Quem dá limites à burguesia?
Ao dar um golpe de Estado para calar o povo, a burguesia chilena está agora ganhando de presente uma guerra civil.
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Plaza Italia, Santiago. (Foto: Pedro Ugarte) |

O Estado burguês, a ditadura da burguesia, por alguns ainda chamada de “democracia”, é na realidade um imenso aparato de coerção, de exercício de poder em estado bruto, pela força, e de repressão e contensão social, revestido com uma tênue camada de direitos individuais, que são respeitados somente e até onde atendam aos interesses da burguesia.

A burguesia dispõe da coerção do Poder Judiciário, produz suas próprias leis através dos políticos que são eleitos por meio de sua propaganda e do seu dinheiro, e conduz diretamente as polícias e as Forças Armadas para que executem as suas ordens, muitas vezes contrariando até mesmo mandatários do executivo, quando estes não baixam suas cabeças à vontade da classe dominante.

A imprensa leva avante a propaganda burguesa, disfarçada de apresentação jornalística imparcial de fatos, revestindo a voz da burguesia com a máscara da opinião pública.

Diante desta imensa máquina de controle de massas, absolutamente imprescindível para a persistência da sociedade de brutal exploração em que ainda somos obrigados a viver, muitos são levados a acreditar que o povo nada mais pode fazer do que se submeter ao mundo “como ele é”, e que, ainda que possamos fazer alguns protestos aqui e ali, é a burguesia que no fim das contas decide tudo, pois a sua capacidade de impor a sua vontade às massas é completo.

A nós, povo, não restaria nada mais do que tentar negociar com os nossos senhores burgueses, e torcer para que eles não acordem amanhã de mau humor, loucos para impor um regime ditatorial a todos nós com um golpe militar, por exemplo, e seus tanques abolindo nas ruas as poucas liberdades civis que ainda restam.

Poderiam pensar que seria até melhor não incomodar muito a estes poderosos senhores burgueses, não despertar-lhes a ira contra nós, para que não decidam retomar o seu chicote verde-oliva e nos devolver aos pelourinhos dos quartéis, com todo o seu histórico aparato de tortura.

O problema é que os acontecimentos como os do Chile, Equador, Haiti, Honduras, e também do Brasil, demonstram que, entre a vontade aparentemente onipotente da burguesia e a sua capacidade de realmente concretizar as suas intenções há um verdadeiro oceano, muitas vezes não exatamente “pacífico”: o povo.

Esta situação ficou particularmente clara no Chile.

Ao dar um golpe de Estado para calar o povo, a burguesia chilena está agora ganhando de presente uma guerra civil.

A questão é que, ao contrário do que a ideologia burguesa tenta nos convencer a todo momento, o povo não é uma simples massa amorfa de indivíduos isolados, cada um vivendo a sua própria vidinha, um amontoado de pessoas apenas interessadas na própria sobrevivência ou em “subir na vida”.

O povo é a enorme força contrária aos interesses da burguesia, cujo poder excede em muito o da própria classe dominante, embora, na maioria das vezes, encontre-se em estado de latência ou parcialmente adormecido, embalado pela ideologia burguesa que coloca toda esta imensa capacidade de luta, capaz de vencer qualquer regime golpista, em um verdadeiro ponto cego do cenário político de todos os países capitalistas.

A burguesia não conhece nenhuma maneira de autocontenção do poder. Ela exerce todo o poder que pode exercer sempre. É contida apenas e tão somente por algum outro poder que lhe faça oposição e que concretamente o limite.

Se a burguesia pudesse, não resta nenhuma dúvida de que ela reduziria toda a humanidade a um amontoado de escravos sem direito algum, como aliás ocorreu por bastante tempo, nos séculos em que a mão de obra escrava, além do próprio mercado de escravos, formavam algumas das pilastras-mestras da acumulação primitiva de capital, com as quais os ricaços de hoje iniciaram suas fortunas.

Na América Latina toda, por exemplo, onde o imperialismo leva avante um enorme plano de implantação de regimes fascistas, somente não temos golpes militares estourando em todos os lugares devido ao receio – justo receio, por sinal – que a burguesia tem da reação popular.

É o povo em luta crescente que coloca a burguesia na defensiva, ora adiando o fascismo declarado dos regimes francamente militares, ora tentando despolarizar (leia-se, despolitizar) a sociedade com ilusões pacifistas e bem-pensantes, enquanto enfia a faca até as costelas do povo.

Se não houver luta, ou se esta luta der alguma trégua, ou mesmo despolitizar-se, perdendo o seu caráter classista, a burguesia vem com todas as forças e fecha todos os regimes que puder na América Latina.

Se o regime golpista brasileiro, por exemplo, vencer o “Fora Bolsonaro” e sepultar a luta pela “Liberdade de Lula”, equilibrando-se, ainda que minimamente, os generais provavelmente serão chamados a tomar ostensivamente o poder político do país.

Entretanto, a enorme população operária brasileira, sua histórica capacidade de luta, toda a resistência popular demonstrada com povo nas ruas nos últimos períodos, o crescimento de organizações populares de base, como os comitês de luta contra o golpe, comitês Lula Livre e tantos outros, e o perigo sempre presente representado por enormes organizações de massas, como a CUT e o PT, são fatores que certamente refreiam estes ímpetos fascistas da burguesia no nosso país.

A quase irresistível vontade burguesa de dar um golpe militar no Brasil também encontra seu freio na liderança fundamental de Lula, que se mostra para as massas como a sempre presente esperança de virar o jogo do golpe e dar um fim na onda de ataques à população que estamos vivendo.

Outro inimigo declarado para os planos dos golpistas, não resta qualquer dúvida, está no ímpeto independente de luta do PCO, cujo respeito crescente dentro da militância se traduz em capacidade também crescente de uma mobilização popular altamente politizada e decidida.

Em resumo, se no Chile as coisas já não estão indo bem para a burguesia, no Brasil, o perigo que ela enfrentaria em um golpe militar certamente é muito maior.

E se a burguesia tenta fechar o regime aqui e ganhar de presente uma explosão social semelhante a do Equador ou do Chile, com a nossa imensa população operária, a guerra civil é praticamente inevitável, assim como possibilidade de que a situação brasileira se alastre por toda a América Latina, colocando em xeque o próprio poder burguês no nosso continente.

Como se vê, a burguesia, é poderosa, mas não onipotente.

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