Criador do Bebop
Hoje se comemora os 100 anos do nascimento de Charlie Parker, um dos mais importantes nomes do jazz, um dos criadores do estilo conhecido como Bebop
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charlie parker & miles davis, 1948 no Royal Roost, NY
Charlie Parker (esquerda) e Miles Davis no Clube Royal Roost em Nova York em 4 de setembro de 1948 | Foto: reprodução YouTube

Charlie Parker foi um músico inconformista, que se sentia restringido pelas então rígidas regras do jazz. Parker, ao lado de outros músicos como Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Charlie Christian, Joe Pass, Max Roach e Clifford Brown, entre outros, reescreveu essas regras, introduzindo novas ideias e mudando a história do jazz, além de retomar o jazz como a expressão do povo negro.

Charles “Charlie” Parker nasceu em 29 de agosto de 1920 na cidade do Kansas no estado do Kansas, Estados Unidos e aos 7 anos de idade se mudou com a família para a cidade também chamada de Kansas, mas no estado do Missouri. Foi o único filho de Charles Parker, um pianista e artista de circo e da ainda adolescente Adelaide Bailey. O pai Charles era viciado em jogos de azar, eventualmente perdendo tudo o que tinha. Desmoralizado, abandonou a família quando Charlie tinha apenas 11 anos, o que deixou o menino arrasado. A mãe, Addie, para consolar o filho pela sua perda, deu-lhe um saxofone barítono, que ela conseguiu comprar de segunda mão.

Primeiros anos

Em 1934 entrou na Lincoln High School, mas o garoto tinha pouco interesse nos estudos, preferindo passar o dia inteiro tocando seu saxofone. Algum tempo depois conseguiu trocar seu sax barítono por um sax alto. Ainda jovem começou a frequentar os clubes da cidade para assistir aos shows de jazz. Seu ídolo nessa época era o saxofonista Lester Young. Aos 15 anos de idade abandonou de vez os estudos e se filiou ao sindicato dos músicos.

Parker praticava todos os dias, muitas vezes até por 15 horas em um dia. Acabou se tornando um grande improvisador, desenvolvendo algumas das ideias que no futuro acabaria dando origem ao Bebop. Nisto teve a ajuda de Buster Smith, um saxofonista que se tornou mentor de Parker.

Nisto vale uma pequena digressão sobre o saxofone. O saxofone alto é um instrumento afinado em mi bemol. Até então boa parte das composições de jazz usavam quatro tonalidades básicas, Dó, Fá, Si bemol e Mi bemol, que trazem digitações mais simples para instrumentos como saxofones, clarinetes ou trompetes. Nessas escalas fica mais fácil passar de uma nota a outra abrindo um ou duas chaves. Mas Charlie não tinha ainda noção sobre isso e costumava praticar em todas as 12 escalas, adquirindo uma habilidade que poucos saxofonistas tinham então. Sua técnica apurada foi fundamental para seus propósitos no futuro.

No final da primavera de 1936 Parker participou de uma jam session no Clube Reno em Kansas. Sua tentativa de improviso falhou quando ele se confundiu e perdeu noção das mudanças de acordes, o que ocasionou uma reação do baterista Jo Jones, da orquestra de Count Basie, que sem dó jogou um prato em sua direção como um sinal para que ele deixasse o palco. O acontecimento não abalou Parker, que concluiu que era necessário estudar e praticar muito mais, algo que se tornou um momento chave em sua carreira. Um ano depois nesse mesmo clube poucos poderiam negar que ele havia voltado em um nível insuperável.

Nesse mesmo ano ele se casou com Rebecca Ruffin, que tinha a mesma idade de Parker. Nesse período Charlie já era um profissional tocando em muitas cidades próximas.

O início de seus problemas com drogas

Durante uma viagem que Parker estava fazendo com uma banda sofreu um grave acidente automobilístico que matou o seu melhor amigo e o deixou muito ferido, com fraturas na espinha e em três costelas. Em sua longa convalescença precisou tomar doses de morfina para aplacar suas dores. Depois de recuperado Parker já estava viciado em heroína e em pouco tempo escalou para a heroína, droga muito comum entre os músicos de jazz na época e que poderia ser adquirida sem muitas dificuldades.

