Esquerda
Esquerda parece esquecer que a luta de classe está presente em toda a sociedade, inclusive na ciência, e baseia suas decisões simplesmente no argumento ‘técnico’
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Hospital lotado. Imagem: Décio Trujilo/Agência Brasil. |

A pandemia de Coronavírus está gerando um grande debate entre os ativistas de esquerda e uma enorme confusão causada por setores que defendem a ciência, como se não houvesse divergências entres os cientistas e que seria imune às ideologias. E também de ignorar decisões baseadas na luta de classes e de orientações políticas.

A ciência como toda atividade humana não está separada das relações sociais e nem imune aos interesses de determinada classe social. Os cientistas também vivem na sociedade e sua atividade também é marcada pela luta de classes ou influenciada por ela.

Nesse sentido, é preciso ouvir todos os lados da chamada ‘técnica’ realizada por especialistas em determinado assunto, no caso em questão, sobre o coronavírus e as medidas a serem tomadas. Até porque neste assunto há diversos cientistas e especialistas em saúde pública que apresentam versões diametralmente opostas.

Há especialistas que estão cobrando medidas de quarentena e até pedindo medidas mais duras sobre a quarentena, como a imposição de um Estado de Sítio para evitar a aglomeração de pessoas através da quarentena forçada. Como existem também, especialistas no assunto afirmando que a quarentena não irá impedir a disseminação do vírus e muito menos impedir as mortes.

A decisão não pode ser meramente técnica. O técnico lida, neste caso, com biologia e não com política. Da mesma maneira que um economista não pode tomar as decisões do Estado. Um economista apresenta cálculos e números para embasar decisões dos governos, mas a decisão não pode ficar na mão de uma pessoa que somente olha para as questões econômicas. Um bom exemplo é que a decisão de fazer quarentena deixaria um economista neoliberal totalmente doido, pois diria que a economia não iria se sustentar e ter consequências desastrosas e até sugerir que os mais velhos se sacrifiquem pela economia, como dizem alguns liberais.

No caso da quarentena é a mesma coisa. O especialista lida com questões da biologia e não da política, simplesmente dizer que as pessoas têm que fazer quarentena não resolve problema nenhum. E de uma maneira bem simplista, acaba colocando a culpa da disseminação do vírus e das mortes na população. Seria como dizer que se a pessoa morreu de fome é porque não se alimentou e não verificar as condições que a pessoa vivia ou os problemas existentes, como uma seca, por exemplo.

Setores da esquerda estão tomando a decisão cega de ir à quarentena e até apoiando medidas mais repressivas contra a população que vão se voltar contra a própria esquerda no agravamento da situação. Estão apoiando cegamente a decisão de ficar em quarentena, de acordo com os “técnicos” internacionais, em única medida tomada por políticas da direita (com exceção de Bolsonaro). E não observam que não há condições para a esmagadora maioria da população em ficar m quarentena ou um isolamento mínimo sequer, pois são trabalhadores informais, vivem em bairros pobres e favelas sem as mínimas condições, casas de um ou dois cômodos ou são forçados a trabalhar pelos patrões.

Também não ouvem outros especialistas que afirmam que a quarentena é ineficiente se não houver um sistema de saúde forte e adequado para a população, com profissionais protegidos, testes suficientes para toda a população e medidas sociais para manter o trabalhador em sua residência.

O PCO como um partido político e uma posição de defesa dos trabalhadores, compactua com a tese de que a quarentena no Brasil não irá resolver o problema da disseminação do vírus. Isso porque além de observar o ponto de vista de diversos especialistas, com experiência na ciência marxista, sabe que as classes sociais estão divididas e que as medidas tomadas pela direita até o momento não resolvem a situação para o trabalhador e a população explorada.

Entende que vai haver o colapso do sistema de saúde no Brasil, mesmo com a afirmação que a quarentena irá diminuir o número de infectados num curto espaço de tempo, o SUS vai sobrecarregar da mesma maneira, até porque não há as mínimas condições nem para as doenças já existentes, como a dengue, tuberculose, febre amarela e uma centena de outras doenças. Imagina com o aumento de internações em decorrência do coronavírus.

A conclusão política do PCO foi tão acertiva que o vazamento do relatório da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) sobre a pandemia de coronavírus no Brasil iria deixar o sistema de saúde em colapso em 15 dias.

Então, a decisão sobre o combate ao coronavirus tem quer ser política e não apenas técnica. Fica evidente que as pessoas saírem de casa podem pegar, transmitir e vir a óbito por causa da pandemia, mas a falta de testes, hospitais, leitos de UTI, fome e desespero também vão matar fruto de um governo que não quer tomar nenhuma medida para proteger a população, incluindo os trabalhadores.

O que fica claro é que não podemos tomar a decisão só porque um técnico ou cientista disse o que fazer. É necessário entender o que está acontecendo e as condições para aplicar tal técnica, é como dizer racismo não existe porque não há diferença genética ou coisa do tipo entre negros e brancos, mas na prática há racismo e as condições econômicas entre o branco e o negro são muito diferentes.

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