples estalar de dedos. É uma solução malthusiana.

Thomas Malthus, economista liberal inglês, desenvolveu a conhecidíssima tese de que a produção de alimentos crescia numa proporção bem menor do que a do crescimento populacional. E o desiquilíbrio só não era maior por causa das guerras, de pestes e da fome. A tese de Mathus foi vencida pela realidade. Derrotada pelos avanços científicos na produção de alimentos e outros produtos essenciais à vida.

A proposta de Malthus para o problema proposto por ele era deixar morrer aqueles que não tivessem recursos. O governo não deveria ampará-los. A fome era um problema moral. O pobre não consegue, segundo ele, conter seus apetites sexuais e põe no mundo filhos que não pode sustentar. É, em essência, o pensamento liberal.

Desde Malthus, percebe-se que o pensamento liberal, buscando a objetividade e o cientificismo, procura ser frio e cruel, se necessário. Não tarda muito para que essa frieza e objetividade transponham  o âmbito humano e se comece a pensar até mesmo em eugenia. No caso de Malthus, uma eugenia moral. No caso de Hitler, uma eugenia racial. No caso de Thanos, uma eugenia aleatória: eliminar metade da população sem escolher quem sobra.

Mas Thanos é até mais liberal do que Friedman. Se Friedman e seus Chicago boys usaram o Chile de Pinochet como laboratório de teste para suas teses liberais — sem admitir que nunca funcionaram —, Thanos, obsecado por uma ideia, mais do que por uma realidade, parte de imediato para a aplicação. Sem testes, sem estudos. Ele é o senhor do universo. Mas, acima dele, está o liberalismo.

O liberalismo tem de ser implantado no universo inteiro por meio de um poder supremo, incontestável, autocrático. Isso já se observa no mundo hoje, desde o concenso de Washington. E a consequência disso é que, cedo ou tarde, tais ideias não terão mais freio. E já sabemos onde chegarão. Basta ler o próprio Malthus.

E o filme parece, de certo modo, subscrever essas ideias. É quando, no filme, o Doutor Estranho diz ao Homem de Ferro ter sido aquela a única solução. É claro que sabemos que isso terá implicações na sequência do filme (que virá no ano que vem) e que as palavras do Doutor Estranho receberão um novo sentido. Mas, até ali, o que ele diz é que aquela eugenia era o menor dos males, a melhor entre milhões de outras possibilidades. E, ao final, o sucesso de Thanos serve para dizer algo mais ao espectador decepcionado: era inevitável. Mas bastava, para isso, ter lido Malthus.