Naquela época o estilo que predominava no jazz era o swing. Era um estilo dançante que dominava toda a cena musical desde meados dos anos 1920. Dentre os maiores nomes do estilo estavam as big bands de Benny Goodman, Count Basie, Duke Ellington, Earl Hines e Fletcher Henderson. Durante muitos anos o jazz era um estilo dominado pelos músicos negros. A popularização do swing trouxe um enorme número de músicos brancos, que acabaram por dominar a cena. No final dos anos 1930 o swing já mostrava muitos sinais de esgotamento, especialmente entre os músicos mais talentosos, que se viam aprisionados em um estilo estagnado, que não tinha mais novidades estilísticas ou aprimoramentos técnicos.

Parker teve a oportunidade de presenciar shows de Count Basie e Bennie Moten que tocaram em sua cidade.

Em 1938 Charlie se junta ao pianista Jay McShann e sua banda. O grupo excursiona por cidades do sudoeste dos Estados Unidos, além de Chicago e Nova York, o que proporcionou a Parker a chance de conhecer a cena de jazz em Chicago e Nova York. Com o grupo de McShann teve a oportunidade de fazer suas primeiras gravações, que apareceriam no álbum de 1941 “Confessin’ The Blues”.

No ano de 1939 Parker se mudou para Nova York, cidade onde nasceram as big bands e alguns dos maiores músicos do jazz como Louis Armstrong e Coleman Hawkins.

O início do Bebop

Para conseguir completar o seu orçamento lavava pratos no clube Jimmie’s Chicken Shack onde ganhava nove dólares por semana. Nesse clube podia assistir às apresentações do pianista Art Tatum, que impressionou Charlie pela sua velocidade e riqueza harmônica. Foi nesse ano que teve uma revelação. Enquanto improvisava em torno do tema “Cherokee” Parker descobriu um novo vocabulário musical e um novo som, elementos que acabariam mudando o rumo da história do jazz.

“Cherokee” era um velho standard das big bands de swing. Parker adorava tocar a música especialmente por causa de uma passagem onde há uma rápida sequência de acordes que incluía as tonalidades de Si, Lá, Sol e Fá, como dissemos acima tonalidades não tão comuns dentro do jazz. Parker descobriu novas maneiras de improvisar sobre o tema, formulando novas maneiras de tocar baseado em uma nova forma de construção de acordes. Parker tocava também em uma velocidade enorme, muito mais rápido do que qualquer big band estava acostumada a tocar. A técnica que Parker desenvolveu em seus primeiros anos lhe trouxe a habilidade de tocar melodias que outros jazzistas menos virtuosos conseguiriam executar.

Mas as descobertas não eram restritas apenas às descobertas de Parker. Vários outros músicos tinham a mesma inquietação, demonstrando que isso era um sintoma dos acontecimentos, percebido por alguns dos músicos mais talentosos da cena. Dentre estes músicos estão o guitarrista Charlie Christian, o trompetista Roy Eldridge e o saxofonista Lester Young. Este foi o embrião da revolução do jazz que ganharia o nome de Bebop.

“Uma música que os brancos não conseguiam tocar”

Em 1942, já cansado de tocar com a banda de Jay McShann, começa a frequentar o clube Minton’s Playhouse, localizado no Harlem, uma das mais comentadas casas de jazz da cidade, pela completa liberdade concedida aos músicos. Lá se apresentavam músicos como o pianista Thelonious Monk, Charlie Christian, o baterista Kenny Clark e o clarinetista Joe Guy. Vamos salientar que eram todos músicos negros, reagindo ao domínio dos brancos nos grupos de swing. Uma frase famosa atribuída a Monk dizia: “queríamos uma música que eles (os brancos) não conseguissem tocar”.

