Miséria “sem viés ideológico”
Segundo um informe da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), na Argentina a fome já atingia 14,2 milhões de pessoas entre 2016 e 2018
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"Macri=fome". Foto: Juan Mabromata |

Se depender da imprensa burguesa, a fome na Argentina nunca vai ter nenhuma importância. Você nem ficará sabendo que existe tal coisa, fome na Argentina. Será quase como a fome no Brasil, que voltou depois do golpe e atingirá milhões de novas vítimas nos próximos anos caso a direita não seja derrotada. A fome dos argentinos não serve de munição para a imprensa capitalista fazer sua campanha política. É diferente da fome na Venezuela, essa sim existe nas páginas do jornais da burguesia, ostensivamente.

A fome na Argentina, porém, existe. Segundo um informe da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), na Argentina a fome já atingia 14,2 milhões de pessoas entre 2016 e 2018. É um aumento de 71% em relação à fome no final do governo Kirchner, quando o problema atingia 8,3 milhões, entre 2014 e 2016. A população da Argentina é de 44 milhões, de modo que esses 14 milhões representam quase 1 terço de toda a população.

A comparação entre Venezuela e Argentina, no entanto, é injusta. A Argentina produz alimentos, e muito. Seria o suficiente para alimentar 400 milhões de pessoas. Quase dez Argentinas. Enquanto isso, a Venezuela nunca conseguiu desenvolver outros setores além do petrolífero, seja durante o governo chavista, seja durante governos anteriores. De modo que a queda do preço do petróleo atingiu o país em cheio. Além disso, a Venezuela é vítima de restrições econômicas impostas pelo imperialismo, incluindo o puro e simples roubo de ativos de suas empresas estatais fora do país e dinheiro retido em bancos no exterior. Uma ampla sabotagem econômica visando um golpe de Estado.

A Argentina não sofre esse tipo de sabotagem econômica externa. A sabotagem parte do próprio governo, que adotou políticas neoliberais de cortes de gastos sociais e de subsídios, além de uma reforma da previdência que, como no Brasil, é um roubo em massa dos velhinhos. O próprio governo sabota a existência de milhões de pobres, que constituem quase um terço do país e que estão aumentando, para salvar o lucro de poucos capitalistas, principalmente estrangeiros.

Essa guerra contra a população é o neoliberalismo. E é por isso que a fome na Argentina não merece alarde nas páginas da imprensa burguesa, pois esses jornais apoiam o programa neoliberal. Usam a fome na Venezuela, fruto de uma sabotagem deliberada, para provocar a fome “sem viés ideológico” do neoliberalismo. Em sua campanha eleitoral, Bolsonaro dizia que o Brasil corria o risco de “virar a Venezuela”. Agora o Brasil caminha, caso a direita não seja derrotada, para virar uma Argentina. A vantagem é que, embora a fome vá se espalhar pelas ruas, ao menos no noticiário não será um tema frequente.

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