No Festival de Cannes, um “Fora Bolsonaro” silencioso

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Desta vez não teve protesto no tapete vermelho do Festival de Cannes que teve início na terça-feira, dia 14, na França. Novamente, o diretor pernambucano, Kleber Mendonça Filho, agora acompanhado na parceria de direção do longa, por Juliano Dornelles, apresentou mais um filme na principal mostra competitiva, “Bacurau”.

Em 2016, protesto contra o golpe no Brasil

Kleber Mendonça volta à principal competição de cinema do mundo com mais um filme polêmico. Em 2016, a polêmica em torno de “Aquarius” ficou por conta do protesto que ele, atores e parte da equipe fez na premier do filme no tapete vermelho. Protesto para milhares de jornalistas e centenas de órgãos de imprensa, denunciando o golpe de estado que estava em marcha com o impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef. Em um momento em que boa parte da esquerda brasileira estava dividida e não enxergava o golpe, ou não queria enxergar..

Este ano, com o anúncio de mais um filme de Kleber Mendonça na competição e com o golpe já muito avançado, a expectativa era grande para que um novo protesto acontecesse no tapete vermelho, mas nada aconteceu. Era também de se esperar já que após o protesto anterior a pressão sobre o diretor e o próprio filme “Aquarius” foi imensa da direita golpista. O filme foi boicotado de diversas formas e o diretor perseguido e atacado por suposto desvio de verba e acúmulo de funções em órgãos públicos.

O diretor desta vez foi mais contido e chegou a declarar que o protesto seria o próprio filme. E de fato parece que o filme vai dar o recado, o que eu chamo de um “Fora Bolsonaro”, mais discreto, silencioso.

Óbvio que ainda não vi o filme, não posso falar com total propriedade, mas pelo que li e pelo ótimo teaser que já está disponível na internet é possível prever que este é um filme que critica de maneira alegórica, o golpe e o atual governo.

Em 2019, tapete vermelho sem protesto, por enquanto

Alguns elementos apresentados sobre a história do filme mostram que ele tem muito a ver com o momento atual do Brasil. Em uma cidade fictícia do sertão pernambucano, chamada Bacurau, a população se vê abandonada pelo estado e precisa reagir, ou resistir, contra um bando de forasteiros armados, estrangeiros, mais especificamente norte-americanos, que querem tomar a cidade de assalto. Um detalhe é que a cidade sumiu do mapa, literalmente, não aparecem registros de Bacurau. Só esta premissa já seria suficiente para entender o recado. Junta-se a isso um prefeito corrupto que não oferece nenhuma assistência à  população, uma gama de personagens interessantes e uma mistura de gêneros cinematográficos que vai do terror, ao filme de faroreste e à ficção científica, ou seja, cinema com crítica política e ainda deleite para os cinéfilos e amantes do cinema apreciarem as referências cinematográficas. Neste quesito são muitos os filmes “citados” em Bacurau, “Mad Max” (1979), “Warriors – Os Selvagens da Noite” (1979), “Por um Punhado de Dólares” (1964), “Os Sete Samurais” (1954), “O Albergue” (2006), “Contatos Imediatos de 3º Grau (1978), “Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), “O Gangaceiro” (1953) são algumas das muitas referências.   

Não é possível afirmar muita coisa, mas cito aqui um trecho de uma crítica que li do crítico Luiz Carlos Merten que viu o filme. O trecho pode corroborar a minha expectativa: “[No filme] Há um político autoritário que quer dobrar a resistência de Bacurau. Surgem, e não por acaso, esses mercenários estrangeiros – que só se comunicam em inglês – e instauram a matança. O grupo de assassinos inclui, entre os representantes, um integrante do Poder Judiciário, ou que pelo menos porta uma carteira que o identifica como tal. Para fazer frente à política mancomunada com interesses externos, a população, que não é nada subserviente, pega em armas.” Com essa descrição, o filme parece muito promissor.

Posso estar equivocado, espero que não, a polêmica com este novo filme de Kleber Mendonça talvez demore um pouco para ser instaurada, no caso de “Aquarius” ela iniciou no tapete vermelho, no caso de “Bacurau”, será necessário ver o filme. O protesto não foi direto, pena, apesar que ainda tem a premiação que será no sábado, dia 25, vai que o Kleber e Juliano tenham que subir ao palco para receber algum prêmio, vai que. É esperar. Mas me parece que ao chegar aos cinemas, o filme vai gerar protestos, e estes não serão silenciosos.