Sinal vermelho para o Império
A situação da Colômbia é grave e vai muito além de reivindicações pontuais. A greve geral aponta para uma crise geral do governo e coloca em cheque o atual sistema político.
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CGT cauca 2
Trabalhadores em marcha no dia da Greve Geral em 21 de novembro de 2019. Foto: CGT Colombia/Twitter |

No dia 21 de novembro, teve início uma greve geral na Colômbia, com milhares de trabalhadores nas ruas, colocando mais fogo na luta de classes recém exacerbada no Continente Latino Americano.

A greve vem na esteira de manifestações de massa e das greves no Chile, da erupção dos protestos sociais no Equador, de meses de mobilização no Haiti, de protestos violentos em Honduras, da resistência dos trabalhadores e camponeses bolivianos ao golpe militar de direita apoiado pelos EUA. Agora os trabalhadores colombianos se mobilizam contra as políticas neoliberais na quarta maior economia da América Latina.

O país teve suas ruas ‘invadidas’ por cidadãos cansados, mas conscientes de que este é o momento propício para a luta. Sem uma estatística oficial, estima-se que entre 200.000 a mais de 1.000.000 de pessoas participaram da mobilização em todo o país.

Mais de 100.000 marcharam na chuva por Bogotá, Capital do país[1]. Em Barranquilla, o protesto agregou cerca de 80.000 pessoas e em Medellin, contabiliza-se 70.000 manifestantes. Do mesmo modo, pelo menos 20.000 marcharam em Cali, e dezenas de milhares participaram em mais de 100 cidades da Colômbia[2].

 Importante ressaltar que foram dezenas de organizações as que participaram da greve, principalmente os sindicatos, mas também grupos de direitos indígenas e organizações estudantis. Em todas as grandes cidades, os manifestantes bloquearam o transporte público, fechando ruas e estradas em todo o país. O governo, por meio da polícia atuou violentamente, desde os primeiros movimentos da greve[3].

A quarta morte provocada pela polícia foi a gota d’água para que se decidisse por uma nova greve, com início no dia 27. O Esquadrão Móvel Antidisturbios (Esmad) atingiu o jovem Dilan Cruz, no sábado, dia 23, com uma bomba de gás, chegando a expor seu cérebro tamanha a violência do ataque. Dilan Cruz morreu no hospital.

Diógenes Orjuela, presidente da Central Unitaria de Trabajadores (CUT), informou, após reunião com o governo:

“Mañana 27 de noviembre vamos a realizar otro paro nacional en todo el país junto a grandes jornadas de movilización para reclamarle al Gobierno que negocie el ‘paquetazo’ que nosotros hemos señalado como las causas que han prendido esta protesta social”

 

Ao mesmo tempo, à medida em que a greve geral se desenvolveu e a adesão às manifestações foram aumentando, apareceram outras demandas que foram sendo agregadas, entre elas: a questão da saúde, o problema ambiental e do fracking (método de extração de petróleo considerado perigoso e danoso para o meio ambiente), o desmonte do Esquadrão Móvel Antidistúrbio da polícia.

Desde a semana passada, portanto, o que temos é o povo colombiano mobilizado, de forma permanente, contra o governo de extrema-direita de Iván Duque. Milhares de manifestantes lotam a Plaza Bolívar em Bogotá, a principal praça da capital. Ali, lembram a violência do Estado contra manifestantes no Chile, onde centenas de pessoas perderam a visão após serem baleadas por balas de borracha. Em uma das manifestações, pode-se ver uma grande faixa pendurada em um dos lados da praça com os seguintes dizeres: “Quantos olhos nos custarão para abrir os deles?”

O governo, mesmo considerando que a mobilização não é ainda tão grande como a que se vê no Chile, por exemplo, ou como a que aconteceu no Equador e na Bolívia, chamou o comando de greve para o diálogo, ficando claro que tem medo de que as mobilizações se radicalizem.

O governo sabe que a tendência é a radicalização, por isso, embora tenha tomado todas as medidas para mostrar força e reprimir com violência os protestos, julga que ceder um pouco pode refrear o movimento[4].

Obviamente a chamada para um ‘diálogo’ é uma manobra, muito conhecida entre nós. Mas o fato em si, de um governo de extrema-direita, com uma máquina de guerra em suas mãos, uma polícia das mais violentas do mundo, considerar negociar com sindicalistas e movimentos sociais, indica uma crise política de dimensões gigantescas.

O governo está em crise, está muito fragilizado, como indica a baixa popularidade do presidente[5]. Além de questões complicadas que acompanham a história do país, algumass mal resolvidas e mal compreendidas, como a do narcotráfico e da luta armada[6], a crise atual não se deve apenas à situação crítica do próprio país, mas também porque o continente tem dado mostras de que as políticas da direita e da extrema-direita são rechaçadas e sua rejeição tende a alcançar os seus representantes, seus partidos. No entanto, embora conte com a capacidade de ataques violentos, como têm ocorrido no Chile, sabe que, nesse momento, esse caminho não implica êxito, ao contrário, pode levar a situações que beiram a uma revolução.


NOTAS:

[1] A multidão encheu as ruas e fechou 130 estações de ônibus (da Transmilenio).

[2] Também ocorreram protestos de solidariedade em vários lugares mundo afora, entre os quais Paris, Londres, Buenos Aires, Munique, Nova Iorque, Sidnei, Madri, Miami e São Francisco.

[3] Logo no primeiro dia, 21 de novembro, foram registradas três mortes no departamento de Valle del Cauca (sudoeste do país). A ultima contagem realizada registrava que a violência do estado contra os protestos produziu: 500 feridos, entre civis e militares, 172 presos e 61 estrangeiros expulsos do país, sob acusação de vandalismo.

[4] Além disso, é bom registrar que Ivan Duque está nas cordas. Com uma popularidade das mais baixas na história da republica colombiana, o atual presidente – de quem dizem ser um poste de Álvaro Uribe, um extremista de direita e um dos mais fiéis porta-vozes dos EUA no continente -, em apenas 15 meses acumula muitos revezes. Um dos últimos ocorreu no começo do mês de novembro, o ministro da Defesa, Guillermo Botero, renunciou ao cargo para escapar de uma moção de censura no Senado, em face de acusações de ter reavivado o ‘fantasma das execuções extrajudiciais’, além de ter ocultado a morte de oito menores de idade em um bombardeio contra dissidentes da extinta FARC, no fim de agosto.

[5] Para se ter uma ideia, já em 2018, após protestos em diversas cidades do país, uma pesquisa do Instituto Invamer, considerado um dos mais confiáveis do país, mostrou queda enorme de popularidade de Ivan Duque—de 54%, em setembro, para 27%, em novembro de 2018. Pesquisa de agosto deste ano, do mesmo instituto Invamar, confirma a queda de popularidade (uma perda de 24% de popularidade desde que começou o governo0, e uma taxa de desaprovação da ordem de 56,4%. Outra pesquisa, feita pelo Centro Nacional de Consultoria – CNC, indica que 54% dos colombianos tem uma imagem negativa do governo. Na Capital, Bogotá, por a desaprovação chega a 70,8%.

[6] A ‘luta’ contra o narcotráfico e a equiparação da guerrilha ao narcotráfico é um dos motivos pelos quais os governos de direita e de extrema-direita, como o de Álvaro Uribe, se aproximaram tanto dos Estados Unidos e transformaram o país numa espécie de grande base militar dos norte-americanos.

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