Mourão revelou
“É bom que os brasileiros se preocupem com o que fazem, ou podem fazer, as suas Forças Armadas”. Soa ou não como uma ameaça de golpe militar?

Por: Redação do Diário Causa Operária

Rafael Dantas

Rafael Dantas

Membro da direção nacional do PCO. Diretor de redação do jornal Causa Operária. Colunista do Diário Causa Operária. Apresenta o programa Panorama Brasil, de segunda a sexta-feira, 12h15, e o Resumo da Semana, aos domingos, 20h30, na Causa Operária TV.

Mais uma vez, o ideólogo do golpe militar no século XXI, o general e vice-presidente Hamilton Mourão, se manifestou sobre seu tema favorito. Em coluna no jornal O Estado de S. Paulo, Mourão deixou claro que os brasileiros podem esperar que as Forças Armadas intervenham para colocar “ordem na casa” quando entenderem que for necessário. Prometeu também que os militares vão satisfazer os brasileiros que esperam “algo mais” das Forças Armadas.

As afirmações do vice de Bolsonaro impressionam pela crueza com que revelam que o regime político brasileiro está apoiado no consenso dos militares golpistas de 1964 de que era preciso ceder os anéis para não perder os dedos. “Goste-se ou não, foi o regime instalado em 1964 que fortaleceu a representação política pela legislação eleitoral, que deu coerência à União e afastou os militares da política, legando ao atual regime, inaugurado em 1985 e escoimado de instrumentos de exceção, uma República federativa à altura do Brasil“, disse, reforçando a recente comemoração do golpe militar de 57 anos atrás pelo presidente e o ministro da Defesa.

Em outras palavras: a “democracia” brasileira só é “democrática” porque os militares assim o querem. 

Mourão mostrou a  linha tênue que nos separa de uma ditadura militar. “Não é a presença de militares no governo que o define. Sempre houve e continuará a haver militares no governo”, escreveu. Está mais do que certo e, ao mesmo tempo, mais do que errado. Os militares, de fato, continuam a governar – ora pelas brechas, ora mais diretamente – mas o papel que cumprem no regime é justamente o que define a “democracia” brasileira como uma fraude.

Vivemos em um regime tutelado pelos militares e mesmo que não sejam eles a dar as ordens publicamente, está claro que seus interesses prevalecem em questões estratégicas. Que outra explicação haveria para a queda de braço em torno da privatização das empresas estatais? É difícil para o “Ministério das Privatizações”, sob o comando de Paulo Guedes, cumprir sua promessa junto aos grandes capitalistas e ao mercado financeiro com tantas fardas penduradas nesse enorme cabide de emprego. 

Hoje, 96 militares ocupam cargos de comando nas cúpulas das maiores estatais, dez vezes mais do que no governo Temer. Mourão explicou ao Brasil que é pouco. Eles querem mais e, para o vice-presidente, fazem por merecer. Ele menciona a “lealdade, probidade e a competência técnica requeridas para qualquer função no serviço público” e o povo brasileiro pode conferi-las em primeira mão na sua ação no Ministério da Saúde, por exemplo. 

A afirmação estapafúrdia do general vem embutida com uma desculpa pronta: “só cumprimos ordens”. Nas palavras dele, “no que diz respeito aos militares, em qualquer país do mundo o que distingue as democracias das ditaduras são as ordens que lhes são dadas”. Ou seja: só é ditadura quando o presidente mandar, não quando o presidente é produto de um golpe de Estado. Mas, para que então serviria um golpe militar se não é justamente para legalizar ações ilegais das Forças Armadas, que passam a atuar sem constrangimento do regime constitucional? 

Mourão revelou, mais uma vez, que os militares esperam que, quando eles mandarem, o povo brasileiro obedeça.

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