Durante os anos de 1942 e 1944 houve uma greve do Sindicato dos Músicos, que se revoltaram com a falta de pagamentos de direitos autorais em gravações. Por causa desta greve muitas das inovações dos músicos de Bebop acabaram sem registro fonográfico. Apenas em 1945 começaram a ser lançadas as primeiras gravações das colaborações de Parker com Dizzy Gillespie, Max Roach, Bud Powell e outros que tiveram substancial contribuição ao jazz. Neste ano Parker começou a gravar pela gravadora Savoy, onde tinha como músicos nomes como Dizzy Gillespie (trompete), Miles Davis (trompete), Curley Russell (baixo) e Max Roach (bateria).

Em 1944 Parker encontra a formação ideal para seu grupo de Bebop, um quinteto com sax alto, trompete, baixo, piano e bateria. A nova música encontra tremenda resistência entre os jazzistas mais tradicionais. Dentre seus detratores estava Eddie Condon, um branco, líder de uma famosa big band. Mas ao mesmo tempo agradou alguns dos músicos mais velhos como Coleman Hawkins e Benny Goodman. A imprensa também entrou na campanha contra o Bebop publicando matérias com manchetes como “o Bebop perverte os jovens!”. O Bebop foi também banido da programação de várias rádios.

No final de 1945 esta banda de Parker e Gillespie viajou a Los Angeles para uma temporada em um clube. A maior parte dos músicos voltou a Nova York após o fim da temporada, mas Parker ficou em Los Angeles. Lá ele trocou sua passagem de volta para comprar heroína. Só que a cidade não tinha uma oferta da droga como em Nova York, o que levou Parker a crises que acabaram levando-o a uma internação no Camarillo State Mental Hospital por um período de seis meses. Após sair do hospital gravou o disco “Relaxin’ At Camarillo”.

Os últimos tempos

Lançou vários discos marcantes como “Bird And Diz” (1952, junto com Dizzy Gillespie) e “Charlie Parker With Strings” (1949), este último um dos seus sonhos, um disco com acompanhamento de uma orquestra de câmara e um grupo de jazz. Como estudante de música clássica Parker era admirador da música de Igor Stravinsky. Este disco era um projeto de um novo estilo, que ficou conhecido como Third Stream (terceiro fluxo), uma mistura de jazz e música erudita. Em 1953 Parker tocou no Massey Hall em Toronto ao lado de Charles Mingus, Gillespie, Max Roach e Bud Powell. O concerto foi gravado e resultou no álbum “Jazz At Massey Hall”. O interessante é que neste concerto Parker tocou em um saxofone feito de plástico, o Grafton Saxophone.

Os últimos anos de Parker foram trágicos. Em março de 1954 morreu a sua filha Pree, com três anos de idade. Cronicamente deprimido, tentou o suicídio por duas vezes nesse ano, o que fez com que Parker fosse mais uma vez internado em um hospital mental.

Charlie morreu em 12 de março de 1955 na suíte de sua amiga e patrocinadora, a Baronesa Pannonica de Koenigswarter, no Hotel Stanhope em Nova York enquanto assistia a um programa na televisão. A causa oficial da morte foi pneumonia e um úlcera aberta, mas ele ainda tinha um caso avançado de cirrose, além de sofrer um ataque cardíaco. Sua aparência era de um homem na casa dos 50, 60 anos, mas tinha apenas 34, certamente consequência do seu crônico vício em drogas.

O Bebop, maior legado de Parker, teve muito pouco impacto sobre o grande público, que considerava o estilo muito intelectualizado, impossível de ser dançado, compreendido apenas pelos entendidos. Mas sua importância foi enorme, fazendo com que o jazz se tornasse novamente uma música que sempre incorpora inovações técnicas, sonoridades novas e influências externas. A partir do Bebop surgiram outros estilos como o cool jazz, neo-bop e hard bop. O jazz nunca mais se tornou uma música para as massas, sendo que este papel passou para estilos mais acessíveis como o R&B e posteriormente para o rock.

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